Os dias que se seguiram foram os mais difíceis e trabalhosos que já enfrentei desde que me tornara alfa. Todo o bando estava muito abalado com toda aquela tragédia, alguns até tinham dificuldades em se concentrar, inclusive eu. Nesses momentos a falta de Renesmee era esmagadora, meu maior desejo era ouvir o som da sua voz, mas até então ela não tinha dado notícias e eu estava incapaz de me comunicar com ela, seja por conta do trabalho com a matilha, seja porque ela estava incomunicável naquele lugar remoto. Até mesmo a faculdade eu tinha abandonado, não comparecia as aulas havia dias, mas isso não era de fato um problema, pois Edward havia conversado com a reitoria e eles imaginavam que eu estava viajando àquela altura.
Os Cullen estavam ajudando muito nesses dias, tentando encobrir o máximo de rastro que o vampiro assassino tinha deixado na aldeia makah. Até então não tínhamos uma história plausível para inventar que pudéssemos sustentar por muito tempo, então decidimos apenas limpar o terreno e mascarar todo o território. Provavelmente voltaria os rumores de ursos gigantes rondando a floresta. Ajudava o fato da aldeia ser bem isolada e muito pequena, mas precisávamos garantir que nenhuma autoridade descobrisse o que tinha acontecido, e para isso Jasper e Alice foram muito eficientes em forjar documentos e invadir computadores. Mas foi apenas no quinto dia de trabalho que finalmente tivemos uma boa notícia: a garota lobo havia recobrado a consciência.
Eu estava no meio de uma ronda - agora cobrindo um perímetro ainda maior e com mais membros do bando - quando Leah se transformou e informou as novidades.
"Estou quase voltando Leah, mas é melhor o Dr. Cullen sair, a garota não vai reagir bem se ver um vampiro"
"Tá certo, tem razão, tem razão" ela estava visivelmente animada e se transformou de volta antes mesmo que eu pudesse dizer mais alguma coisa.
Quando cheguei no terreno da minha pequena casa, o carro de Carlisle já não estava mais alí. Lá dentro encontrei Leah, meu pai, Sam e Sue, que provavelmente foi chamada para o caso da garota passar m*l.
– E aí? – perguntei a eles.
- Jacob, o Dr. Cullen avisou antes de sair que em hipótese alguma essa menina pode se transformar, se não seus ossos vão se partir tudo de novo e talvez ela não sobreviva se perfurar algum órgão - disse Sue rapidamente assim que entrei.
- Silêncio, ela está acordando - sussurrou meu pai, com os olhos vidrados na maca no meio da sala, cercada de aparelhos e sonda ao lado.
A garota ainda estava com o corpo coberto de ataduras, mas não parecia tão frágil agora, na verdade tinha pela primeira vez uma expressão calma. Seu rosto era muito bonito, com traços indígenas bem marcados, apesar da pele pálida.
Ela se mexeu timidamente e finalmente abriu os olhos, as íris azuis como duas piscinas desorientadas de primeiro momento e depois focando em cada um dos nossos rostos.
- Oi - começou a dizer Leah, com as mãos na frente do corpo como se prevendo um ataque. - Meu nome é Leah. Você está segura agora.
A garota a olhou com uma expressão de completa confusão e por um momento temi que tivesse perdido a memória.
- Qual é o seu nome? - perguntei.
Ela olhou para mim e me encarou por um momento antes de responder.
- Miakoda - disse em uma voz fraca devido a falta de uso - mas podem me chamar de Mia.
Suspirei aliviado de que ela não apenas lembrava o próprio nome, como também conseguia formular frases coerentes.
- Onde estou? - ela olhava desorientada para todas as direções, sem reconhecer nada familiar, imaginei.
- Você está na reserva Quileute. Meu nome é Jacob, sou o alfa do meu bando.
Ela voltou a focar os olhos em mim com muita atenção, um pequeno "o" se formando em seus lábios.
- Qui… Quileute? - sussurrou.
- Sim, encontramos você no limite da reserva muito ferida e a trouxemos para cá.
