Capítulo 3

2346 Words
– Como assim ficar sem s**o? – Foi o que todas perguntaram, algumas confusas, outras visivelmente desacreditadas da minha capacidade de embarcar nessa nova fase. Cheguei a ouvir delas frases como “não precisa ser radical”, “vamos com calma”, “um passo de cada vez”. Mas, segundo elas, eu não era a pessoa que fazia o impossível? De fato, a descrença delas em minha decisão parecia me incentivar ainda mais. – Eu prometo a vocês que a partir de hoje ficarei 6 meses sem s**o, usando toda a minha energia única e exclusivamente para alcançar sucesso na minha vida profissional. Findado o prazo e eu continuar pobre, saberemos que meu problema não é esse. Elas continuaram a se entreolhar com caras de assustadas, afinal seis meses era muito tempo. – Além disso, estarei comprometida em ser uma amiga melhor para vocês. – Mas olha, está tudo bem se você não conseguir. – Gabi já me consolava pela possível derrota. – Vocês não estão acreditando em mim! – Reclamei. – Não é que a gente não acredita, mas é que seis meses é muito tempo – justificou Mari. Lari ainda começou a rir do nada. – Eu poderia apostar que você não aguenta esse tempo todo. Gabi em resposta deu um t**a no braço dela. – Aiiii! O que foi? – Lari reclamou. – Ninguém vai fazer nenhuma aposta – decretou a mãe do grupo, minha colega de casa. – Tudo bem se ela quiser apostar, um incentivo a mais para mim. – Dei de ombros. – Mil reais por mês que você ficar sem s**o. – Ela estava realmente empolgada com isso. – Você vai me pagar 6 mil reais? – Perguntei chocada. – Ou você vai me dever essa grana toda. Olhei para ela, um sorrisinho desafiador brotava em meus lábios, tentei escondê-lo, mas estava empolgada. – Fechado! – Estiquei a mão para selar o trato e Lari fez o mesmo. – Vocês parecem duas crianças. – Gabi resmungou. – A partir de hoje sou uma nova mulher – exclamei. Verdade seja dita eu estava tão empolgada quanto Lari. Na realidade nada estava mudando efetivamente na minha vida, mas eu me sentia diferente, com esperanças. Como se tivesse encontrado a rachadura que comprometia toda a minha estrutura e agora tinha feito o reparo necessário para prosperar. Se eu falhasse... aí sim voltaria para estaca zero, retornaria ao fundo do poço da minha existência e minha cidade natal se tornaria a única opção para o meu futuro. Então, eu teria seis longos meses pela frente para ficar sem s**o e um mês para conseguir dinheiro o suficiente para me bancar sem precisar voltar para a casa dos meus pais. Eram duas difíceis missões, mas uma vez ouvi que antes um objetivo difícil do que não ter objetivo nenhum. Depois que as garotas foram embora e Gabi foi dormir me tranquei no meu quarto, pronta para arregaçar as mangas. Comecei bloqueando todos os garotos que me mandavam mensagem ou que poderiam ser uma tentação para mim. Excluí os aplicativos de namoro. E desenterrei uma agenda que comprei para servir de diário, mas que nunca usei. Na primeira página escrevi no cabeçalho: “O que você queria ser quando crescesse?”. E fiquei ali matutando com a pergunta que Gabi tinha me feito. Não consegui pensar nas respostas e adormeci com o caderno aberto na minha mão. Só fui acordar no outro dia, dolorida pela posição toda torta em que fui dormi. As folhas ainda brancas me lembrando da tarefa não cumprida. Mas para me ajudar na reflexão sabia o que fazer. Levaria o diário para passear, eu sairia pela cidade, observando as pessoas, os lugares, a paisagem, as lojas, tudo em prol da criatividade. Ao sinal de qualquer ideia anotaria tudo, até que eu tivesse uma clarividência sobre meu futuro. Perto de casa tinha um centro comercial de alto luxo, adorava passar por ali. As roupas nas vitrines, as mulheres estilosas desfilando pelas ruas e até as decorações instagramáveis que dominavam o lugar davam um clima contemporâneo para aquela região da cidade. Preferi não levar o celular para não me distrair do meu objetivo principal, nada que me atrapalhasse a criar uma conexão com o meu entorno, com o movimento. Percebi que do outro lado da rua havia bancos de madeira que nunca tinha reparado antes. Estavam vazios. Atravessei para a outra calçada e me sentei ali. Neles eu tinha uma boa visão do sobe e desce de gente. Pessoas indo e vindo. Trabalhadores à espera de clientes. Clientes à procura de seu objeto de desejo. Todo aquele barulho, aquela