Me reconhecendo nela

1357 Words
Gui permaneceu imóvel na porta do estúdio. O som suave de um jazz infantil flutuava no ar, misturando-se às risadas de Clara e ao leve bater dos pés no piso de madeira. Mas, para ele, o mundo havia ficado mudo. Era como se o tempo tivesse parado e tudo o que restava fosse aquela pequena figura rodopiando no centro da sala. Os olhos dele se prenderam à menina como se fossem incapazes de desviar. Os cabelos castanhos presos num coque torto, a ponta dos pés deixando marcas no chão, o sorriso fácil, o brilho inocente nos olhos. Um frio percorreu o corpo dele. Aquilo era só uma coincidência? Ou o destino zombava dele de novo? Lia, do outro lado da sala, percebeu o instante exato em que ele parou de respirar. O olhar dele dizia tudo. E o dela, também. O coração dela começou a bater descompassado, tão forte que parecia ecoar nas paredes. As mãos tremiam, mas ela manteve o rosto firme, o mesmo olhar calmo de quem passa por um abismo e finge que é chão. Ela deu alguns passos em direção a ele. Lentamente. Como quem se aproxima de um passado que ainda sangra. Clara notou o movimento, parou de girar e olhou primeiro para a mãe, depois para o homem parado à porta. — Ele vai dançar com a gente? — perguntou, com um sorriso curioso. A pergunta caiu como uma lâmina. Gui tentou sorrir, mas o rosto não obedeceu. — Talvez… quem sabe um dia — respondeu, a voz rouca, como se tivesse atravessado quilômetros de silêncio. Clara caminhou até Gui e estendeu as mãos pequenas. Ele se abaixou, hesitante. Quando os dedos se tocaram, algo nele se rompeu uma corrente invisível, uma lembrança de algo que ele nunca viveu, mas sempre sentiu falta. Era como se o coração reconhecesse antes da razão. — Oi! Eu sou a Clara! — disse ela, sorrindo. Gui engoliu em seco. O nome ecoou dentro dele como um trovão. Clara. O mesmo nome que Lia dizia que escolheria um dia. — Prazer em te conhecer, Clara… — respondeu ele, com a voz trêmula. — Eu sou o Gui Eu não sai dançar muito bem, mas talvez eu possa te ensinar umas manobras de patins. Ela deu um pulinho, empolgada: — Sério? Vai ser demais! Enquanto Gui tentava organizar os pensamentos, uma voz soou por trás: — Hora do filme com as minhas meninas! Clara, imediatamente correu para os braços de Joca, gritando com alegria: — Obaaaaaa! Ela se enroscou em seus braços, rindo, e Joca a abraçou com ternura, sem pressa, sem alarde, apenas seguro. Lia observava a cena com um sorriso silencioso enquanto Clara e Joca desaparecia pelo corredor. O silêncio que ficou parecia pesar toneladas. Gui ainda olhava para o vazio deixado por ela, o peito em chamas, o pensamento em ruínas. Quando se virou, encontrou o olhar de Lia. Por um instante, os dois voltaram a ser quem eram antes de tudo desabar. Mas a dor dos anos vividos à parte estava ali, entre eles, como um muro. — Então… você se casou — disse ele, com um riso breve e sem humor. Era uma tentativa tola de esconder a voz trincada. Lia negou, devagar. — Não. Sou só eu e a Clara. -Esse Joca... - começou ele mas Lia o interrompeu. - O que você faz aqui Gui? - perguntou ela tentando adiar o confronto que estava por vir, mas não adiantou. O ar rarefez. Ele sentiu o chão se afastar sob os pés. — Quantos anos ela tem? — perguntou, uma certeza começando a se formar dentro dele, mas temendo a queda que poderia vir. — Acabou de fazer cinco. — A voz dela era um fio prestes a se partir. Cinco. O número ecoou dentro dele, c***l, preciso. O mesmo tempo desde aquela noite, desde o último toque, desde a última palavra dita entre lágrimas e portas batendo. Gui fechou os olhos. O corpo inteiro parecia querer fugir da verdade. Mas ela estava ali, inteira, respirando diante dele. — Não… — murmurou. — n******e