Capítulo 7 - Certezas

2180 Words
Não foi a primeira vez que eu me pegava pensando em como era difícil ser vampiro algumas vezes. Essa era uma das poucas coisas que eu desejava ser mais humana: sentimentos. Tudo para nós - e nesse quesito eu me incluía totalmente - era ampliado. Seja sensações, habilidades ou emoções. Nós sentíamos demais, amávamos demais. Por isso me perguntava como deveria ser difícil além de ser vampiro, ser pai e mãe. Já havia lido diversas vezes, via filmes que retratavam e até mesmo presenciei com meus próprios olhos o amor da paternidade humana. Sabia que era algo que eu nunca senti, obviamente, mas uma coisa eu tinha certeza: para os meus pais deveria ser dez vezes bem pior, até esmagador, sustentar esse sentimento todo. Por isso eu estava me sentindo tão m*l naquele avião, vendo minha mãe quase quebrando a poltrona da área vip ao tentar se controlar e não vir até mim e me afogar com suas perguntas. Eu os conhecia bem o suficiente para saber que estavam doidos para conversar comigo há dias. Edward já tinha lido minha mente, via que eu estava prestes a ceder, então não fazia sentido enrolar por mais tempo. Meu pai conhecia muito bem a minha essência, quem eu era de verdade. Nosso relacionamento sempre foi muito mais mental do que físico, então eu me sentia livre para compartilhar todos os meus segredos e ele sempre era muito compreensível e amável. Não poderia existir pessoa melhor para estar na minha mente. Óbvio que se pudesse escolher, iria preferir a privacidade, mas fazer o quê. Mas com minha mãe era diferente, ela era uma espécie de criatura beatífica para mim. Como não me dobrar em adoração a alguém que havia aceitado com facilidade abrir mão da própria vida, do amor de sua existência que era meu pai, para me dar a luz? Ela era tudo o que eu jamais seria e também quem eu mais queria ser. Então era difícil para mim me abrir tanto. Quando se tem uma pessoa tão incrível e maravilhosa como mãe, é constrangedor expor seus defeitos.  Com isso em mente, me ajeitei desconfortavelmente na poltrona quando ela veio se sentar ao meu lado. - Um dólar por um sorriso - disse ela depois de tirar uma mecha de cabelo do meu rosto. Tentei esboçar um sorriso, mas deve ter saído bem falso porque ela deu uma risadinha. - Valeu a tentativa. E então, ansiosa para as aulas amanhã?  Bufei. - Vai logo ao assunto mãe, você nunca foi boa em puxar papo. Ela suspirou e depois começou a ajeitar os babados do meu vestido. - Seu pai me contou sobre o beijo. - Claro que contou - revirei os olhos. - Sinceramente você deveria estar acostumada a essa altura, eu sempre obrigo seu pai a me contar tudo. Dei de ombros, um claro sinal de "fazer o quê". - E então, foi bom?  A olhei horrorizada. - O quê? É isso que você quer saber?  - Sim - e deu de ombros. Será que ela tinha esquecido que eu era sua filha e não uma colega de escola, como aparentava ser? - Não vai perguntar onde estou com a cabeça por beijá-lo? Olá, é de Jacob Black que estamos falando mãe, o meu babá. - Ele deixou de ser seu babá há muito tempo, querida. - Como se isso deixasse as coisas menos estranhas - resmunguei baixinho, cruzando os braços na frente do corpo. - É com isso que está preocupada? Como as coisas aparentam ser estranhas? É óbvio que ela sabia que essa era uma das minhas muitas preocupações, meu pai devia ter lhe contado. Então por que ela estava jogando verde?  Ela suspirou e continuou: - Olha, você é jovem, Jake é jovem. Qual é o problema nisso? E ele é muito bonito. A olhei como se ela fosse um alienígena, em completo choque. - Mãe, pelo amor de Deus, para com isso. Não dá para me tratar como se eu fosse uma pirada e me internar num manicômio assim que esse avião pousar? Ela deu uma risadinha. - Eu não faria isso nem se achasse que ficou mesmo louca. Já disse que você é livre para sentir o que quiser, não precisa ficar se culpando. - Você já beijou ele? - perguntei sem rodeio, levantando uma das sobrancelhas, a desafiando a dizer a verdade. Ela me olhou profundamente nos olhos antes de responder, como se estivesse tentando encontrar algum significado oculto na minha pergunta. Por fim suspirou e disse:  - Sim, mas foi diferente. - Como assim?  - Você não quer saber disso. - Ah, eu quero. Se é para embarcar nessa loucura, eu preciso saber ao menos onde estou me metendo. - Não sei como isso vai te ajudar. - Também não, mas agora estou muito curiosa. Ela encarou meu pai do outro lado do avião em busca de ajuda, mas ele estava ocupado demais fingindo uma soneca. "Não ouse se meter" ordenei a ele em pensamento. - Tudo bem - suspirou ela, frustrada e derrotada. - Na verdade não foi bom para nenhum dos dois. Na primeira vez ele me beijou a força, estava tentando me provar algo i****a. Acabamos brigando e eu soquei sua cara. - Você o quê? - a interrompi, rindo. d***a, isso quebrou minha carranca séria. - Pois é - resmungou ela - a segunda vez ele me chantageou, disse que iria pra luta com os recém criados se m***r. Ele joga sujo, se quer saber - ela semicerrou os olhos. Aquilo era pior do que eu havia imaginado. Foram dois beijos, mesmo um sendo forçado. Obviamente não era uma competição entre mim e a minha mãe, mas esses pensamentos ridículos não paravam de invadir a minha cabeça. Eu devia mesmo estar louca. - Então foi tudo um jogo entre Jacob e papai? - como ela não havia socado os dois por isso? - Olha, isso foi errado de tantas formas que me sinto envergonhada em confessar pra você agora. Mas saiba que tudo mudou, todos nós mudamos. Você chegou e nossas vidas ganharam outro significado. - Isso é algo que eu também sempre me perguntei. O que aconteceu para as coisas mudarem tanto assim? Ela mordeu o lábio e voltou a olhar para meu pai, que agora encarava fixamente o céu que passava em alta velocidade na janela do avião e apenas apertou os lábios imperceptivelmente. - Jacob se deu conta de que não tínhamos futuro algum, não havia como, e agora ele está no lugar onde sempre pertenceu. Mas chega de falar de mim, coisas do passado não tem mais importância. - O quê? Não! Preciso saber… - ela não podia me contar apenas aquilo. - Você já sabe tudo e eu sei o que está tentando fazer, pare de direcionar a conversa para o outro lado.  Bufei. Daquela mulher eu não conseguiria arrancar mais nada. Acabei cruzando os braços na frente do corpo de novo em sinal de frustração, uma atitude bem infantil, mas eu já estava no limite da dignidade mesmo. - Você me lembra eu mesma às vezes - ela riu ao observar meu showzinho. - Ah, é mesmo? Você também não gosta quando as pessoas escondem as coisas de você? - ironia pesada, eu não devia ter dito aquilo. A expressão de Bella foi de sarrista para magoada, como eu imaginei que ficaria. Me apressei em me desculpar, se tinha uma pessoa que não merecia ser tratada assim era minha mãe. - Desculpe - sussurrei. - Tudo bem meu amor, não precisa se preocupar em magoar meus sentimentos, você é apenas uma adolescente. Levantei uma das sobrancelhas. - Ah não, mas eu sou mãe, é diferente - ela se defendeu e voltou a rir. Soltei um suspiro pesado, eu tinha que dizer alguma coisa a ela, até porque já estava cansada demais de guardar os pensamentos só para mim - e meu pai, consequentemente. - Tudo bem - respirei fundo, joguei os cabelos para trás e sentei de pernas cruzadas sobre a grande poltrona. Conferi mais uma olhada ao redor da cabine para ver se não havia nenhum humano curioso nos observando, mas todos pareciam adormecidos. Meu pai diria alguma coisa, se necessário - vou falar. - Por favor - disse Bella, tentando esconder a curiosidade, mas falhando miseravelmente. - Tá legal. Tente se colocar no meu lugar, ok? - respirei fundo - Imagine que você cresceu sem saber o que é ser normal, na verdade o normal para você é ter uma família inteira de super heróis sugadores de sangue, um monte de lobos gigantes para te proteger, uma mãe que praticamente "morreu" para te dar a luz e um pai com um dom bem