Capítulo 4

1913 Words
Muitos anos tinham se passado desde que eu havia me aventurado em criar minha própria revista. Muita coisa tinha mudado desde então. Uma delas, para tristeza da pequena Nana, é que o mercado editorial impresso estava em crise, estávamos na era do digital. E a internet permitiu que muitas dessas informações, que antes só encontrávamos nas revistas, também chegasse para nós através dos blogs, e mais recentemente, pelas redes sociais. A internet era atualmente a forma mais rápida e eficaz de transmitir informação e conhecimento de um jeito muito mais fácil. A pequena Nana não precisava escrever à mão suas matérias e nem precisava sonhar com um emprego na Vogue. A velha Nana podia criar sua própria revista na internet. Mas não como as velhas revistas, a geração Z consumia outro tipo de conteúdo e era efêmero demais para assuntos vazios. Eu só precisava achar o nicho certo. O meu nicho. Rodava pelo quarto feito barata tonta, se minha mãe estivesse ali diria para que eu parasse antes que fizesse um buraco no chão. Mas eu estava empolgada demais para me sentar. Minha cabeça fervilhada de pensamentos soltos e avulsos. Nada concreto vinha à minha mente. Minha ansiedade me deu uma palpitação no peito e por um momento parecia que o ar estava diminuindo. Antes que aquelas paredes me sufocassem, peguei minhas chaves e saí de casa mais uma vez. Nas ruas pelo menos tinha vento na cara, gente para eu me distrair e inspiração. Dessa vez acabei tomando o rumo do shopping mais próximo. Não foi de caso pensado, minhas pernas apenas foram naquela direção e quando dei por mim estava na frente do edifício e por isso acabei entrando. Fui parando de loja em loja, não entrava, apenas examinava a fachada e os produtos. Na frente de uma loja de sapatos eu me perguntava “eu poderia falar sobre sapatos?”. Não sei. Até que gostava muito deles, mas o suficiente para mostrar para as pessoas que eu dominava aquele assunto? Acho que não. E na sequência veio a loja de roupas, de acessórios, de malas, de maquiagens, de eletrônicos e a livraria. Eu não era uma expert em nenhum desses assuntos. Poderia escrever um ou outro artigo sobre moda ou literatura, mas não era algo que eu de fato queria falar. Não era o meu nicho, ainda não. Continuei andando até que cheguei na praça de alimentação. Me sentei em hamburgueria gourmet que tinha ali e pedi um milk-shake. Com os pensamentos perdidos em devaneios, nem vi quando alguém se sentou à minha mesa, bem na cadeira em frente à minha. Me assustei antes que reconhecesse como sendo o cara que tinha me mandado mensagem dois dias atrás me chamando para sair e eu estava indo, até que dei meia volta e não o avisei de nada. A verdade é que eu nem me lembrava do nome dele mais. – Olha, quem eu finalmente encontrei. – Ele tinha um sorrisinho charmoso de canto de boca. – Oi – disse com desinteresse. – Fiquei te esperando naquele dia. – É, apareceu um imprevisto e não pude ir. – Imaginei mesmo que você fosse uma pessoa ocupada. – Pois é, são sempre muitos acontecimentos. – Eu estava sendo vaga de forma proposital. Não era do meu interesse manter um diálogo ou qualquer contato com ele. – E será que algum dia eu vou conseguir um espacinho na sua agenda? – Perguntou com um sorrisinho de canto, tentando ser sedutor. – Infelizmente pelos próximos meses minha vida vai estar bem complicada. – Bom, você tem meu contato, caso mude de ideia – disse enquanto se levantava, apenas acenei com a cabeça em concordância e ele foi embora. Permaneci sentada, de volta aos meus pensamentos e tomando meu milk-shake. Foi só quando o tédio bateu que eu me levantei e voltei a andar pelos corredores do shopping. Entrei em uma loja de departamentos para comprar chocolates já que minha TPM não demoraria a chegar e meu estoque de açúcar tinha ido para o espaço depois da notícia que meus pais me deram. Enchi uma cestinha com meus doces favoritos e enquanto esperava na fila, fiquei admirando os produtos que estava levando e pensando que muito em breve eu não teria dinheiro para manter aquele vício. Duas garotas chegaram atrás de mim na fila, a conversa delas me distraiu dos meus pensamentos. Mas levou um tempo até que eu pudesse entender sobre o que elas estavam falando, apenas estava claro que uma delas chorava e também estavam ali atrás de chocolates para consolo. Na sequência a garota chorona emendou uma série de choramingo enquanto contava detalhes sobre o pé na b***a que havia levado. A sessão de falta de amor próprio me revirava o estômago. Minhas amigas podiam dizer que eu tinha um fraco para homens, mas pelo menos nunca corri atrás deles. Existem uma variedade enorme de exemplares de machos para eu sofrer por um só. A abandonada narrou diversos sinais óbvios de que o cara não estava nem um pouco afim de um relacionamento que ela interpretava como uma característica da personalidade dele. “Ele era mais na dele, sabe” e uma fungada. Homens obtusos são charmoso apenas nos livros, na vida real isso significa falta de interesse por você. Vários pares de olhos se viraram para mim e foi aí que me dei conta de que eu tinha pensado em voz alta. Me virei lentamente para fitar as garotas. E como esperado elas me olhavam com cara f**a pelo meu atrevimento. – Perdão, não era para isso ter saído pela minha boca – pedi desculpas pela falta de educação. A garota de olhos vermelhos apenas soltou o ar pelo nariz enfurecida, a outra me