Capítulo 6 - Vampiros: Uma eterna batalha entre tolerância e ódio

2589 Words
Pov Jacob Quando deixei Renesmee no casamento e me preparava para saltar como lobo, nem me importei com o terno de segunda mão se rasgando em mil pedacinhos. Em parte porque não queria perder mais tempo, já que tinha sido bruscamente interrompido em um momento tão emocionante e inesperado com ela. A outra razão era porque estava devendo um bom soco em Paul por ter quebrado minha geladeira, então destruir seu antigo terno de casamento seria uma boa vingança.  Porém quando estava transformado e sobre quatro patas, quase caí para trás ao ser atingido por uma enxurrada de gritos, exclamações de alívio e broncas na minha cabeça. Pelo visto todos, com a óbvia exceção de Jared, já estavam transformados e a par da situação. "O que aconteceu?" Perguntei quase gritando para sobressair um pouco sobre as vozes. "Caraca Jake, finalmente você apareceu. Estamos uivando há horas, você não ouviu?" Perguntou Quil, em tom de alívio. "Anda esquecendo de limpar os ouvidos, Jacob? Estamos uivando a século. Estava quase indo te buscar pelos dentes" exclamou Leah, visivelmente irritada por deixá-la segurando a barra todo esse tempo. "Como você pôde estar tão distraído?" Questionou Collin, curioso. Mas Seth foi mais rápido em responder, mostrando a todos a cena que encontrou ao sair da floresta e entrar no quintal onde estava rolando o casamento, vendo a mim e Renesmee abraçados e nos beijando apaixonadamente. Os longos cabelos ruivos dela brilhavam na noite, voando por todos os lados, e eu estava grandemente inclinado sobre ela, a apertando tão forte que a fazia ficar na ponta dos pés. Reviver essa cena me proporcionou uma onda de alegria avassaladora, pintando meu mundo de colorido. Eu estava me sentindo tão vitorioso e desprendido de tudo como nunca aconteceu antes. Me surpreendi por ainda estar correndo desesperado pela floresta, ao invés de saltitando feito uma gazela. "Ridículo" bufou Leah, tão amarga como sempre. "Caramba cara, até que enfim" exclamou Quil. Ele estava nitidamente muito feliz e começou a lembrar da nossa última conversa na praia, onde desabafei sobre estar muito confuso com relação aos sentimentos de Nessie. Agora ele pensava que estava tudo resolvido. Todos do bando soltaram alguma reação, seja de alegria, outros de zombaria e até mesmo inveja.  Não gostei nenhum pouco de vê-los discutindo sobre minha vida amorosa animadamente, como se fosse o episódio mais esperado de uma novela, e senti que talvez isso fosse me perseguir por um bom tempo. Quase fiquei tentado a usar a voz de comando do alfa para proibirem de sequer pensar nesse assunto. "Vá em frente. É um favor que nos faz" reclamou Leah com acidez, ela certamente pensava que tínhamos assuntos mais importantes para discutir. "Calem a boca todo mundo. Quero saber o que aconteceu, pra já!" Rosnei e todos ficaram em silêncio. "Desembucha Leah". Então ela mostrou em sua mente tudo que tinha acontecido na minha ausência. A ronda tranquila de Kotah até cruzar com o cheio de sangue fresco e lobisomem. Não reconheceu de quem pertencia, mas seguiu o rastro do limite da reserva Quileute até encontrar o enorme lobo branco deitado na grama, seu corpo contorcido de forma estranha, como se tivesse sido quebrado em vários pedaços, o pêlo albino completamente manchado de sangue. Lembrei de mim mesmo no dia que tive os ossos arrebentados e pude imaginar a dor que estava sofrendo aquele lobo. Então eu sabia que aqueles tipos de ferimentos violentos só podiam ser causados por algo extraordinariamente forte: vampiro. "Certo, então enquanto o senhor alfa brincava de namoradinho com a meia vampira, eu dividi todos