inconveniente de ler mentes. Consegue imaginar? - Levemente - ela comprimiu os lábios, segurando um sorriso. - Agora pense que os primeiros meses de sua vida foram os mais conturbados possíveis, quase toda a sua família estava à beira da morte e mais um monte de outros vampiros, só porque você é diferente. Opa, não interrompa, ainda não acabei… E no meio de tudo isso tem um homem que de certa forma consegue fazer com que tudo pareça maravilhoso, digo, ser diferente maravilhoso. Ele estava em todos os momentos importantes ou não da sua vida. Os primeiros passos, a primeira caçada, todos os sorrisos, enfim… É alguém com quem você pode contar para absolutamente tudo e quem não consegue enxergar sem. Mas até então ele não passava de um irmão, um grande amigo, nada mais, e ele sente isso por você também… - então comecei a falar rápido, para não perder a coragem - Mas de repente você se vê apaixonada por ele e imagina como deve ser estar em seus braços… e aconteceu tão rápido... mas isso é tudo bizarro, quer dizer… desde quando isso deveria acontecer? Não é normal ter alguém na sua vida que um dia troca suas fraldas e no outro te beija… Não tinha percebido que minha voz foi sumindo até que meus pensamentos eram transmitidos pelo toque de nossas mãos juntas, através de meu dom. Deixei tudo fluir, como uma roupa caindo do corpo, e me senti tão leve ao final, como se realmente tivesse me despido. Minha mãe nada disse por um tempo, apenas me encarava nos olhos. - Você está apaixonada por ele? - perguntou por fim, tão baixinho que se eu fosse humana não ouviria. - É sério que de tudo que eu falei você só processou isso, mãe? - bufei, soltando minha mão da dela. Ela olhou brevemente para meu pai, que agora nos olhava com intensidade. Reprimi a vontade de fazer uma careta para ele, eu já estava azeda o bastante. - Filha, sabe o que eu percebo? - disse ela, voltando seu olhar para mim, no rosto uma expressão de completa ternura - Sua vida é recheada de coisas malucas, essa é só mais uma delas. - Mas não é assim tão simples, mãe - suspirei, revirando os olhos. - Na verdade é sim, você que está dificultando tanto. - Então, de tudo isso que eu lhe contei, você acredita realmente que o problema é que eu estou complicando as coisas? - Sim, é o que eu acredito - e deu de ombros. Eu estava tão chocada que nem me dei ao trabalho de disfarçar. - Até porque as coisas não estão complicadas o suficiente - disse com desdém. Ela voltou a segurar minhas mãos. - Olha, eu não sou boa nisso, então tenta não complicar para o meu lado, tá bem? Vou ser o mais honesta possível, é o máximo que pode exigir de mim: eu só quero que você seja feliz, e se você o ama e ele ama você, os únicos que podem ficar no meio do caminho são vocês mesmos.  Suspirei, derrotada, nunca me sentindo tão exposta. - Você fala como se tudo fosse tão simples, eu nem ao menos sei se ele me ama. Ela me encarou com aqueles profundos olhos dourados, tão parecidos com os de meu pai e mesmo assim tão diferentes. Essa era uma das poucas vezes que verdadeiramente eu me sentia uma criança nos braços da mãe, buscando alento. Mas o estranho era que ela parecia tão perdida quanto eu, o porquê, eu não sabia.  - De poucas coisas na vida eu tenho certeza, mas o amor que Jacob Black tem por minha filha não é uma delas. Depois disso ela se levantou e voltou a se juntar ao meu pai. "Valeu, mãe" eu quis acrescentar ironicamente. É muito conveniente da parte dela me deixar à míngua daquele jeito. Minha vontade era de chamá-la e obrigá-la a explicar melhor suas palavras, mas a revolta era tão grande que virei meu corpo de lado rudemente e me obriguei a dormir um pouco.  Menos de quinze minutos haviam se passado para eu perceber que dormir era uma coisa além da minha capacidade no momento, então decidi refletir sobre a conversa com Bella, me dando conta depois de algum tempo que ela me deu exatamente as respostas que eu precisava.
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