Ela pareceu finalmente se dar conta de algo, porque seu rosto assumiu uma expressão de terror e pânico. Lágrimas começaram a surgir e seu coração acelerou desesperadamente e eu nem precisava do barulho da máquina ao seu lado para saber disso. Mas foi apenas quando vi seu corpo tremendo que corri até ela para contê-la.
- Ei, ei se acalme, respire fundo. Você não pode se transformar, seus ossos estão quebrados.
Foram necessárias mais algumas palavras de incentivo e vários minutos para que finalmente o ritmo do seu coração desacelerar e ela parar de tremer.
Ela fazia uma careta de dor o tempo todo, então imaginei que o menor movimento devia causar uma dor gigantesca, mas eu sabia muito bem que era impossível controlar os espasmos musculares quando se estava tão nervoso.
- Tudo bem, podem me soltar - arfou ela por fim, ao respirar bem fundo.
Todos nós olhamos pelo canto do olho um para o outro, querendo confirmar se todos concordavam com ela.
- Olhe Mia - disse meu pai, receoso - queremos te contar tudo o que aconteceu e ouvir a sua versão da história, mas se você reagir dessa forma teremos que esperar mais alguns dias.
Porcaria, eu não queria esperar mais nada, estava agoniado de tatear às cegas a procura de pistas do que levou aquilo tudo acontecer e a única pessoa que poderia dar alguma informação estava bem na minha frente.
- Não, eu conto o que aconteceu até onde me lembro e vocês continuam - disse ela em um tom mais firme e decidido que eu tinha ouvido até agora.
Fiquei impressionado com sua coragem, eu estava imaginando que seria muito complicado fazê-la lembrar de todo aquele horror, que levariam dias até conseguirmos arrancar alguma coisa dela, mas a garota parecia ser casca grossa.
Ela respirou fundo mais uma vez, fechou os olhos e começou.
- Meu nome é Mia e eu nasci na aldeia Makah, eu vivia com minha mãe e minha avó tranquilamente. Minha avó faleceu a algum anos e minha mãe nunca chegou a se casar. Eu tinha planos de deixar a aldeia e fazer faculdade no exterior, essa era minha última semana na região. Foi quando um homem de nossa vila foi atacado por uma criatura fria, dura como uma geleira e fedia muito, um cheiro doce que queimava o nariz.
A atmosfera do ambiente se tornava mais sombria conforme Mia falava, como nas noites de fogueira com a tribo.
- Ele estava acompanhado de uma criança… mas não sei o que era aquela criança exatamente, não parecia humana e também não era como aquele homem, mas ele a alimentava com sangue do humano que tinham acabado de assassinar. Nesse momento... - ela respirou fundo e logo em seguida fez uma careta de dor - eu senti um calor tão forte e uma fúria tão grande que quando dei por mim tinha virado um lobo gigante. Não consegui pensar muito no que tinha acontecido, só sabia que precisava lutar contra aquele monstro. Eu consegui m***r a criança, a estraçalhei com meus dentes, mas isso pareceu deixar o homem completamente louco. Ele então começou a correr muito, muito rápido pela vila e eu só fui vendo a trilha de corpos que deixava para trás, inclusive... o corpo de minha mãe.
Nesse momento Mia explodiu em choro e angústia, pelo visto nem se importando com a dor que sentia fisicamente. Corri até sua direção, mas Leah já estava a abraçando pelos ombros, tomando o cuidado de não apertá-la.
- Não precisa contar mais nada - disse Leah baixinho - Pode descansar.
- Não - fungou ela e tentou se ajeitar no encosto, mas desistindo ao sentir dor, Leah a ajudou - Preciso que vocês saibam.
"Bom, eu lutei com ele, estava tomada de muita fúria, mas ele fez muitos estragos em mim. Eu sentia meus ossos se partindo quando ele me apertou, mas, e vocês podem achar loucura o que vou dizer agora, poucos minutos depois eu já estava curada. Mas foi só quando ele me mordeu que a dor ficou insuportável, eu podia sentir os ossos se partindo tudo de novo. Não sei de onde tirei forças, mas consegui arrancar metade do corpo daquele monstro e fugi. Não sabia para onde ia, mas eu precisava de ajuda. Foi quando me lembrei das histórias que minha avó contava sobre homens que se transformavam em lobos e sugadores de sangue de pele fria. Lembrei também que ela disse que existia lobos assim em La Push. Até aquele momento eu não acreditava em nada disso, achava que não passava de histórias de terror, mas era minha única esperança. Agora estou aqui e não sei o que seria de mim se vocês não tivessem me encontrado."