que estavam na ronda para me ajudar a levar o lobo e rastrear o sanguessuga fedorento, aproveitando para uivar e chamar os outros. E foi isso" terminou Leah. "Tá, e o que conseguiram descobrir?" Perguntei, alarmado com o que tinha acabado de ouvir. "Foi um vampiro que atacou" respondeu Paul. "Obrigado capitão obviedade" reclamou Seth, ansioso por mais informações. "Mas perdemos seu rastro ao norte do território dos makah, quando ele entrou na água" "Porcaria" reclamei. "Mas encontramos uma coisa" voltou a pensar Paul com imagens e de repente estávamos todos vendo suas lembranças de quando chegou ao território makah.  Palavras eram insuficientes para descrever o horror daquelas cenas. Sangue e morte por toda a aldeia. Nenhum sobrevivente. O silêncio que atingiu o bando parecia vir de dentro de um túmulo. "Precisamos saber o que aconteceu" sussurrei em pensamento por fim, ainda sem acreditar que eu ainda era um ser pensante depois de vislumbrar tudo aquilo. "Onde está o lobo?" "Comigo" pensou Embry, pela primeira vez desde que cheguei.  Ele estava junto com Kotah carregando o lobo nas costas, escoltados por Leah. Andavam tão devagar quanto uma bicicleta, como se cada movimento mais brusco pudesse quebrar outro osso. Pelo estado que se encontrava, parecia mesmo que isso podia acontecer. "Estamos quase chegando, vamos levá-lo para a casa de Sue" "Não, leve para a casa de Billy. Carlisle já deve estar nos esperando" lembrou Seth. "Certo. Seth e eu iremos para lá ajudar" voltei a falar "Os demais quero que se dividam em dois grupos, da forma que preferirem. Um grupo vai ficar em La Push para proteger a reserva, enquanto o outro volta ao território dos makah para tentar descobrir mais alguma coisa. Cuidado para não serem vistos por humanos". Depois de repassarmos os detalhes da divisão, chegamos com o lobo branco na minha casa e pude ver o carro de Carlisle estacionado ao lado. Não ouvi o coração de Renesmee dentro da casa, apenas de meu pai. Fiquei aliviado, ela ficaria tão abalada quanto eu depois com tudo aquilo. "Uivem se acontecer alguma coisa" dei a última ordem e entrei na minha garagem ainda em forma de lobo. Me transformei em humano novamente e procurei alguma roupa nos armários. Quando cruzei a porta de casa o médico já estava sobre a maca improvisada no meio da sala pequena, e para a minha surpresa não tinha mais lobo algum, mas sim um corpo humano ali. Mas minha surpresa foi ainda maior quando vislumbrei que o corpo era de uma mulher alta e curvilínea, com enormes cabelos lisos e pretos. Sua pele era tão branca quanto a lua, mas estava completamente suja de sangue em todos os cantos. Leah teve o cuidado de colocar um lençol sobre o corpo nu da mulher, mas vi que seu rosto era um espelho do choque que estava no meu. Todos fomos para um canto da sala para não atrapalhar Carlisle em seu trabalho, que durou muitas horas. Enquanto isso, contávamos a ele e a meu pai o que tinha acontecido. Várias exclamações de puro horror escapavam de seus lábios, principalmente quando lhes disse o que encontramos na aldeia dos makah.  Carlisle quis ligar para a sua família imediatamente para pedir que fossem lá, mas informei que os lobos estavam fazendo um bom serviço. Ele me garantiu que não estavam esperando visita alguma e não conhecia nenhum vampiro que teria motivos para atacar uma simples vila indígena ou qualquer outra pessoa nos arredores. - Acho que a melhor opção que temos é esperar ela acordar e nos contar o que sabe - continuou Carlisle, depois de destrincharmos todas as possibilidades que conseguíamos imaginar, sem chegar a nenhuma conclusão satisfatória. - E como está a situação dela? - falou Leah pela primeira vez desde que chegamos com a loba. Ela parecia estar mais preocupada que qualquer um de nós. Carlisle observou a moça por mais alguns instantes, enquanto recolhia suas bugigangas.  