Capítulo 2

1746 Words
O choque daquele pensamento me fez dar meia volta e ir para casa. Estava realmente assustada com a ideia de que eu preenchia todos os requisitos de uma pessoa viciada. No caminho de volta repassei mentalmente todas as vezes que usei s**o para esquecer minhas mágoas. Tentei contar com quantos homens eu tinha saído nos últimos três meses e não consegui fechar a conta. Eu era uma viciada em s**o. Gabi tinha razão. Será que ela estava certa também a respeito de ser essa a razão da minha falta de foco e concentração com as outras áreas da minha vida? Seria essa a razão de estar desempregada até hoje? Porque eu não tinha mais energia para nada que não fosse saciar meu desejo inesgotável por me relacionar com homens? Minha cabeça dava um nó, como se o véu que me impedia de ver a verdade tivesse sido arrancado de uma vez só. Como se pela primeira vez eu estivesse me vendo pela ótica das minhas amigas e o que eu via era uma pessoa desesperada por se conectar com outras pessoas mesmo que apenas de forma carnal e efêmera. Não precisava ser nenhuma pudica, mas aquela necessidade era muito mais que só diversão. Cheguei em casa e me dirigi direto para o quarto de Gabi que pulou da cama com a minha entrada bruta. – Nana, o que aconteceu? – Chama as garotas aqui amanhã, eu vou fazer minha própria intervenção. – E saí do quarto fechando a porta novamente. No dia seguinte Gabi tinha feito a parte dela chamando nossas amigas. Minha casa tinha mais outras três mulheres, Manu, a amiga que conheci na academia; Lari, minha veterana na faculdade, que hoje trabalhava com assessoria de imprensa e Beatriz, fisioterapeuta que cuidou de mim quando tive um problema na coluna, nos demos tão bem que viramos amigas para sempre. Éramos um grupo, nem sempre inseparáveis, mas sempre disponíveis quando necessário. E claro, que eu também podia contar com a sinceridade delas, era quase um pré-requisito para se relacionar comigo. Estavam todas as convidadas sentadas no nosso sofá, na mão uma taça de vinho improvisada de última hora pela Gabi. Nenhuma delas sem entender porque exatamente tinha sido convocada para essa reunião. Por isso, não me demorei a me colocar em pé de frente para elas. – Bom, como vocês já estão a par, meus pais estão saindo em uma viagem pelo mundo e eu perderei todo o meu sustento financeiro. – Elas balançaram a cabeça em concordância e sem verbalizar nenhum som, esperando pacientemente pelo meu discurso. – Pois muito que bem, ontem Gabi levantou a hipótese de que boa parte do meu insucesso na minha vida profissional se dá ao fato de que sou viciada em sexo... – Não usei essas palavras – se defendeu. – Mas é o que quis dizer e está tudo bem, não se preocupe – a acalmei. – Como eu ia dizendo, Gabi colocou em pauta essa discussão que a princípio eu neguei, mas diante de novos fatos questionei minhas ações, por isso chamei todas vocês aqui e espero apenas a verdadeira opinião de cada uma. Eu sou tarada? Elas se remexeram no sofá, se entreolharam. Lari bebericou o vinho para ganhar tempo. Foi Manu quem falou primeiro: – Muito. – Vago demais. Preciso de mais detalhes – pedi. – Olha... – Lari começou cheia de dedos. – Parem de rodeios e vão logo ao que interessa. – Claramente, um caso de ajuda médica. – Lari despejou logo. – Por mim essa intervenção tinha sido feita antes, Gabi que não deixou preocupada com os seus sentimentos. – Vocês conversaram sobre minha vida s****l antes? – Claro, a gente quer o seu bem. – Bia completou. Me joguei em um banquinho no canto da sala. – Estava claro para nós que você vinha apresentando um padrão de comportamento de algum... distúrbio. – E não é que eu não queria te falar isso, só queria que fosse com calma e cuidado. – Gabi se justificou. – Ela achava que você estava em negação. – Cala a boca, Lari. – Ué, ela pediu sinceridade. – Quando vocês tiveram essa conversa sobre mim? – Várias vezes. – Lari estava mesmo empenhada com a verdade. – Como? Eu sempre estava junto. – Junto? Quando é que você estava junto, Nana? – Sempre ou vocês estão se reunindo sem mim? – Ok. Eu me lembro especificamente de uma vez que falamos sobre você. Naquela festa do SPA cliente da empresa em que eu me matei para conseguir colocar o nome de todas vocês na lista. – Mas eu fui nessa festa. – E saiu 15 minutos depois para se encontrar com um qualquer que tinha te mandado mensagem te chamando para sei lá o quê. – Lari parecia mesmo incomodada com o meu comportamento. – Você quer outro momento que tivemos essa conversa? No batizado do sobrinho da Beatriz que você foi embora com o padrinho da criança! – Ela quase berrava. – Mais um? No dia da inauguração daquela boate que você sequer chegou a entrar porque se