Capítulo 2

3101 Words
Um rapaz entrou na sala. Era alto, com porte de um lutador de boxe. Tinha cabelos escuros e curtos, com costeletas. Seus olhos eram negros e maliciosos. Demonstravam a sua personalidade forte e desinibida. E ele viu uma jovem dama sentada na poltrona. Acreditou que o local estaria vazio, para que pudesse esperar o jantar acontecer. De fato, havia chegado uma hora mais cedo, pois desejava o quanto antes terminar aquela visita social. Seu único motivo para ter aceitado o convite de lady Bedford era para encontrar uma esposa adequada. Não era desejo dele se casar, mas desejava um titulo, para poder mostrar a todos naquela sociedade que ele poderia chegar ao topo. Ele já tinha grande sucesso em sua empreitada, com suas várias lojas de roupas na América e em Londres. Mas, mesmo assim, ele não era respeitado. Nem ao menos era convidado para a maioria dos eventos sociais. Ele fingiu que isso não doía, mas estava cansado de ser tratado com desdém pelos nobres. E se pudesse se casar com um, deixaria com raiva todos aqueles que o destrataram em vida. Seria sua vingança por tantos anos em sofrimento e por ser um filho bastardo. A jovem sentada na poltrona estava lendo um livro de forma tão concentrada, que nem havia notado a entrada dele. Parecia absorta e sorria sozinha, a ler o grande volume em sua mão. Ele não pode deixar de se impressionar com sua beleza e por ele ser culta. Era difícil uma mulher em alto circulo social ter preferencias por livros, ao invés de estar interessada em roupas e sapatos. Ele pigarreou, para chamar a atenção dela. Queria ver melhor seu rosto e saber quem ela era. Seria uma convidada, ou a filha de lady Bedford? Ele torcia para que não fosse à segunda opção, pois não deseja se casar com a filha daquela mulher. Deveria ser tão sem cérebro quanto à mãe. A jovem levantou a cabeça e mostrou espanto ao vê-lo ali parado, com os braços cruzados nas costas. - Quem é o senhor? – ela perguntou de forma ríspida. Ele a fitou com a sobrancelha erguida. Apesar de não andar nos círculos da alta sociedade, todos sabiam quem era ele. Além do mais, aquela jovem era m*l educada. Nem ao menos lhe dera um boa noite. - Sou Tyler Barnett – ele respondeu, em tom solene. Os olhos dela se arregalaram. Ela fechou o livro com força, mas não se levantou na poltrona. - E o que o senhor faz aqui? Ela parecia ser um animal arisco, de difícil trato. Como uma raposa que ele resgatara em Hyde Park, de uma armadilha. E seu rosto era oval e delicado, contrastando com seu gênio temperamental. A primeira vista, ela parecia uma fada pela sua delicadeza, mas quando ela abriu a boca, parecia não ter modos. - Eu acredito que eu seja o convidado para um jantar essa noite. E a senhorita é...? – ele deu uma pausa para que ela respondesse. - Eu...er...- ela balbuciou, parecendo muito desconfortável. Ele esperou pela resposta dela que não veio. Pois, logo em seguida lady Bedford acompanhada de outra dama. A duas entraram no ambiente. - Ó, mas que escândalo – lady Bedford disse, com a voz severa – Senhor Barnett, não tem vergonha de entrar em cômodo com uma jovem sozinha? Tyler enrijeceu as costas. Ele entendeu naquele exato momento que havia caído em uma armadilha. Havia se esquecido das etiquetas sociais, de que não deveria estar sozinho no cômodo com uma dama, ou pensaria que ela esta arruinada. E não haveria mais nada a fazer a não ser casar com ela, para reparar sua reputação. - Eu entrei acreditando que a biblioteca estava vazia – ele tentou se defender, afinal, não havia feito nada de errado. E ainda não havia considero se casar, mesmo que quisesse um titulo. E não seria por meios ardilosos com aquele. - Isso é um escândalo – Lady Bedford disse com um tom alto, levando a mão ao peito – Minha sobrinha está arruinada. Arruinada! Seu tom era dramático e forçado. O que irritava demais Tyler. Ele detestava mulheres histéricas. - Sua sobrinha não está arruinada – ele disse entredentes e fitou a jovem sentada na poltrona, parecendo atônita. Mas, ele não sabia se ela estava preparando uma armadilha para ele. Não podia confiar que ela fosse inocente. - Tia Isabella, por favor. Não há nada de errado. Esse cavalheiro entrou por engano, acreditando que a biblioteca estava vazia – ela tentou se explicar. E era melhor que ela explicasse aquilo. Ele não iria se casar de maneira alguma, sendo forçado. - Ora, mas quem garante