Capitulo 1 Tiago
PONTO DE VISTA: TIAGO
Meu nome é Tiago. E pra quem é nascido e criado nessas banda do interior, esse nome num é só uma palavra, é uma sentença. Quem me conhece sabe muito bem o peso desgraçado que eu carrego nesse chão de terra vermelha rachada de sol. Eu sô fazendeiro, nascido no meio do mato grosso, forjado na poeira, no suor e na lida bruta. Tenho o pé grosso de tanto pisar no barro quente e a mão calejada que parece lixa de tanta corda que já puxou. O povo fofoqueiro do vilarejo enche a boca de dente podre pra falar que eu sô um homem determinado pra c*****o, mas também bota defeito dizendo que sô fechado, reservado, arrogante e intenso demais da conta. Que falem a p***a que quiserem, eu num tô nem aí pra língua de gente invejosa. Eu num gasto minha saliva nem meu tempo com fofoca de peão frouxo que num aguenta meio dia de sol na cacunda. A verdade nua, crua e rasgada é uma só: na minha terra, eu mando. Onde a minha bota pesada de couro pisa, a lei é a minha palavra, e ai do caboclo que ouse atravessar o meu caminho. E no meu coração, memo eu sendo bruto que nem um burro xucro, só entra quem tiver muita coragem de ficar e aguentar o tranco pesado da minha vida. Porque homem de verdade num foge do que sente, num vira as costas pro perigo, e eu, p***a, eu num sô homem de fugir de briga, de lida, nem de sentimento nenhum.
Hoje, o sol num tava só quente, a desgraça do astro rei parecia que tinha descido do céu pra lamber o lombo da terra com uma língua de fogo vinda direto do colo do capeta. O mormaço subia do chão de terra batida distorcendo a vista, transformando o pasto ralo, seco e amarelado num inferno particular que cozinhava os miolo de quem ousasse botar a cara pra fora. Antes de montar no meu cavalo, eu tava ali, encostado num mourão de aroeira maciça, ajeitando a sela pesada de couro cru e apertando a barrigueira do bicho. O mormaço era tanto que eu tava com o peito largo todo nu, os músculo travado e brilhando de suor escorrendo. A camisa jeans escura, desbotada de tanto tomar sol e poeira, eu deixo desabotoada e arreganhada memo, porque o calor sufoca e eu num tenho um pingo de paciência pra pano me prendendo quando eu tô no batente.
Meu couro é curtido na roça, bronzeado num tom escuro do sol quente que me castiga o dia inteiro desde que eu me entendo por gente. Os músculo do meu abdômen são trincado feito pedra, o peitoral é largo e grosso de quem num foge do trabalho pesado, de quem levanta saca de adubo no muque, tudo pingando o suor grosso do esforço. Na cintura, amarrando a calça jeans velha e suja de terra, tem a p***a da minha fivela de prata grossa e pesada, com um boi desenhado bem no meio, brilhando no sol. O chapéu de boiadeiro escuro tá sempre socado na cabeça, fazendo sombra na minha cara fechada, escondendo os cacho do meu cabelo preto que gruda na testa molhada de suor e poeira. A barba rala e escura fecha meu maxilar, que vive trincado de raiva ou de concentração, os zóio miúdo de quem num confia nem na própria sombra vigiando a porteira. Meu corpo inteiro é o puro retrato dessa terra seca onde eu piso: duro, castigado, forte, impiedoso e pronto pra qualquer guerra.
Quando terminei de ajeitar a tralha, peguei a rédea de couro, pulei no lombo do Soberano num impulso só, sem precisar de estribo, e me ajeitei na sela. Meu cavalo é um garanhão n***o gigantesco, que é mais endiabrado e violento que o próprio capeta quando cisma com alguma coisa. Soquei a bota com espora sem dó na costela do bicho. O Soberano deu um relincho rasgado que ecoou pelo pasto inteiro e arrancou rasgando o chão de ódio, jogando torrão de terra seca pra tudo que é lado. Eu tava exigindo tudo que aquele animal absurdo tinha pra dar naquela estradinha desgraçada de cascalho. O som pesado e compassado dos casco esmagando a pedra seca, levantando uma nuvem densa, grossa e sufocante de poeira vermelha, era a única cantiga que eu precisava escutar pra acalmar o bicho que vive rosnando dentro do meu peito.
A lida na fazenda num perdoa frouxo, num tem espaço pra quem faz corpo mole ou chora por causa de calo estourado. É sangue, suor, calo grosso e nervo de aço, p***a! Meus músculo das perna tavam travado na aba da sela, apertando o lombo do animal, absorvendo cada impacto daquela cavalgada bruta e violenta, enquanto o cheiro forte de cavalo suado misturado com a catinga de mato seco enchia meus pulmão. Eu respiro essa terra, eu vivo pra isso, e num troco minha paz bruta por asfalto nenhum desse mundo.