ser… Lia deu um passo à frente. — Ela é sua, Gui. — disse, enfim, com a voz embargada, mas firme. O mundo pareceu se partir ao meio. Aquelas palavras o atingiram com a força de tudo o que ele tentou esquecer. Ele levou as mãos ao rosto, sem saber se queria chorar ou gritar. Uma filha. Cinco anos. Um amor que ele nem sabia que tinha perdido. Quando baixou as mãos, olhou para Lia e viu ali a mesma mistura de medo e amor que um dia o fez ficar, e depois o fez partir. Mas agora era tarde demais para entender. Sem dizer nada, ele virou as costas e saiu. O som da porta se fechando ecoou como um ponto final maldito. Lia ficou parada no meio da sala, o corpo rígido, o coração em pedaços. Lá fora, o sol descia lento, tingindo o céu de laranja e cinza. E, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu o peso real do passado, não como lembrança, mas como dívida. O tempo tinha cobrado o que era dele. O ar frio o atingiu assim que cruzou a porta do estúdio. Gui respirou fundo, mas o ar parecia pesado demais, como se até o vento o julgasse. O sol se escondia atrás dos prédios, deixando o céu tingido de laranja e cinza o mesmo tom de quando tudo acabou, cinco anos atrás. Ele caminhou sem direção, as mãos tremendo, o corpo rígido. Cada passo ecoava no asfalto molhado, e o som da música de jazz infantil ainda vibrava dentro dele, como uma t*****a suave. As risadas da menina, o brilho do olhar dela, o olhar dele, se repetiam na mente como um disco arranhado. — Cinco anos… — murmurou, entre dentes. — Cinco malditos anos… O peito subia e descia rápido. Os olhos ardiam, mas ele se recusava a chorar. O orgulho ainda o segurava por pouco. Abriu a porta do carro e entrou, batendo-a com força. Encostou a testa no volante. Silêncio. O tipo de silêncio que ensurdece. A imagem de Clara dançando, rindo, chamando o nome dele sem saber quem ele era —voltava como uma lâmina. — “Você vai voltar amanhã?” — a voz dela ecoava em sua cabeça. Ele apertou os olhos, os punhos cerrados, tentando afastar aquilo. Mas não dava. Nada mais fazia sentido. Ele era pai. E ninguém o tinha deixado saber. Um soluço escapou, rasgando o silêncio. Gui socou o volante, xingou, gritou um “por quê?” que ninguém ouviu. Depois se calou, ofegante, o rosto molhado. — Ela é minha filha… — sussurrou, sem acreditar. — Minha filha… Encostou-se no banco, olhou o teto do carro, e pela primeira vez em anos, deixou as lágrimas caírem sem tentar esconder. As lembranças vieram em sequência, violentas: Lia rindo na chuva, o quarto iluminado pelo abajur amarelo, o último beijo antes da partida. Tudo misturado, tudo ferido. O arrependimento veio como uma corrente fria subindo pela espinha. Talvez ela tivesse razão. Talvez ele realmente não estivesse pronto. Mas agora era tarde demais pra consertar o que o tempo já levou. O celular vibrava no painel uma mensagem do irmão, do trabalho, do mundo real. Ele ignorou. Ficou ali, parado, o corpo cansado e o coração despedaçado. Olhou o reflexo do rosto no espelho retrovisor: olheiras fundas, barba por fazer, o olhar de quem perdeu algo que nunca soube que tinha. E entendeu naquele momento que Lia não o havia destruído, ele mesmo fez isso, quando escolheu ir embora e a deixou partir. O motor do carro roncou e ele arrancou com pressa. Gui não sabia pra onde iria, só sabia que não podia ficar. Pisou no acelerador com força. O carro saiu cantando pneu, sumindo pela rua. O vento seco entrava pelas janelas abertas, misturando-se com o gosto salgado das lágrimas que ele já não conseguia conter. Lá fora, as luzes da cidade começavam a acender e, por um instante, tudo pareceu suspenso entre o que ainda podia ser e o que já era tarde demais.
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