Quando Mia terminou não havia outra forma de expor o que sentíamos a não ser pelo silêncio. Meu cérebro tinha virado mingau, eu mesmo não fazia ideia do que dizer em seguida. Não sabia o que sentir além de horror e choque. Estava surpreendentemente abismado que ela ainda conseguisse manter a calma, não só por toda a violência que sofrera, mas principalmente por ser um lobo com dias de idade. Me lembrava de quanto tempo eu levei, meses acho, para que parasse de explodir em lobo por aí. Até hoje precisava me concentrar quando estava diante de uma situação de estresse. Como ela conseguia não se transformar diante de tudo aquilo? Não devia ser por causa da dor… será que tinha alguma coisa a ver com o veneno do sanguessuga? Era mais provável.
- Desculpe minha jovem, mas como você pode ser um lobisomem? Apenas descendentes de Taha Aki tem esse dom - perguntou meu pai de forma sombria, quebrando o silêncio. Seu tom de ancião muito evidente.
Ela o olhou em silêncio por alguns minutos antes de responder:
- Eu não sei senhor. A história de Taha Aki minha avó me contava, mas não sei de onde ela a conhece, eu era muito criança para prestar atenção nesses detalhes.
- E qual é o seu sobrenome?
- De Vargo. Recebi o nome de meu pai, ele era espanhol.
- E o da sua avó?
Mais uma vez a garota o olhou em silêncio por um tempo antes de responder, curvando a cabeça levemente para o lado.
- Não me lembro.
Vi meu pai afundar mais na própria cadeira, um pouco desapontado por não resolver aquele mistério.
- Tudo bem, isso não tem importância agora - exclamei, impaciente - Você sabe por que um vampiro atacou suas terras?
- Não sei, mas precisa de um motivo? - perguntou, na defensiva.
- Você disse que ele estava alimentando uma criança…
- Sim, não devia ter mais que cinco anos, mas não era humano, disso eu tenho certeza, então não me sinto culpada por ter matado aquela criatura.
Todos nós nos olhamos por alguns instantes, se com os pensamentos sincronizados eu não sabia, mas tudo que Mia contava parecia se encaixar com a ideia que estava formando em minha mente.
- Mas então, quero saber o que aconteceu depois que me encontraram. Deram fim naquele vampiro? Alguém da minha aldeia sobreviveu? - perguntou, ansiosa.
O silêncio parecia pesar uma tonelada agora, ninguém indicava ter coragem de dizer alguma coisa. Ótimo. Seria eu o portador das notícias ruins.
- Mia, se você diz que apenas quebrou o tronco do vampiro, ele com certeza está vivo.
- Essas criaturas repulsivas conseguem se colar de novo - interrompeu Leah.
"Muito obrigado, agora cala a boca" eu quis acrescentar.
- E quanto a sua aldeia… - falei devagar e engoli em seco - sinto muito, mas ninguém sobreviveu.
Observei atentamente a reação de Mia, para o caso dela se descontrolar novamente e tentar se transformar. Os batimentos na máquina aumentaram, fazendo um barulho irritante, mas eu não precisava de aparelho nenhum para ouvir perfeitamente o som de seu próprio coração acelerado. Observei leves tremores em suas mãos, mas logo cessaram. Ou ela era a criatura mais controlada do universo ou veneno de vampiro causava um estrago maior do que eu imaginava.
- Certo - sussurrou depois de vários minutos. - Vocês disseram que eu quase morri de tão ferida que estava. Como conseguiram fazer tudo isso, sem me levar a um hospital? - falou ela observando seu corpo coberto de ataduras e os aparelhos em sua volta - A senhora é médica? - seus olhos pararam em Sue.
Sue olhou para nós por um instante, receosa pelo o quê responder.
