O dia do festival amanheceu com um céu de vidro, tão claro que doía olhar. O ar estava frio e limpo, o tipo de frio que vinha acompanhado de cheiro de eucalipto molhado e lembrava começos. Da janela do quarto do hotel, Lia observava as copas das árvores balançando preguiçosamente ao vento. Lá embaixo, a cidade começava a despertar, carros cruzando avenidas, pessoas apressadas, cafés abrindo as portas.
Acordara antes do despertador. Passara boa parte da madrugada deitada, os olhos abertos, a mente girando como uma coreografia impossível de ensaiar. Sonhara com o passado, com o outono, com o som distante de rodinhas de patins e uma risada que o tempo não conseguiu apagar. Quando finalmente levantou, sentia o corpo leve, mas o coração pesado, um peso antigo, familiar.
Não era o nervosismo pela estreia, nem pela responsabilidade de abrir o festival com a coreografia principal. Era outra coisa. Uma sensação quase física, como se algo dentro dela estivesse prestes a se romper.
Vestiu-se devagar, em silêncio. Escolheu uma calça preta de tecido leve, uma blusa bege de gola fluida e brincos pequenos de argola dourada. Prendeu o cabelo num coque baixo, deixando algumas mechas soltas ao redor do rosto. Observou o próprio reflexo no espelho: o rosto sereno, a postura firme, mas os olhos, os olhos denunciavam o contrário.
Pegou a pasta de anotações sobre a mesa. Na capa, lia-se o título da coreografia: “Entre Rodas e Ritmos.” Passou a mão sobre as letras, sentindo o leve relevo da tinta, como quem acaricia um nome antigo.
O corredor do hotel estava silencioso, exceto pelo som distante de portas se abrindo e malas sendo arrastadas. No elevador, ela se olhou novamente no espelho metálico e ensaiou um sorriso, o tipo de sorriso que se usa quando se quer disfarçar o que o coração insiste em gritar.
O pavilhão cultural já fervia de movimento. O cheiro de tinta fresca e madeira encerada se misturava ao som das caixas de som testando os graves. Cabos se espalhavam pelo chão, vozes se sobrepunham, risadas ecoavam pelos corredores. Cada canto tinha cor, ritmo e vida.
Os patinadores ajustavam as rampas. Os artistas pintavam murais coloridos com frases sobre liberdade. Os dançarinos, como ela, alongavam-se em silêncio, concentrados, os rostos iluminados por refletores que ainda não haviam sido ligados.
Lia respirou fundo, tentando se conectar com aquele caos harmonioso. Amava esse tipo de energia, o ar carregado de expectativa antes de uma estreia. Mas naquele dia, algo estava diferente. Cada som parecia mais alto, cada cor mais intensa, como se o mundo tivesse aumentado o volume só pra disfarçar o que ela sentia por dentro.
— Professora Lia! — chamou uma voz atrás dela.
Ela se virou. O coordenador do evento se aproximava, um homem alto, de barba grisalha bem aparada, vestindo uma camisa azul-marinho e calça de sarja. Tinha um perfume amadeirado e um sorriso cordial, o tipo de pessoa que parecia carregar sempre boas notícias.
— Seja bem-vinda! — disse ele, estendendo a mão. — Espero que tenha gostado do espaço. Está tudo certo com o hotel?
— Sim, está ótimo. Muito obrigada pela recepção — respondeu, educada.
— Fico feliz. — Ele conferiu a prancheta nas mãos. — À tarde teremos os ensaios técnicos e, à noite, a a******a oficial. Sua apresentação está programada para o último dia, mas haverá uma prévia durante a coletiva de imprensa, tudo bem pra você?
— Claro, sem problema.
Lia manteve o sorriso profissional, mas sua mente estava distante. O corpo dela parecia sensível demais: o som das batidas no palco ecoava dentro do peito, o cheiro da tinta fresca era forte demais, e cada rosto desconhecido despertava uma estranha ansiedade.
Durante a tarde, ela percorreu o pavilhão observando o cenário em construção. Os grafiteiros trabalhavam concentrados, seus sprays colorindo paredes com explosões de cor. Os patinadores testavam as rampas, subindo, caindo, levantando.
Foi então que ouviu.
Uma voz.
Baixa, firme, levemente rouca.
— Cuidado com o ângulo da rampa. Tá muito inclinada, eles podem perder o equilíbrio na aterrissagem.
O mundo parou.
Lia congelou onde estava. O ar pareceu mais denso, como se todo o som ao redor tivesse se recolhido para ouvir junto dela.
Virou o rosto devagar, com o coração martelando tão alto que quase abafava os outros ruídos.
E o viu.
Gui.
Estava ali.
O mesmo olhar castanho agora mais profundo, mais contido, o mesmo modo de gesticular com as mãos quando falava, o mesmo jeito de morder o lábio inferior ao pensar. O cabelo, mais curto, escapava sob o boné. Vestia uma camiseta cinza simples, jeans escuro e um crachá pendurado no pescoço: Curador Esportes Urbanos.
Ele se movia com a calma de quem aprendeu a controlar o próprio caos, mas Lia percebeu, no leve tensionar do maxilar, que nem tudo estava em paz. O tempo o havia transformado, mas o essencial permanecia.
