A primeira vez que Ingrid percebeu que Felipe sentia ciúmes foi numa tarde quente, perto da quadra.
Ela estava conversando com Lucas, um colega da escola que havia pedido ajuda com um trabalho. Lucas era engraçado e falava pelos cotovelos. Ingrid ria enquanto explicava uma questão.
Felipe chegou no meio da conversa.
Não disse nada.
Apenas ficou olhando.
Lucas percebeu primeiro.
— É... eu vou terminar o trabalho em casa.
— Mas a gente pode...
— Depois a gente conversa.
Ele saiu.
Ingrid virou-se para Felipe.
— O que foi isso?
— Isso o quê?
— Você espantou ele.
— Eu nem falei nada.
— Justamente.
Felipe deu de ombros.
— Quem era?
— Meu colega.
— Você parecia bem próxima dele.
Ingrid arregalou os olhos.
— Você tá com ciúmes?
— Não.
— Tá sim.
— Não tô.
Ela começou a rir.
— Você tá com ciúmes!
— Ingrid...
— Barão com ciúmes de estudante do ensino médio. Essa eu queria ver.
Felipe tentou manter a expressão séria, mas acabou sorrindo.
— Não gostei dele.
— Você nem conhece.
— Não preciso.
— Precisa, sim.
Ela cruzou os braços.
— E se eu gostasse dele?
Felipe ficou sério.
— Eu respeitaria.
A resposta surpreendeu.
Ele respirou fundo.
— Mas eu não ia gostar.
Ingrid sentiu o rosto esquentar.
Aquele foi o primeiro momento em que o sentimento deixou de parecer apenas curiosidade.
Depois disso, Felipe passou a controlar ainda mais seus próprios impulsos. Não queria transformar ciúme em controle. Não queria ser aquele homem que decidia com quem Ingrid podia conversar.
Ela, por sua vez, descobriu que também sentia ciúmes.
Uma garota chamada Júlia começou a aparecer perto de Felipe. Era bonita, confiante e parecia conhecer todos os segredos dele.
Ingrid viu os dois conversando e sentiu uma pontada desagradável.
Quando Felipe apareceu mais tarde, ela estava fria.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou.
— Não.
— Você tá estranha.
— Pergunta pra Júlia.
Ele entendeu imediatamente.
— Ah.
— Ah o quê?
— Você tá com ciúmes.
— Não tô.
— Tá sim.
— Não tô!
Felipe riu.
— Então tá.
Ingrid virou o rosto.
— Ridículo.
Ele não provocou mais.
Mas, quando se despediram, disse baixinho:
— Não precisa ter medo de perder alguém que ainda está escolhendo ficar.
Ela olhou para ele.
A frase ficou entre os dois.
Ainda não era uma declaração.
Mas estava chegando perto.