olhava como se quisesse me fuzilar. E o pior é que era linda a abandonada, dificilmente o homem por quem ela chorava era tão bonito quanto ela. Não era sempre assim? Mulheres maravilhosas sofrendo por caras medianos. – Arruma outro. – Não me contive, nem eu e nem minha boca grande. – Que? – Sério, é energia negativa demais ficar nesse estado por homem. E eu tenho experiência suficiente para dizer que são todos iguais, então não faz sentido sofrer por um só. Não sei porque motivos a menina colocou todos os chocolates na prateleira ao lado, virou as costas e saiu, a amiga foi correndo atrás. Eu esperava que ela tivesse aceitado meu conselho e ia seguir com a vida dela se aproveitando dos machos e não sofrendo por eles. Paguei pelos meus produtos e sai da loja devorando dois chocolates ao mesmo tempo.  Para a minha surpresa, vi de relance uma pessoa que me parecia ser conhecida. Ela estava há 20 metros de distância e estava se afastando ainda mais, quando ela virou para subir as escadas para o segundo pavimento eu tive certeza de quem era. E era muita coincidência. Lara era minha veterana, ela já estava no último ano quando entrei e até onde eu sabia ela trabalhava como redatora de um site voltado para o público feminino. Era algo bem próximo do sonho da pequena Luty. Correndo com o chocolate na boca, dei a volta pelo outro lado, peguei a escada que ficava no extremo oposto ao que Lara tinha subido e fui pulando os degraus, sem classe nenhuma. Quando cheguei ao segundo andar fui andando na direção que ela deveria estar e a procurei por todo o lugar. Lara não estava na escada, nem no corredor próximo. Comecei a me esgueirar pelas lojas para tentar encontrá-la e nada. Dei mais uma volta pelo corredor e finalmente a encontrei parada olhando uma vitrine de roupas. Peguei meu celular e foi caminhando na direção dela, quando me aproximei fingi estar digitando no meu aparelho até que intencionalmente esbarrei ombro com ombro nela. – Me desculpe, estava distraíd... Lara? – Falei despretensiosamente. – Oi, – falou por simpatia, ela não fazia a menor ideia de quem eu era. – Seu rosto não me é estranho. – Ela me dizia com um sorriso simpático no rosto. – Luciana, fui sua caloura no seu último ano. – Me apresentei. – Claro, agora me lembrei. Você estava na minha defesa de monografia. – O sorriso dela se abriu um pouco mais. – Isso! – Confirmei. – Quantos anos que não te vejo e não tenho notícias suas. – Mentira, eu já tinha investigado o i********: dela algumas vezes. – Verdade, já formou? – Sim, no último semestre. Você continua trabalhando como redatora naquele mesmo site? – Menina Veneno, – me relembrou o nome. – Sim, continuo trabalhando lá, agora como editora. – Uau, em tão pouco tempo, parabéns! – Obrigada. – E como é a experiência de trabalhar em uma redação. É uma área que tenho muito interesse. – Eu amo – contou. – Você tem tempo para um café? Eu adoraria ouvir mais um pouco da sua experiência. – Claro, só volto para o trabalho daqui uma hora – aceitou. Ela me seguiu até uma pequena cafeteria no shopping, daquelas com a decoração fofinha e o preço de assustar qualquer um. Nos sentamos e ela logo fez o pedido dela, eu a acompanhei e pedi apenas um expresso. – E então, com o que você está trabalhando agora? – Me perguntou. – Estou desempregada – contei. – Tenho mandado currículos para diversos lugares, mas nada ainda. – Você tem uma área de interesse? – Eu tenho tentado tudo, mas escrever é o trabalho dos meus sonhos. Ainda mais em uma redação feminista como a sua, deve ser maravilhoso trabalhar com tantas mulheres incríveis e fazendo um conteúdo tão relevante para a nossa sociedade. – Eu sabia que estava puxando o saco demais porque eu soava exagerada até para os meus ouvidos. Mas é o desespero, não é mesmo... – É maravilhoso mesmo. Estamos ampliando agora, teremos novas colunas e focaremos em outros públicos também. – E vocês estão contratando? – A pergunta de um milhão de reais. – Sempre. – Como eu faço para aplicar para uma vaga? – Você tem algum material para mostrar? – Que eu tenha escrito? – Sim. – Não tenho certeza, mas eu poderia providenciar, não seria um problema. – Então, mande para mim, junto do seu currículo e eu envio para o departamento responsável – prometeu. – Você faria isso por mim? – Disse empolgada. – Claro, sem problema algum. Até porque sei que nossa faculdade só forma excelentes profissionais. Continuamos falando trivialidades, ela contou um pouco mais da rotina de trabalho, relembramos as festas da faculdade, falamos um pouco sobre vida pessoal, até que deu a hora dela voltar para a redação e nos despedimos na entrada do shopping. Ela foi para um lado e eu iria para o outro. Mas Lara logo se afastou enquanto que eu congelei no lugar e não consegui me mover. Ela havia pedido algo meu para ler e eu tentava desesperadamente buscar na minha memória qualquer artigo que eu tivesse escrito na faculdade que eu pudesse usar para impressioná-la, mas nada me vinha a mente. Não era possível que eu não tinha um material pronto para servir de portfólio. O que eu estava fazendo com meu tempo livre? Transando, eu sei. Bom, agora eu tinha que correr contra o tempo. ************** Fica ligado que amanhã tem mais! Não se esqueça de deixar seu comentário e compartilhar com as amigas :) E me siga nas redes sociais: Instagram, Twitter e Tik Tok: @thaisolivier_
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