- Não - disse por fim. - Sou enfermeira. Quem cuidou de você, corrigiu todos os seus ossos e ficou monitorando sua evolução há dias foi o Dr. Cullen.
- Quem?
Olhei para meu pai a procura de apoio, com certeza sua figura mais velha ajudaria a manter um pouco de sabedoria na história maluca que ela precisava ouvir.
- Nós…é… e mantenha a mente aberta para isso… temos contato com uma família de vampiros da região - comecei, receoso. - Eu sei que são nossos inimigos naturais e que você tem muitos motivos para odiá-los…
- E como - rosnou ela.
- Mas nós temos um acordo de paz com eles, são pessoas boas e não oferecem perigo para nós - disse meu pai, em tom firme.
Meu pai já havia vencido seus preconceitos com os Cullen há muito tempo, quando meus ossos foram esmagados feito um pacote de salgadinhos há nove anos atrás. Depois, quando Renesmee nasceu, ele ficou ainda mais próximo dos vampiros, uma vez que eu levava Nessie em casa quase todos os dias, ele acabou se afeiçoando à monstrinha. E agora que Carlisle passava mais tempo aqui do que em seu trabalho no hospital para cuidar de Mia, ele pelo visto se tornou um defensor da família de vampiros.
- Mas isso é um absurdo, como vocês conseguem ficar perto deles? - chocou-se a garota, a incredulidade tomando lugar da raiva.
- Essa é a condição para você ficar aqui: não poderá atacá-los ou lhes fazer m*l.
Mia olhou para Leah, aparentemente em busca de uma confirmação.
Leah suspirou.
- Não pense que todos nós gostamos disso - disse Leah revirando os olhos. - Mas Jacob ainda fez o favor de ter imprinting com um deles, então não temos opção.
Mia olhou de volta para mim em choque e muito confusa.
- Imprinting? Isso existe mesmo?
- Sim, e é mais comum aqui do que gostaríamos - resmungou Leah.
- Tudo bem, já conversamos demais - interrompeu Sue - A menina precisa descansar.
Depois de muita relutância da garota, finalmente a convencemos de tomar um relaxante muscular.
Ela já estava quase inconsciente quando saí de casa para voltar às rondas. Porém foi só cruzar a porta que vi pelo menos metade do bando do lado de fora se pendurando sobre a janela para espiar lá dentro.
- O que diabos vocês estão fazendo aqui? - rosnei. Se eles estavam ali não havia lobos fazendo rondas.
Collin foi o único que olhou para mim e deu alguma atenção ao que eu disse, com uma cara i****a de falsa inocência.
- Não queríamos ficar de fora disso, não está vendo? - disse Embry com o nariz colado na janela.
- Vocês deviam estar patrulhando.
- Pega leve Jake, estamos só curiosos. Saí pra lá seu cabeçudo - disse Seth tentando ver alguma coisa sobre o ombro de Quil.
- É cara, além disso ela é a maior gata. Queremos ver - completou Natai, um dos garotos novos.
- Que d***a, ela não olha para cá em momento algum, como vou ter imprinting desse jeito? - reclamou Hute, que tinha apenas treze anos. Era o menor de todos e precisava ficar na ponta dos pés para alcançar a janela.
Embry chegou até ele e lhe deu um t**a no pé do ouvido.
- Deixa de ser trouxa, olha o teu tamanho - debochou Embry.
- E daí? Posso ser baixinho, mas sou o mais esperto.
Eu não tinha paciência para lidar com aqueles garotos agora e estava cansado demais para discutir. Voltei correndo para a floresta com um objetivo em mente. Minhas passadas de lobo só relaxaram quando entrei no terreno dos Cullen. Eu precisava de um pouco de sanidade. Se Nessie não tivesse chegado eu tentaria ligar para ela. Estava sentindo tanto sua falta que doía até a alma, precisava ao menos chegar perto do chalé e sentir seu cheiro. Além disso, ainda que tudo tenha virado uma confusão esses dias, nós precisávamos conversar sobre o que tinha acontecido no casamento. Aquele beijo não saia da minha cabeça em momento algum e eu precisava saber o que tinha significado para ela, porque para mim havia representado o mundo.