que ele não fez nada? – a dama ao lado de lady Bedford perguntou, em um tom malicioso. Vestia um vestido em tom azul royal e os cabelos eram loiros claríssimos, como os da condessa. Deveria ser a filha dela. Tyler a fulminou com o olhar e ela baixou a cabeça, constrangida. - Anelise tem toda razão – lady Bedford continuou – Quem garante que o senhor não fez nada a minha sobrinha? Esta tudo acabado para ela. O senhor deveria se envergonhar. Ele mordeu a bochecha, irritado. Como ela se atrevia a ser tão cínica? - Escute aqui, milady, eu não entrei faz dois minutos, por todos os santos! As duas damas se encolheram ao ouvi-lo trovejar. Foi então que a dama em questão, que estava com a reputação supostamente manchada se levantou e se juntou a eles. - Tia Isabella, pode parar com essa cena odiosa – ela disse, com um tom autoritário. Foi fulminada por lady Bedford. Tyler acreditou que com certeza, aquela jovem era muito corajosa para estar na mira da condessa – O senhor Barnett não fez nada inapropriado. Eu insisto que ele acreditou que a biblioteca estava vazia. A condessa se abanou com o teque de cor vermelho, parecendo que iria desmaiar. Ela mudou da agua para o vinho, de repente. - Oh, querida, como é tola – lady Bedford disse – Ele claramente fez sua cabeça. - Não ouse me insultar – Tyler protestou. - Ora, senhor, tenha modos – a senhorita Anelise interveio, segurando a condessa pelo cotovelo – Vamos mamãe, precisamos falar com papai. Ele precisa saber o que houve. - Não é possível! – Tyler soltou um muxoxo. As duas damas saíram do cômodo, deixando Tyler sozinho com a jovem que ele nem sabia o nome. Estaria realmente amarrado a ela? E não seria um plano ardiloso dela, junto com sua tia? Pois, ela havia dito que ele poderia usar a biblioteca, para aguardar o jantar ser servido. Ela não notou que estava ocupada por outra pessoa? - Eu sinto muito, senhor – a jovem dama rompeu o silêncio. Ele a encarou com escarnio. Ela se encolheu diante do olhar duro dele. Foi então, que ele percebeu que seus olhos eram de um azul cinzento. Era um tom tão incomum, que ele se viu fascinado. Ele não esperava ficar arrebatado, por isso, controlou a si mesmo, lembrando que ela deveria ser uma mentirosa e havia tramado contra ele com sua tia. - Não acredito que sinta muito – ele disse, em um tom amargo – Estou preso nesse momento em uma armadilha de um casamento. Ela ficou boquiaberta diante da forma que ele a tratou. Com tanta grosseria e raiva m*l disfarçada. Seus olhos até mesmo lacrimejaram. Era quase comovente aquela cena. - Posso garantir que eu não tenho nenhuma relação com essa armadilha – ela disse veemente. Ela parecia ter entendido a indireta dele, de que ele acreditava que era tudo um plano dela para prendê-lo. Os lábios dela eram uma linha fina e ela parecia realmente ultrajada. Ele quase acreditou nela – E o senhor não deveria se preocupar com isso. Jamais aceitaria me casar novamente por obrigação! - Novamente? – ele balbuciou – Espere, já foi casada? - Mas é claro que sim – ela respondeu com raiva, cruzando os braços – Sou Cecilia Wright, filha do falecido conde de Bedford. Não sabe sobre mim? Sobre minha reputação? Ela parecia querer desencoraja-lo com aquela resposta. E Tyler começou a perceber que não era desejo dela se casar, tanto quanto não era desejo dele. De fato, ele veio para conhecer damas elegíveis para um possível casamento e não para ser preso em uma armadilha. Detestava ser manipulado. Apesar disso, aquela jovem tinha uma beleza cativante. Se ele a tivesse visto no jantar, com certeza ela seria umas das jovens a serem escolhidas. - Então a senhorita era esposa do visconde de Townshend? – ele perguntou, se lembrando do escândalo que acontecera há pelo menos três meses atrás, quando o visconde anulou seu casamento com sua esposa, alegando que não havia consumado o casamento. O que havia de errado com ela, para isso não ter acontecido? Na verdade, ele se perguntou se o visconde tinha algum problema, pois aquela jovem era atraente e elegante. Nem mesmo ele conseguiria colocar as mãos longe dela. Tyler tentou se controlar e guardou seus pensamentos impuros para si mesmo. Não era como se não tivesse visto jovens bonitas em sua vida. - Sim, sou eu mesma – ela respondeu, com se tivesse orgulho disso. O que era de fato, muito estranho – E o senhor não vai querer se casar com uma mercadoria estragada, vai? Ele meditou