2

597 Words
As tardes de brincadeiras despreocupadas foram se tornando memórias distantes. Guilherme passava menos tempo com Letícia, e as visitas ao esconderijo deles, no alto do morro, ficaram cada vez mais raras. Letícia notava que ele evitava suas perguntas sobre o que estava fazendo. Às vezes, ele aparecia com o olhar distante, como se o peso de uma vida que ainda não compreendia estivesse sobre ele. Uma tarde, Letícia decidiu confrontá-lo. Estava sozinha em casa, estudando, quando ouviu um assobio vindo do lado de fora da janela. Era o sinal deles, um chamado que usavam desde pequenos. Ela abriu a janela e viu Guilherme, com um sorriso travesso, mas diferente. Ele estava mais sério, como se algo em sua postura tivesse mudado. Vestia uma camiseta nova, uma corrente de prata no pescoço e um tênis que ela sabia ser caro. "Tá com dinheiro agora, Gui?" perguntou, tentando disfarçar o desconforto ao vê-lo com roupas que claramente não combinavam com o estilo de vida deles. Guilherme deu de ombros. "Tô trabalhando. João me ajuda a ganhar uma grana de vez em quando." A resposta saiu casual, como se não fosse nada demais. "Trabalhando? No quê?" Ele hesitou, desviando o olhar. "Só... ajudando o João em uns negócios. Nada demais." Ela franziu o cenho, incomodada com a falta de clareza. "Não é perigoso, Gui?" "Deixa de besteira, Lê. Perigoso é ficar sem nada. A gente precisa se virar aqui." "Mas isso é só uma fase, né? Você vai largar isso?" Guilherme riu, mas havia um tom de irritação na sua voz. "Letícia, você vive num mundo de fantasia. Não vê que aqui, ou a gente aprende a sobreviver ou fica pra trás?" Letícia sentiu um aperto no peito. Era como se o menino que conhecera estivesse se afastando, sendo levado para um lugar onde ela não conseguia mais alcançá-lo. "Eu só quero que você fique bem, Gui. Não quero que você se machuque." Ele a olhou por um instante, e uma faísca de ternura passou por seu olhar. "Eu tô bem, Letícia. Só tô fazendo o que precisa ser feito." A partir desse dia, Letícia começou a notar o peso da mudança em Guilherme. Ele falava cada vez mais sobre dinheiro, sobre como queria sair do morro, mas suas palavras estavam sempre acompanhadas de uma dureza nova. Ele dizia que queria dar a ela uma vida melhor, mas Letícia não queria aquela versão dele, endurecida pelo tráfico. Ela só queria o Guilherme que conhecia desde pequena. Alguns dias depois, ela viu Guilherme conversando com outros rapazes na esquina. Eles pareciam estar falando de coisas sérias, com expressões fechadas e gestos cautelosos. Letícia parou ao longe, observando, mas logo um deles percebeu sua presença e cochichou algo para Guilherme. Ele virou-se rapidamente, e quando viu que era Letícia, forçou um sorriso. “Ei, Lê! Tá me espionando agora?” perguntou, com um tom de brincadeira, mas ela notou o desconforto em seu olhar. "Queria saber se você vai lá no alto comigo. Faz tempo que a gente não vai pra ver as luzes." "Ah, hoje não dá, tô com uns negócios aqui," respondeu ele, o tom de voz frio. A cada dia, Letícia sentia o coração apertar mais. Era como se estivesse perdendo Guilherme para algo maior e mais sombrio, algo que ela não conseguia entender completamente. Ela ainda acreditava que, com tempo e paciência, ele perceberia que esse caminho só o afastaria das coisas que realmente importavam. Mas, ao mesmo tempo, começava a sentir medo do futuro e do que aquele mundo poderia fazer com ele — e com eles.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD