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963 Words
O sol já estava se pondo quando Letícia viu Guilherme à sua porta. Ele não a visitava com tanta frequência ultimamente, e a presença dele ali, em meio à luz dourada da tarde, a surpreendeu. Ele a chamou para um passeio até o alto do morro, para o lugar especial que eles chamavam de refúgio, e Letícia sentiu seu coração acelerar. Fazia tempo que eles não iam juntos para lá. Subiram em silêncio, como costumavam fazer quando eram crianças, apenas ouvindo o som dos próprios passos e o cantarolar das aves ao redor. Letícia sentia Guilherme ao seu lado, mas ele parecia diferente. Não era só a mudança nas roupas ou no jeito; era algo no olhar, uma intensidade que ela não havia percebido antes. Mesmo sem dizer nada, ela sabia que aquele momento era importante para ele. Ao chegarem no topo, o vento os envolveu, balançando os cabelos de Letícia e fazendo com que ela fechasse os olhos por um instante, sentindo a brisa fresca. Ali, de cima, era possível ver a cidade inteira, as luzes que começavam a se acender e a dança do sol se pondo atrás das montanhas. Para Letícia, aquela visão sempre trazia uma sensação de liberdade, um lembrete de que o mundo era maior do que o morro e suas dificuldades. Ela sentou-se na grama e Guilherme se aproximou, sentando ao seu lado. Por alguns minutos, ficaram em silêncio, apenas observando o horizonte. Foi então que Guilherme falou, sua voz um pouco mais suave do que de costume. "Lê, você ainda pensa em sair daqui?" Letícia o olhou de relance, surpresa com a pergunta. "Penso, sim. Queria estudar, sabe? Ver o mundo. Talvez... fazer alguma coisa que ajude a mudar as coisas por aqui." Guilherme assentiu, mas seu olhar estava distante. "É, você sempre foi diferente." Ele deu um sorriso triste. "Eu só queria ser alguém que eles respeitassem, sabe? Não aguento ver a gente ser tratado como lixo. Queria ter poder." Letícia sentiu um nó na garganta. Sabia o que ele queria dizer, mas também sabia o perigo que vinha com essa sede de poder. "Gui, você já é importante pra mim e pra todo mundo que te conhece. Você não precisa provar nada pra ninguém." Ele abaixou o olhar e sorriu de lado. "Você sempre acredita em mim, né, Lê?" Antes que ela pudesse responder, Guilherme se aproximou ainda mais, colocando a mão sobre a dela. Letícia sentiu o coração disparar, e o mundo ao redor pareceu desaparecer. Ele a olhava de um jeito que nunca havia feito antes, e o brilho nos olhos dele era novo, cheio de uma ternura inesperada. "Lê, eu... eu sei que tô mudando. Sei que você não gosta de tudo que eu tô fazendo, mas eu queria que você entendesse que tudo isso... é porque eu quero dar uma vida boa pra você. Pra nós dois." Ela engoliu em seco, tentando processar as palavras dele. Nunca tinham falado assim, de "nós dois". Era como se ele estivesse colocando em palavras o que ela sempre sentiu, mas nunca teve coragem de dizer. Sem perceber, Letícia aproximou-se ainda mais, seus rostos quase se tocando. Foi então que Guilherme a beijou. O mundo pareceu parar por um momento, e ela se entregou àquele instante, deixando-se levar pela intensidade e pelo calor daquele toque. Ali, no alto do morro, sob a luz dourada do pôr do sol, eles deixaram que seus sentimentos falassem mais alto, como se fossem duas crianças outra vez, livres de todas as preocupações. Quando o beijo terminou, ambos ficaram em silêncio, olhando um para o outro. Letícia sorriu, ainda atordoada, e Guilherme segurou sua mão, apertando-a com carinho. Mas a magia do momento foi quebrada quando um som de celular interrompeu o silêncio. Guilherme olhou rapidamente o visor e franziu o cenho, sua expressão se tornando séria. Ele murmurou algo, claramente incomodado, e Letícia percebeu que ele estava sendo chamado para algum “trabalho”. A ternura do momento começou a se desfazer, e Letícia sentiu um aperto no coração. "Você tem que ir, né?" ela perguntou, tentando esconder a decepção em sua voz. "É só um... um compromisso. Eu volto logo." Ele tentou sorrir, mas o peso em seus olhos era evidente. "A gente se vê amanhã?" Ela assentiu, tentando segurar o sentimento de frustração. Queria acreditar que ele realmente estaria ali no dia seguinte, mas já conhecia bem demais as promessas de Guilherme para saber que elas nem sempre se cumpriam. Guilherme a abraçou antes de partir, um gesto rápido, mas que carregava uma intensidade que a fez sentir-se segura, mesmo sabendo o perigo que ele enfrentava. Enquanto o via desaparecer na descida, Letícia ficou sozinha, observando o sol que já havia quase se posto completamente. Sentia uma mistura de alegria e tristeza. Era a primeira vez que ele havia falado abertamente sobre os sentimentos entre eles, mas, ao mesmo tempo, a presença constante do tráfico parecia uma sombra que não permitia que eles se entregassem completamente a essa história. Ali, no alto do morro, Letícia prometeu a si mesma que tentaria ajudar Guilherme, que faria de tudo para mostrar-lhe que havia outro caminho. Mas, ao mesmo tempo, uma parte de seu coração já sabia que ele estava cada vez mais imerso nesse mundo perigoso. A tensão entre o amor e o medo começava a crescer, e Letícia sentia-se dividida entre o desejo de ficar ao lado dele e a necessidade de se proteger daquela vida. Enquanto descia o morro, Letícia sabia que aquele momento não seria fácil de esquecer. Mais do que isso, sabia que ele marcaria o início de uma jornada que mudaria tudo — para ela, para ele e para o futuro que, no fundo, ambos desejavam, mas talvez nunca pudessem realmente alcançar.
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