sobre o que ela disse. Ela tinha toda a razão, mas aquela jovem o havia deixado intrigado, desde que entrou na biblioteca. E ao perceber que não estava sendo enganado por ela, passou a considerar a ideia de casamento. Ela não estava manipulando ele, apenas sua tia. E talvez, ela pudesse ser sua aliada no casamento. - Eu não me importo com reputação, senhorita – ele disse. Ela ficou boquiaberta pela resposta dele. E Tyler sorriu diante do ar atônito dela. Gostou de vê-la surpresa – Eu realmente preciso de uma esposa, para estar dentro dos círculos sociais e com a ajuda do conde, eu irei conseguir isso. Ele não explicou que na verdade, ele queria esfregar naqueles que tinha nobreza de que ele era um simples comerciante, que finalmente conseguiu subir na vida, por meios honestos. E que era tão nobre quanto eles. Principalmente, queria provar a família do seu pai, o conde de Devon, que ele não era um bastardo inútil. Ele nunca foi reconhecido pelo falecido conde e fora tratado com desdém pela família do seu pai. O atual conde, Branwell Riley, era seu meu irmão e legitimo, é claro. E quando Tyler descobriu sobre suas origens por seu tutor, Alastor Barnett, ele quis entrar em contato com a família Riley. Infelizmente, soube que seu pai já havia falecido e que não havia como ele ser reconhecido. Branwell o acusou de ser um mentiroso e que seu pai nunca traíra sua mãe com uma cantora de ópera. Então, o plano de Tyler era mostrar a todos eles que ele era digno e que não precisava de nenhum deles para subir na vida. - Eu não acredito que seja uma boa ideia cogitar em se casar comigo – Cecilia aconselhou. Mas, ele não prestou a atenção em suas palavras, apenas na forma como seus lábios se moviam. E ele acreditou que ela seria a eleita, por ter lábios cheios e beijáveis – Eu não desejo me casar, tampouco. Aquela parte ele escutara e lhe deu um sorriso presunçoso. - Eu não acredito que tenha escolha, senhorita – ele disse, tentando explicar a ela que não havia mais saída, para nenhum dos dois. Na verdade, haveria. Ele poderia ir embora do jantar e esquecer-se de se casar. Teria sua reputação arruinada, se não aceitasse se casar com ela, mas isso nem afetaria seus negócios. Mas, ele não iria dizer isso a ela. Iria apelar para emocional de Cecília – No momento que eu não aceitar o casamento, estará arruinada. E eu também. Não posso em dar o luxo de ter minha reputação destruída. Afinal, sou um mero comerciante. Ele estava sendo modesto. Tyler tinha poder econômico e poderia sair da Inglaterra, morando nos Estados Unidos. E poderia se casar com qualquer jovem dama de Nova York. Mas, ele estava interessado na beleza encantadora a sua frente. Ainda mais pelo fato de ela saber ler. Seria interessante tê-la como sua amante e amiga. É claro, não haveria amor, mas nem os nobres casavam por amor. Por que ele teria aquele luxo, afinal? E ele nem ao menos acreditava no amor. Aquele sentimento era para poetas tolos, além das jovenzinhas que suspiravam com romances com final feliz. E na vida real, o amor não era algo que ele havia visto. Talvez, o amor fraternal, pois seu tutor demonstrara isso a ele várias vezes, sacrificando sua vida por Tyler. - Eu não me importo com a minha reputação – ela replicou – E o senhor vai se recuperar, tenho certeza. Afinal, é homem. Os homens não sofrem pela reputação por tanto tempo, quanto uma mulher. Ela era astuta, realmente. Ele deveria parabeniza-la por isso. Então, os argumentos de Tyler haviam terminado. Realmente tentou pensar em alguma saída, mas não havia nenhuma. Talvez, era melhor desistir daquela ideia. Amanhã com certeza ele acordaria e pensaria que a ideia de se casar era um erro terrível. Mas, nenhum dos dois teve como escolher, pois o tio de Cecilia entrou no cômodo, com sua barriga protuberante. Seu colete preto estava com os botões quase saltando. Esse era o problema da bebida, Tyler pensou. Inchava demais o corpo. É claro que comer em demasia também causava aquela barriga enorme, ele pensou, rindo por dentro. - Então, o senhor entra em minha casa e arruína minha sobrinha? – o conde perguntou, com um tom solene – Não posso acreditar que deixou o senhor entrar, para ser decepcionado dessa maneira. E admiro homens como o senhor, que trabalham para ter seu sustento. Ele estava sendo tão dramático quando sua esposa, e bajulador. Tyler conhecia homens como ele. Que seguiam a moral, os bons costumes, mas faziam ao contrário, sendo perdulários, viciados em jogos e bebida. Aquele homem diante de si era um hipócrita. - Eu juro pela minha honra que nada aconteceu com sua sobrinha. Mas, para reparar sua reputação, eu me caso com ela – ele disse, mesmo sabendo que era ridículo aquilo. Quem viu a cena toda era sua tia. E se ela não quisesse que se transformasse em um escândalo, não diria nada a ninguém. Mas, Tyler já havia se decidido e levaria Cecilia como sua esposa. Era melhor do que escolher entre tantas jovens, que talvez, não desejam se casar com ele. O exemplo de ser rechaçado pela nobreza vinha do seu amigo, Joseph Gordon, que demorou muito tempo para encontrar uma esposa e precisou rapta-la, atravessando o oceano com ela. Alice Thompson, atualmente, Alice Gordon, era sua esposa por contrato, mas os dois demonstravam devoção e amor um pelo outro. Algo que deixava Tyler enjoado. - Ora, muito bem então – o conde de Bedford parecia satisfeito, até sorrio por trás do espesso bigode. - Não! – Cecilia protestou, horrorizada. Tyler tentou não se sentir ofendido pela recusa dela. Afinal, ele era bonito, além de jovem e não um velho obsceno. Seria a melhor escolha para ela, afinal, ela já estava arruinada devido ao casamento malfado com o visconde Townshend. - Ora, mas, senhorita, veja o quanto isso nos beneficiara – Tyler disse, se aproximando dela e puxando sua mão enluvada. Suas luvas brancas de renda estavam manchadas de tinta preta. Ele observou que ela deveria ser uma escritora de cartas costumas, com certeza – E serei um bom marido – ele lhe garantiu, afinal, não era um monstro. - Eu não sei – ela murmurou, com os olhos agoniados. Ele quase teve a vontade de abraça-la, mas refreou o sentimento piegas – Eu não desejo me casar mais. A última vez foi h******l. - Ora, mas minha sobrinha, vai espantar seu pretendente com essa conversa – o conde interveio, com um olhar agradável – Vou deixa-los agora, para que possam conversar. Mas, peço minha sobrinha, que não rechace o senhor Barnett. Não terá uma oportunidade dessas de se casar tão bem novamente – ele a fitou, com um olhar de advertência – E não posso sustenta-la para sempre. Dizendo isso, ele girou pelos calcanhares e saiu do cômodo, fechando a porta da biblioteca. Cecilia encarou a porta, com os olhos magoados. Ela soltou a mão da de Tyler e se sentou na poltrona, puxando o livro para o colo dela, como se fosse à tabua da salvação. A cena era cômica, mas Tyler resolveu entender que ela estava assustada com aquilo tudo. E ele não passava de um estranho. Como ela poderia querer se casar com ele? Percebeu também que a família dela era um ninho de cobras. Eles montaram uma armadilha para casa-la e a venderam, sem pensar duas vezes. Ele sentiu nojo e asco do conde e da condessa. - Pense bem, senhorita Cecilia. Será melhor aceitar o casamento. Não precisamos viver no mesmo teto, depois que o meu herdeiro nascer. A senhorita poderá viver em qualquer parte do mundo e ser livre. Cecilia o encarou, incrédula. - Poderei viver em qualquer parte do mundo? – ela balbuciou. Ele não entendeu o motivo para ela estar perplexa. Afinal, o que ele precisava era somente de um herdeiro e do beneficio de fazer parte de uma família da nobreza. Não precisam se aturar por tanto tempo. Ele disse aquilo para consola-la, no final das contas – O senhor só pode estar brincando! - Ora, mas é comum entre muitos casais. Nosso casamento é baseado em um contrato. Apenas isso. Não precisamos conviver por muito tempo – ele tentou explicar. Ela mordeu os lábios, furiosamente. - Não posso acreditar no que estou ouvindo – ela disse, amargurada. Fechou e abriu os olhos. Parecia ter aceitado a derrota. Mas, Tyler nem compreendia o motivo para tamanha histeria. Ele não a amava e ela também não. Então, qual era o problema? - Muito bem, eu aceito sua proposta. Ela disse com tal desgosto, que ele quase desistiu da ideia. Então, Cecilia se levantou e estendeu a mão. Ele a fitou confuso. - Vamos selar nosso acordo comercial, com um aperto de mão – ela explicou. Ele quase riu daquela cena. Mas, aperto a mão dela e depois, levou aos lábios, beijando-a. Ela suspirou, de repente. E ele achou aquilo adorável. Apesar disso, ele soltou sua mão, percebendo que estava sendo íntimo demais. E não deveria dar falsas esperanças a ela. Não acreditava no amor.
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