O morro era um mundo à parte, com seu próprio ritmo e regras. Era ali, em meio às vielas estreitas e às construções improvisadas, que Guilherme e Letícia cresceram, respirando a vida difícil e, ao mesmo tempo, colorida daquela comunidade. Desde pequenos, eles foram inseparáveis. Guilherme, com seu jeito destemido e riso fácil, era o menino que encantava os amigos, sempre pronto para liderar alguma brincadeira ou arrumar alguma confusão. Letícia, por outro lado, era tranquila e observadora, mas tinha uma determinação que brilhava nos olhos.
A primeira lembrança que Letícia guardava de Guilherme era do dia em que ele a defendeu de um grupo de meninos mais velhos. Ela tinha uns sete anos, e ele, apenas um ano mais velho, se colocou entre ela e os garotos, ignorando completamente o fato de estar em desvantagem. "Aqui, ninguém mexe com a Letícia," disse, com o peito estufado, sem recuar um centímetro. Foi assim que ele se tornou o protetor dela, e Letícia, sem que percebesse, começou a ver nele um modelo de coragem.
Conforme cresciam, as ruas do morro viraram o cenário de suas aventuras. Entre corridas pelos becos e mergulhos nos riachos que cortavam o morro, Guilherme contava para Letícia seus sonhos. Ele queria ser "grande", queria poder comprar tudo o que via pela televisão. Letícia sorria, achando engraçado o jeito com que ele dizia que um dia sairiam do morro juntos. Seu sonho era diferente: queria estudar, ver o mundo lá fora e talvez voltar para ajudar as pessoas da comunidade.
Eles tinham um refúgio secreto no alto do morro, onde se sentavam e observavam as luzes da cidade à distância. Letícia gostava de como essas luzes pareciam promessas de um futuro melhor. Guilherme, ao seu lado, sonhava com uma vida de conquistas, mas, diferente dela, ele via o mundo lá embaixo como algo que poderia conquistar rapidamente. Esses momentos, ali no alto, eram um refúgio em meio à realidade difícil que viviam.
O que eles não sabiam, naquela infância inocente, era que o destino estava sempre à espreita, moldando suas vidas e escolhas de maneiras que eles ainda não podiam entender. Guilherme logo sentiu a atração pelo poder e pelo respeito que alguns homens do morro tinham. A figura do seu primo João, já envolvido com o tráfico, lhe parecia uma imagem de força e respeito que ele admirava. Aos poucos, ele começou a passar mais tempo com João e seus amigos, observando o estilo de vida deles, o dinheiro fácil, a influência. Letícia notava a mudança, mas não dizia nada. Era só uma fase, ela pensava.
Tudo mudou quando, numa tarde abafada, Guilherme apareceu com um sorriso que misturava excitação e mistério. "Vem, Letícia," chamou, puxando-a pela mão. Ele a levou para uma viela mais afastada e, com um orgulho disfarçado, mostrou-lhe uma nota de cinquenta reais. "Ganhei hoje," disse, inflando o peito. Letícia franziu o rosto, desconfiada. Perguntou de onde viera o dinheiro, e Guilherme desconversou, dizendo que era apenas uma ajuda de João para pequenas tarefas. Ele achava graça da preocupação dela, mas Letícia não conseguia evitar a inquietação que crescia dentro dela.
As semanas passaram, e Letícia sentia Guilherme cada vez mais distante. Ele parecia mudar; sua risada fácil dava lugar a um olhar mais sério, quase sombrio, e ele começou a falar menos de seus sonhos. As escapadas com João se tornaram mais frequentes, e Letícia m*l o via. Quando finalmente o encontrou, numa tarde em que ele parecia ter voltado a ser o velho amigo, perguntou sobre o que tanto ele fazia com o primo.
"Você não entende, Letícia," disse ele, o tom impaciente. "Aqui, a gente tem que se virar. Meu primo tá me ensinando a sobreviver."
"Sobreviver? Desde quando sobreviver é se meter com essa gente?" Ela respondeu, a voz trêmula de preocupação.
Guilherme apenas deu de ombros. "Só tô aprendendo o que eu preciso saber."
Apesar do tom leve, Letícia sentiu que algo mudava entre eles. Ela tentou disfarçar sua preocupação, mas a tristeza era evidente. Sabia que o caminho que Guilherme estava tomando o afastava do que haviam sonhado quando crianças. No entanto, ainda acreditava que ele voltaria, que tudo era apenas uma aventura passageira.
Aquele verão passou, e Guilherme continuou a ser atraído para mais perto do tráfico. Letícia, preocupada, afastava-se cada vez mais de seu amigo de infância, mas algo sempre a impedia de romper completamente. Ela ainda via o menino que a protegera anos atrás, ainda queria acreditar que ele voltaria para ela. Porém, em seu coração, começava a entender que as coisas nunca mais seriam as mesmas.
No final daquele ano, na virada para a adolescência, ambos haviam mudado. Letícia se dedicava aos estudos e aos planos de um futuro fora do morro. Já Guilherme, agora mais reservado, parecia absorver a dureza do mundo ao seu redor. E, embora seus caminhos já não fossem os mesmos, havia um vínculo entre eles que nenhum dos dois parecia disposto a quebrar.