agitação, me lembraram como eu amava viver naquela cidade. Tudo ali tão acessível, tantos universos se colidindo em um mesmo espaço. As pessoas podiam ser quem elas quisessem e ninguém dava a mínima. Depois de um tempo me levantei e fui até a praça ali perto. Era perto do horário de almoço e por isso muita gente estava nas ruas. Mas também tinha pessoas correndo e se exercitando. Alguns velhinhos passeavam com seus cachorros na coleira. Enquanto eu tentava registrar cada momento, cada detalhe daqueles lugares que costumava passar todos os dias, me pareceu como uma despedida e não consegui evitar que meus olhos se enchessem de lágrimas. Não conseguia pensar em nada além da minha eminente volta para a casa dos meus pais. Falhei. Eu havia falhado no objetivo que havia me levado até ali, até à faculdade dos meus sonhos. Nadei, nadei e nadei para morrer no mesmo lugar que minhas antigas colegas de classe, que não quiseram sair de lá e hoje estão casadas esperando o segundo filho. Tentei me apegar ao otimismo que me movia pela manhã, mas eu nem consegui me lembrar de onde ele tinha vindo. Voltei para casa com a certeza do fracasso. Liguei para a minha mãe. – Nana, coisa boa falar com você. Já estamos com saudades. Ouvir a voz dela tornou mais difícil segurar o choro. Mas dei apenas algumas fungadas ao telefone e limpei as lágrimas antes que elas começassem a cair. – Como estão os preparativos para a viagem? – Perguntei. – Uma loucura! Nunca pensei que uma viagem poderia dar tanto trabalho. É tanta coisa para resolver, que você não faz ideia. – E o papai, como ele está? – Nervoso, você sabe como o seu pai é. Sempre sofrendo por antecipação. – Eu podia perceber que ela falava ao telefone enquanto fazia alguma coisa, as vezes a voz dela ficava abafada, outras longe demais, por tentar segurar o aparelho com o ombro e o rosto para deixar as mãos livres. – E você, querida, como está? – Tudo bem, mãe. – Eu andava pelo meu quarto em círculos e alisava minha calça de nervoso. – Estou mandando alguns currículos, entrando em contato com amigos, esperando por alguma coisa aparecer. – Bom, muito bom... espera aí, seu pai acabou de chegar. – No fundo consegui ouvir a voz do meu pai “é a Nana? Deixa eu falar com ela?”. – Oi, princesa do papai. – Ele soava empolgado. – Oi, pai. – Comecei a escrever algumas orientações sobre coisas que eu vou precisar que você faça enquanto estivermos fora, tudo bem? – Claro, pai. Só anotar que eu faço para você. – Sua mãe está me deixando louco. – Ela gritou alguma coisa em protesto, mas não pude entender o que era. – Está sim! Nana, ela não consegue simplificar, tudo nas mãos dela fica mais complicado do que precisa ser. – Mentira, Nana! – Ela tomou o telefone das mãos dele. – Seu pai que não consegue terminar nada que começa, é desesperador. – Me deixe falar com ela em paz – reclamou. – E você, já se decidiu? – Perguntou para mim, “pelo amor de Cristo homem, ela só teve um dia” dessa vez pude ouvir minha mãe claramente. Eles pareciam estar mais entretidos brigando entre si, do que conversando comigo. Eu esperava mesmo que eles ficassem mais tranquilos depois da partida, porque um ano convivendo o dia todo desse jeito não podia dar certo e eu não queria ver meus pais se separando a essa altura da minha vida. – Ainda estou decidindo, pai. Continuo procurando por um emprego por aqui – contei. – Muito bem, estamos aqui por você, qualquer coisa que precisar. – Obrigada, pai. Me despedi deles e desliguei. Não sabia o que estava procurando quando peguei o telefone para falar com eles, mas certamente não havia encontrado. A verdade é que eu não sabia nada sobre o que eu precisava, a voz na minha cabeça que ria da minha tentativa de prosperar não se calava. Abri meu guarda-roupa e comecei a revirá-lo sem um objetivo claro, apenas vasculhava. Na parte de cima que eu m*l alcançava avistei uma caixa. Eu sabia que caixa era aquela, mas há muito não a via, talvez desde que tinha me mudado para aquele apartamento. Busquei uma cadeira e me estiquei para pegar minha caixa de recordações, coisas que tinha guardado da minha infância. Fotos, cartinhas e mais um monte de tralha que mantive ali por todos aqueles anos. Desci da cadeira com a caixa nas mãos e me sentei no chão, tirei a tampa como se estivesse abrindo a caixa de Pandora. Já nem me lembrava dos detalhes do que havia ali