arrumou com um cidadão na fila mesmo e foi embora! – Mas vocês não ficaram sozinhas, tinham uma a outra. – Me defendi. – Nana, você vem nos negligenciando e nos abandonando faz tempo – disse Beatriz. – Calma aí, só tem três meses que eu me formei, desde aí que comecei a me afundar. – Essa é só a desculpa da vez – emendou Mari. – Toda hora você arruma uma desculpa para se enfiar nas calças de alguém o tempo inteiro. Antes era o seu TCC que estava te estressando, antes disso o seu estágio que estava te exigindo demais. Sempre uma razão nova. – Isso não quer dizer que eu tenha sido uma péssima amiga para vocês. Festas e noitadas não são o que resume nossas amizades, vocês não podem me reduzir a péssima companhia só porque abandonei algum rolê. – Beatriz pediu demissão. – Lari voltou a falar depois de um tempo tentando segurar sua raiva. – O que? Quando? – Dois meses atrás. – Por que você não me disse nada? – Me virei para Bia que deu de ombros. – Porque ela conseguiu um emprego muito melhor em uma clínica que paga o dobro do que ela recebia antes. Ficamos com medo de te contar e te deixar m*l por estar desempregada. – Vocês deliberadamente estão escondendo coisas de mim por achar que vou ter inveja de vocês? – Eu estava perplexa com o comportamento das minhas amigas. Aquilo ali me deixou com muita raiva. – Não estamos dizendo que você tem inveja, mas que está emocionalmente instável – amenizou Gabi. – Emocionalmente instável a ponto de não poder ficar feliz pelas conquistas das minhas amigas? – Você sumiu por três dias depois da promoção da Gabi – pontuou Mari. – Não foi por causa disso! Só conheci um cara que tinha uma casa na serra e fui passar o fim de semana lá. – Você fez o mesmo quando reprovou na faculdade. – Agora era a vez da Beatriz apontar mais alguma coisa contra mim. – Foi só uma coincidência – afirmei. – E quando descobriu que seu ex do ensino médio ia casar. – Lari completou. – Mas nessa eu estava m*l e tinha meus motivos para estar. – Você estava m*l em todas, é isso que estamos tentando te dizer – continuou Lari com seu rancor claro e evidente. – E por essa razão deixamos de te contar um monte de coisas que pudesse te causar alguma frustração por que você acabaria usando como desculpa para cair na cama de alguém. – O problema é que até quando ela estava feliz era desculpa – zombou Beatriz soltando uma risada involuntária. – Tudo era desculpa – resumiu Mari. – Ainda assim vocês não podiam me esconder coisas, eu assumo meus atos e as consequências deles. Se estou me afundando é um problema meu, vocês não podem tomar decisões por mim – reclamei. – Podemos sim por que isso é exatamente o que amigos fazem. Nós queríamos o seu bem e estávamos tentando achar a melhor forma de te ajudar – protestou a mais brava do grupo. – Não entenda isso como um abandono da nossa parte. Muito pelo contrário, nós torcemos muito por você e queríamos o seu sucesso – apaziguou minha companheira de casa. – Na verdade, nosso maior desejo é que você enxergasse o quanto é talentosa e cheia de habilidades. – Mari suavizou também. – Há alguns anos se tivéssemos apostado quem a essa altura estaria milionária, todo mundo teria jogado as fichas em você – confessou Lari. – Lembra aquela vez que contei que eu tinha um sonho de pilotar um jet ski e de alguma forma você conseguiu que no meu aniversário todas nós fossemos de graça para uma casa no lago e passamos o final de semana pilotando? – Bia lembrou. – Você sempre conseguia o impossível. – Na verdade, o impossível te motivava. – Se alguém dizia “não tem como”, é aí que ela não sossegava até conseguir. O tom da intervenção mudou rapidamente das acusações para uma sucessão de frases de coach motivacionais. E elas continuaram por um tempo passando a bola uma para outra sem parar com as filosofias baratas. – É por isso que acreditamos com todo o nosso coração que o seu problema foi ter deixado a dúvida e a insegurança tomar conta e resumido todo seu dom de conseguir qualquer coisa apenas no âmbito das conquistas sexuais – concluiu Gabi. – Sim, e se você voltasse o seu foco e atenção para sua carreira profissional, seu sucesso seria questão de tempo. – Os olhos de Mari brilhavam como se já pudesse vislumbrar meu futuro. – Você só precisa aceitar que cresceu e que agora precisa agir como uma adulta. – Lari sempre delicada. Me levantei e dei um basta com as mãos. – Ok. Não preciso de mais nenhuma informação nova. Já entendi o ponto de vocês. – Alisei minha roupa como se estivesse me preparando para algo. – E o que você vai fazer agora? – A única opção que me resta. – Qual é essa? – Ficar sem s**o. ************** Fica ligado que amanhã tem mais! 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