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Crescer dentro daquela casa sempre foi como andar na ponta de uma lâmina. Não era falta de estrutura, não era miséria, não era abandono — era controle. Controle demais. Regras demais. Olhares demais. Roberta sentia que cada passo seu era observado, julgado, corrigido.
Os pais chamavam de cuidado.
Ela chamava de sufoco.
Desde pequena, Roberta já mostrava que não era igual. Não aceitava “porque sim” como resposta, não baixava a cabeça fácil, não engolia ordens sem devolver alguma coisa. E quanto mais ela crescia, mais aquilo incomodava dentro de casa. A menina de opinião forte virou problema. A adolescente virou confronto constante.
Vieram as roupas “inadequadas”. As amizades “erradas”. As saídas “sem permissão”. E, junto com isso, vieram as tentativas de consertar ela — como se fosse algo quebrado.
Teve conversa séria na mesa da cozinha. Teve castigo. Teve proibição. Teve choro da mãe. Teve grito do pai.
E teve o dia do diagnóstico.
Sentada numa cadeira fria, olhando pra um adulto que falava como se soubesse tudo sobre ela, Roberta ouviu palavras que não fizeram sentido — não pra ela. Disseram que ela era difícil, impulsiva, desafiadora demais. Deram nomes bonitos pra tentar explicar o que, no fundo, ninguém ali parecia querer entender.
Ela não era um problema.
Ela só não aceitava viver presa.
Mas dentro daquela casa, aquilo foi o ponto final. A partir dali, os pais passaram a tratar cada atitude dela como confirmação de que algo estava “errado”. E quanto mais tentavam controlar, mais ela se revoltava.
O irmão mais velho já não morava mais ali fazia tempo. Tinha seguido a própria vida, longe daquele ambiente pesado. Às vezes ligava, às vezes aparecia, mas não estava presente no dia a dia. E Roberta também nunca foi de correr atrás. Cada um por si. Sempre foi assim.
Até que chegou a noite que não teve volta.
A discussão começou como tantas outras, mas não terminou igual. As palavras passaram do limite. Acusações, ordens, ameaças. O pai tentando impor respeito. A mãe tentando segurar o que já tinha saído do controle.
E Roberta… cansou.
Sem discurso bonito, sem despedida, sem drama. Pegou uma mochila, jogou dentro algumas roupas, o que conseguiu pegar às pressas… e foi.
A porta bateu atrás dela como um ponto final.
E dessa vez, ela não voltou.
Não teve ligação. Não teve mensagem. Não teve arrependimento imediato.
Só silêncio.
Do lado de dentro da casa, o desespero veio rápido. Os pais ligaram para o filho mais velho, a voz carregada, tentando entender o que tinha acontecido, tentando dividir a culpa, o medo, a sensação de perda.
— Ela foi embora.
Do outro lado da linha, o irmão ficou em silêncio por alguns segundos. Não era surpresa total… mas também não deixava de pesar.
Enquanto isso, do lado de fora, com apenas 14 anos, Roberta caminhava sem destino certo… mas com uma certeza que ardia no peito:
Antes sozinha do que presa.
O telefone vibrou no bolso da bermuda velha que ela tinha colocado às pressas. Roberta parou por um segundo, encostada na pilastra fria de concreto, o barulho dos carros passando lá em cima ecoando pesado. Ela nem precisava olhar pra saber quem era.
Atendeu.
— Coelhinha… aonde você vai? — a voz do irmão veio carregada, meio sem saber se brigava ou se acolhia.
Roberta soltou um riso curto, sem humor nenhum.
— Vou viver por aí. Não vou deixar ninguém mandar em mim, irmão.
Do outro lado, silêncio por um segundo. Ele respirou fundo.
— Aonde você tá?
Ela olhou ao redor. Escuro, cheiro de poeira, gente passando sem nem reparar.
— Tô debaixo do viaduto. Vou ficar aqui.
— Não. — ele respondeu na hora — Não mesmo. Eu vou aí te buscar.
Roberta fechou os olhos por um instante, encostando a cabeça na parede gelada.
— Se for pra me levar pros seus pais… não vem.
A resposta demorou. E aquele silêncio disse muita coisa.
— Não é “meus pais”, Roberta… são nossos.
Ela abriu os olhos, o olhar endurecendo.
— Pra mim, não são mais.
Mais um silêncio. Dessa vez mais pesado.
— Eu não vou te obrigar a voltar — ele disse, mais calmo, escolhendo as palavras — Mas você não vai ficar largada debaixo de viaduto também. Me fala onde você tá direito.
Roberta apertou os lábios, dividida por um segundo. Orgulho de um lado. Um cansaço que ela ainda nem sabia que tinha, do outro.
— Pra quê? Pra você tentar me convencer?
— Pra te tirar daí — ele respondeu, direto — O resto a gente vê depois.
Ela olhou pro nada, pro movimento da rua, pro mundo que agora era todo dela… e, ao mesmo tempo, não era nada.
— Eu não vou voltar.
— Eu já entendi isso — ele disse, mais firme — Só não quero te ver se ferrando sozinha por orgulho.
Aquilo bateu diferente.
Roberta passou a mão no rosto, respirou fundo e, depois de alguns segundos, falou o ponto onde estava. Curto. Seco.
— Tô perto da descida do viaduto… do lado de um muro pichado, cheio de luz quebrada.
— Fica aí. Não sai daí — ele respondeu rápido — Tô indo.
A ligação caiu.
E, pela primeira vez desde que saiu de casa, Roberta não estava completamente sozinha… mesmo que não quisesse admitir isso.