O ônibus partiu devagar, cortando o silêncio da manhã com o som abafado do motor.
O barulho parecia distante, como se viesse de outro mundo.
Lia encostou a testa na janela fria.
O vidro ainda guardava pequenas gotas da chuva da noite anterior, e o sol tímido, quase envergonhado tentava atravessar o véu de nuvens, tingindo o céu de um laranja pálido, quase sem vida.
Lá fora, o mundo parecia seguir em outra velocidade.
As árvores passavam em borrões verdes, as placas desfocadas, os postes piscando ritmados como um metrônomo cansado.
Dentro dela, tudo estava quieto, mas não em paz.
O corpo ainda carregava o toque dele.
O toque que não se apaga com o tempo, porque o tempo não sabe o que fazer com o que é eterno.
Mas a mente tentava resistir, sussurrando em tom severo: era o certo, precisava acabar, precisava seguir.
E, ainda assim, o coração latejava em protesto, como se o amor tivesse vida própria.
Fechou os olhos.
O som dos pneus no asfalto lembrava o ritmo da dança da noite anterior, a última vez que dançou para ele.
Aquela em que ela disfarçou o amor em coreografia, em que o corpo falou o que a boca não podia.
Tentou se distrair observando o horizonte, mas tudo parecia falar dele.
O azul do céu o mesmo tom da fita que deu de presente a ele a 12 anos atrás.
O cheiro de terra molhada, o perfume da madrugada em que se tocaram pela última vez.
O vento o mesmo que bagunçava o cabelo dele quando andava de patins anos atrás.
Tudo lembrava, tudo chamava, tudo doía.
Um nó cresceu em sua garganta, e ela precisou respirar fundo para conter o choro.
Sabia que, dali em diante, não haveria reencontros.
O amor deles agora morava apenas na lembrança e isso, de algum modo, era bonito e c***l ao mesmo tempo.
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A estrada se abria diante de Gui como uma fita cinza sem fim.
O som do motor preenchia o carro, um zumbido constante que batia no mesmo compasso dos pensamentos dele.
Gui mantinha uma das mãos no volante, a outra no queixo, o olhar perdido em nada.
Camila estava ao seu lado, silenciosa.
Havia uma tensão quase palpável entre eles o tipo de silêncio que pesa mais do que qualquer palavra.
Ela sentia que algo havia mudado, mas tinha medo de perguntar, medo de confirmar o que já intuía: que o amor dele estava em outro lugar, numa lembrança que não cabia mais no presente.
O céu começava a clarear, mas o mundo parecia sem cor.
Nem o sol conseguia aquecer o peso que ele carregava no peito.
O rádio estava desligado, não suportava o risco de uma música dizer o nome dela em alguma entrelinha.
Lia.
O nome ecoava dentro dele como um refrão que não termina, uma canção que se recusa a acabar.
Tentava se convencer de que foi o certo.
De que respeitaram o tempo, as circunstâncias, a vida.
Mas o coração, teimoso, insistia em voltar para ela.
O toque, o cheiro, o riso.
Tudo nele ainda era dela.
No banco do passageiro, o par de patins descansava.
Molhado, sujo de chuva, com marcas de asfalto nas rodas.
Era a última coisa que ele quis deixar com ela um símbolo do que foram, mas ela o devolveu na recepção do hotel, sem bilhete, apenas com o silêncio.
Como quem entende que alguns objetos não pertencem ao meio do caminho: ou ficam no início, ou no fim.
A paisagem passava depressa, campos, pontes, cidades pequenas, mas por dentro ele estava imóvel, preso entre o que viveu e o que perdeu.
A garganta fechava, o peito apertava.
Encostou o carro no acostamento e deixou o peso cair.
As mãos tremiam no volante, o som da respiração rouca enchia o espaço pequeno.
Camila o observava de lado, sem palavras.
Havia pena e raiva nos olhos dela.
Raiva de amá-lo ainda. Raiva por saber que não havia espaço para ela no que o dilacerava.
E culpa.
Culpa por sentir pena do homem que a havia escolhido sem amor.
Gui sabia.
Sabia que estava machucando duas pessoas ao mesmo tempo uma por partir, outra por ficar.
E essa culpa doía quase tanto quanto a ausência de Lia.
Olhou para o céu.
O mesmo céu que, quilômetros à frente, acompanhava o ônibus onde Lia seguia.
O mesmo céu que parecia amarrar os dois por um fio invisível.
Pensou que talvez o amor fosse isso:
duas estradas paralelas que, por um breve instante, se cruzam, se reconhecem, se tocam e depois seguem.
Distantes, mas ligadas pelo mesmo horizonte.
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Lia respirou fundo.
O sol enfim rompia as nuvens, tingindo o interior do ônibus de dourado.
O vidro diante dela refletia o rosto cansado, os olhos inchados, o silêncio.
Por um segundo, sentiu como se ele ainda estivesse ali, ao seu lado, o ombro quente encostado no dela.
Mas quando piscou, viu apenas o reflexo de si mesma e entendeu que o amor, quando é verdadeiro, não precisa ficar para existir.
Procurando algo na mochila talvez um remédio para a dor de cabeça, talvez apenas uma desculpa para não pensar, encontrou um pequeno envelope dobrado.
O coração saltou.
Seu nome estava ali, escrito na letra que ela reconheceria mesmo depois de anos.
O papel tinha o cheiro dele.
De chuva, de partida, de saudade.
Abriu devagar, com mãos trêmulas, como se o tempo pudesse congelar aquele instante.
As palavras vieram simples, sinceras, exatas como ele sempre foi.
"Lia,
Prometi não te escrever de novo, mas percebi que promessas são só formas de adiar o que o coração insiste em dizer.
Obrigado por dançar por mim, por você, por tudo o que fomos.
Não sei se o tempo vai trazer novos encontros, mas sei que nunca mais verei uma roda girar sem lembrar de você.
Gui."
Lia leu e releu.
As letras pareciam pulsar.
O coração apertava, mas, por algum motivo, um sorriso surgiu pequeno, triste, luminoso.
Dobrou o papel e guardou de volta na mochila com o cuidado de quem guarda algo sagrado.
Não porque queria esquecer, mas porque compreendia, enfim, que nem tudo o que termina se perde.
Gui ligou o carro novamente.
O motor respondeu com um ronco grave.
A estrada se estendia adiante, longa e impessoal.
O vento entrou pela janela, levando o perfume da madrugada embora.
No fundo, ele sabia: aquele era o fim de um capítulo, não do sentimento.
Porque certos amores não morrem.
Apenas aprendem a existir em silêncio, à distância.
Vivem nas entrelinhas das músicas, nos cheiros da chuva, nas memórias que insistem em ficar.
Camila olhou para ele, como quem procura algo que ainda resta.
Ele tentou sorrir, mas o gesto saiu torto.
Ela entendeu.
E não insistiu.
O carro seguiu, o ônibus também.
Dois corpos movendo-se em direções opostas, dois corações ainda voltados um para o outro.
O sol, agora alto, iluminava as duas estradas.
Em algum ponto do horizonte, o céu era o mesmo.
E talvez fosse isso o consolo possível,
saber que, mesmo distantes, ainda caminhavam sob o mesmo céu.