dentro. Muitas fotos espalhadas pela caixa. Da minha mãe grávida até minha adolescência. Das nossas viagens em família para o litoral da Bahia e dos passeios com a escola. Das minhas apresentações de teatro, teclado e das competições de natação. Fotos com amigas que eu já não falava mais e com outras que eu mantinha o contato até hoje. Encontrei ingressos do cinema e de shows quase apagados. Quase já não dava para ler as letrinhas, mas de alguma forma eu sabia exatamente qual eram os filmes e os artistas. Também tinha papéis de bombom, esses eu não fazia ideia do porque estavam guardados. Teria sido presente de algum namoradinho? Uma amiga? Bom, se tinha algum significado na época, hoje já não tinha mais. Embaixo das fotos achei muitos bilhetinhos, fiz questão de abrir e ler um por um. A maioria eram declarações de amor das minhas amigas da escola, como éramos fofas. A maioria eu já nem tinha contato, “do terceirão para a vida” disseram. Também tinha cartões de aniversários, alguns dos meus pais, eles arrasavam com as palavras, sempre me faziam chorar. Perdemos esse hábito com o tempo, agora tudo era digital, apenas mandamos mensagens no w******p e pronto. Por último, bem no fundo da caixa tirei um punhado de folhas empoeiradas. Não me lembrava do que era até botar meus olhos nela. Era uma revista que eu tinha feito à mão! Várias folhas A4 unidas por uma cordinha passada por dois buraquinhos que fiz na lateral da página e com um lacinho para enfeitar que permanecia intacto até hoje. A capa era toda desenhada por mim, com lápis de cor e giz de cera. Eu até que desenhava muito bem para idade, me surpreendi. E já na primeira página, várias chamadas com as matérias que estavam na revista. “Mariana ganha sua primeira Barbie veterinária e diz estar muito feliz”. “Fim de semana no sítio da vovó Lúcia, a melhor opção para sua família”. “Como vencer sempre no jogo de dama”. “Tia Cássia ensina a melhor receita de bolo de limão”. “Mistério revelado, Júlia confessou de quem ela gosta”. “Porque a vida é tão difícil aos 10 anos?”. Só a capa já me fez rir. Tinha me esquecido completamente dessa revista! Mas olhar para ela de novo era como um filme passando na minha cabeça. Me lembro que eu amava as revistas da minha mãe e copiei as matérias delas, adaptando para a minha realidade da época. Nas páginas de dentro vinham as matérias, todas escritas de próprio punho, com desenhos, recortes e fotografias para compor a diagramação e as entrevistas. Uma foto minha com a Barbie, uma foto no sítio, outra do bolo da tia Lúcia e por fim, um desenho de Júlia que não quis participar da brincadeira. Cheirei as páginas, mas não senti nada além de poeira. Mas quando a revista ficou pronta perfumei todas as páginas com uma colônia que eu usava. Fiz outras edições, não lembro quantas, mas ainda estavam guardadas em algum lugar na casa do meus pais, tinha certeza disso. Liguei de novo para minha mãe, que me atendeu no terceiro toque. – Nana, o que aconteceu? – Perguntou surpresa. – Mãe, você lembra daquelas revistas que eu fazia quando tinha 10 anos? – Claro, você fazia várias cópias e saía distribuindo nos salões aqui do bairro. Todo mundo achava uma graça. Era verdade, não tinha feito apenas várias edições, eu tinha feito cópias à mão de cada edição para distribuir. Eu era a própria Anna Wintour! – Você lembra onde elas estão guardadas? – No seu armário, junto com todos os seus trabalhos da escola que guardei. – Se não for muito incômodo, você poderia fotografar tudo isso e me mandar? – Claro, mas porquê? – Eu estou em uma jornada de autodescobrimento aqui. – Ok. Te mando logo. – Ela já ia desligar sem fazer mais nenhuma pergunta, mas eu ainda tinha algumas a serem feitas. – Mãe, pelo que você se lembra, eu gostava dessas coisas? – Da revista? Você amava, Mariana! Ficava dias e dias entretida com as entrevistas. Nós nunca duvidamos que quando chegasse a hora você cursaria jornalismo, é o que você nasceu para ser. – Obrigada, mãe. Enfim, desliguei. Olhando para aquelas folhas velhas em minhas mãos, lembranças pipocando na minha mente e eu finalmente tive uma luz. ************** Fica ligado que amanhã tem mais! Não se esqueça de deixar seu comentário e compartilhar com as amigas :) E me siga nas redes sociais: Instagram, Twitter e Tik Tok: @thaisolivier_  
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