Capítulo 1 — O morro e o sonho
O Morro do Papagaio acordava antes do sol. Quando Ingrid abria a janela do quarto, já ouvia portas sendo abertas, crianças chamando umas pelas outras e o barulho distante dos ônibus descendo as avenidas. Para muita gente, aquele lugar era apenas um endereço difícil. Para ela, era casa.
Aos dezessete anos, Ingrid carregava uma mochila simples, alguns cadernos e um sonho que parecia grande demais para a realidade que conhecia. Queria cursar Direito e se tornar uma das maiores advogadas criminalistas de Belo Horizonte. Não queria dinheiro apenas por dinheiro. Queria conhecer as leis, entender por que algumas pessoas eram julgadas antes mesmo de terem oportunidade de falar e, principalmente, provar que nascer em uma comunidade não determinava o destino de ninguém.
Na cozinha, Dona Maria mexia uma panela enquanto organizava as quentinhas do dia.
— Ingrid, pega sua marmita.
— Mãe, eu consigo comprar alguma coisa na escola.
Maria virou-se imediatamente.
— Comprar com qual dinheiro?
Ingrid sorriu.
— Tá bom, eu pego.
Aquela pequena discussão se repetia quase todas as manhãs. Maria vendia comida para sustentar as duas desde que Sérgio, pai de Ingrid, desaparecera de suas vidas quando ela ainda era criança. Ingrid quase não tinha lembranças dele. Sabia apenas que um dia ele estava ali e, no outro, não estava mais.
— Um dia você ainda vai me dar trabalho com esse sonho de ser doutora — Maria brincou.
— Doutora Ingrid. Não esquece.
— E eu vou ser o quê?
— A dona da minha casa.
Maria riu.
— Eu só quero que você seja feliz.
Ingrid abraçou a mãe antes de sair.
Na escola, passou a manhã entre aulas, anotações e discussões sobre um trabalho de História. Na última aula, a professora perguntou onde cada aluno se imaginava dali a dez anos.
Quando chegou sua vez, Ingrid respondeu sem hesitar:
— Num tribunal.
Alguns colegas riram.
Ela não se importou.
Na volta para casa, porém, seu futuro pareceu ficar muito distante.
Sem celular, Ingrid não tinha recebido nenhuma das mensagens que circulavam pelo bairro. Não sabia que uma operação policial havia começado. Não sabia que as ruas estavam tensas. Só percebeu que havia algo errado quando entrou no primeiro beco e encontrou portas fechadas.
Um estampido cortou o ar.
Depois outro.
Ingrid congelou.
Pela primeira vez, o sonho de um futuro melhor pareceu pequeno diante do medo de não chegar viva em casa.