O coração dela disparou.
Doze anos sumiram em um sopro.
Gui pareceu sentir o olhar dela. Virou-se. E quando seus olhos se encontraram, o tempo parou de correr.
O barulho dos passos, o som das vozes, o ruído das caixas de som, tudo desapareceu. Só havia aquele instante.
Ele deu um passo. Depois outro. Hesitou. Respirou fundo.
— Lia…
O nome saiu rouco, baixo, como se fosse proibido dizê-lo.
Ela engoliu o ar com dificuldade.
— Oi, Gui.
O silêncio entre eles tinha textura. Denso, quase palpável. Carregado de lembranças, de palavras que nunca foram ditas, de tudo o que ficou suspenso entre o “adeus” e o “talvez um dia”.
Ele sorriu, um sorriso breve, tenso.
— Eu não sabia que você estaria aqui quando recebi o convite.
— Nem eu — respondeu ela, tentando controlar o tremor na voz.
Os dois ficaram ali, parados, medindo a distância entre o que eram e o que o tempo os fez ser. Os olhos dele tinham espanto e nostalgia; os dela, saudade e defesa.
Então, uma voz suave cortou o ar:
— Amor?
Gui se virou.
Uma mulher se aproximava, o som dos saltos batendo ritmado no piso de madeira. Tinha cabelo curto, bem cortado, e usava uma blusa branca de seda e calça de linho clara. O perfume floral que ela trazia parecia preencher o espaço.
— Desculpa interromper — disse, pousando a mão no braço de Gui. — O pessoal da imprensa está te esperando pra entrevista.
Ela só então notou Lia.
— Ah! Você é a bailarina, não é? Vi um pedacinho do seu ensaio. Lindo trabalho.
Lia sorriu, controlada.
— Obrigada.
Gui pigarreou, visivelmente desconfortável.
— Lia, essa é a Camila… minha noiva.
A palavra caiu no ar como uma pedra na água calma.
Por um instante, tudo se moveu em câmera lenta. Lia manteve o sorriso. Só o olhar denunciava o golpe.
— Prazer — disse, com voz firme.
Trocaram mais algumas palavras banais, polidas, o tipo de conversa que serve para disfarçar tudo o que o silêncio gritaria.
Camila se afastou primeiro, acenando, sorrindo. Gui ficou. Olhou para o chão, depois para ela.
— Desculpa — disse, baixo. — Eu não queria que fosse assim.
Lia respirou fundo.
— Não tem o que desculpar. A vida segue, não é?
Tentou sorrir, mas o sorriso vinha quebrado.
— Acho que a gente fez o que tinha que fazer.
Gui demorou um segundo antes de responder.
— Talvez. Mas tem coisas que a gente nunca termina.
Ela sustentou o olhar. Dentro dele, viu o mesmo menino de antes, só que cansado. Dentro dela, o mesmo amor, só que mais maduro, mais silencioso.
— Eu sei — respondeu, quase num sussurro.
O microfone do palco anunciou o nome dele.
Gui hesitou, deu um passo para trás.
— A gente se fala depois, tá?
Lia apenas assentiu.
E o viu ir embora.
O mesmo jeito de caminhar. O mesmo cuidado em não olhar pra trás.
De repente, ela era de novo a garota de dezesseis anos, escondida entre as árvores, vendo ele partir com o coração despedaçado e o mundo inteiro dentro do peito.
Naquela noite, o pavilhão estava lotado. As luzes coloridas dançavam no teto, a música vibrava no chão, e a energia das pessoas enchia o ar. Lia assistia escondida entre o público, sentada nas últimas fileiras.
Gui estava no palco. Falava ao microfone sobre juventude, arte e liberdade. Sorria com confiança, gesticulava com firmeza. Mas ela via, só ela via o que ninguém mais percebia: o olhar dele tinha uma sombra. Uma leveza que era ensaiada, uma tristeza que se escondia atrás do brilho.
Enquanto ele falava, Lia fechou os olhos.
A música do evento preencheu o ar.
O coração dela bateu no mesmo compasso do passado.
E ela entendeu.
O tempo muda rostos, caminhos e destinos, mas não apaga o que foi real.
Certos amores não morrem, apenas aprendem a respirar em silêncio.
De volta ao hotel, horas depois, Lia ficou deitada, encarando o teto. O quarto estava escuro, apenas a luz fraca da rua atravessava as frestas da cortina.
O coração dividido entre o antes e o agora.
Entre o que foi e o que nunca deixou de ser.
Fechou os olhos, e as lembranças vieram como um filme antigo: o vento na praça, o som das rodinhas, o riso dele misturado à música.
Sussurrou, como quem fala pra si mesma:
— Há reencontros que não são coincidência. São lembranças que o destino insiste em reviver, só pra provar que o amor não desaparece, apenas muda de lugar.
E, pela primeira vez em muitos anos, ela chorou.
Não de dor, nem de arrependimento, as porque compreendeu, enfim, que o amor deles, aquele amor adolescente, impossível e bonito não tinha acabado. Apenas se transformara.
Era outra coisa agora: mais maduro, mais sereno, feito de silêncio e saudade.
Um amor que sobreviveu ao tempo, à distância e à vida.
E esperava, paciente, o momento certo de despertar outra vez.