Depois de todas essas horas ouvindo seus ossos se partindo e encaixando como peças de lego, assim como os meus foram um dia, a garota inconsciente estava agora completamente limpa de sangue e coberta por ataduras, mas com isso era possível localizar as várias mordidas de vampiro em seus braços e pescoço. Ver aquilo fez meu ódio por quem quer que fosse aquele sanguessuga voltar a borbulhar na minha mente, como uma toxina. - A maior parte dos ossos do corpo estão quebrados, mas consegui colocá-los no lugar com facilidade. O problema de verdade é o veneno das mordidas. Obviamente ela não vai se transformar em vampiro e por muito pouco não morreu, mas o veneno irá incapacitar a habilidade de cura por alguns dias, talvez semanas, mas voltará aos poucos. Todos estremecemos mediante aquelas palavras. - Ela vai passar por dias muito difíceis, é bom não estar sozinha quando acordar - falou a voz grave de meu pai do outro lado do cômodo. - Sim, concordo. - E quando ela vai acordar? - perguntou Leah. - É difícil dizer, ela está em choque. A dor que sofreu foi muito grande, talvez isso a mantenha inconsciente por algum tempo. Alguns soltaram um suspiro baixo. Isso significava que ficaríamos alguns dias sem respostas. Quando terminou de guardar as coisas, Carlisle olhou para a janelinha da cozinha, para o amanhecer do dia. - Jacob - chamou ele de repente - você não tem uma viagem para fazer? Droga! Me esqueci totalmente da viagem. Qual foi o horário mesmo que Edward disse que o vôo sairia? Acho que 07h… se eu corresse como lobo dava tempo, mas o problema era que nem a mala estava pronta. Mas como eu poderia ir depois de tudo que aconteceu? Precisava ajudar a garota frágil que foi violentamente atacada e tentar entender a catástrofe que aconteceu tão próxima a nossa reserva. Eu sentia - e não pela primeira vez - como se dois cabos de aço puxasse cada um dos meus braços, me obrigando a decidir qual eu soltaria. Um cabo representava meu dever como alfa, tão poderoso devido a minha ancestralidade e doía com peso da responsabilidade e do sofrimento. O outro era brilhante e muito mais forte que o primeiro, não doía e era o que realmente eu queria escolher. Na verdade, cada célula do meu corpo lutava para não resistir a força do imprinting. - Jacob, é óbvio que você não pode ir! - disse Leah ao perceber o conflito dentro de mim. - Eu preciso da sua ajuda aqui.  Como era a segunda em comando da matilha, ela tinha autoridade de alfa na minha ausência, mas ainda sim eu sabia que não conseguiria dar conta de tudo aquilo sozinha. - Tenho que admitir que Leah tem razão, cara - disse Seth. - E a Nessie mesmo disse que você tinha que cuidar da matilha. Foram as palavras daquele garoto que fizeram eu tomar a decisão e sentir os cabos de aço me soltando.  Por causa do imprinting eu estava eternamente condicionado a fazer tudo que Renesmee me pedisse, mesmo que fosse algo muito absurdo. Claro que havia coisas que eu não conseguiria fazer, como ir embora, esquecê-la ou amar outra pessoa, isso iria contra a minha natureza, seria como dar comandos errados a um robô. Mas Seth tinha razão, quando a deixei no casamento ela me pediu que cuidasse do bando. Suas palavras exatas foram: "Está tudo bem. Fique com a sua matilha agora, eles precisam de você".  O estranho era que seu pedido foi tão específico e certeiro que mais uma vez me perguntei se ela tinha descoberto sobre o imprinting.  - Jacob? Tá dormindo, i****a? Estamos no meio de uma calamidade aqui, se não percebeu - Leah interrompeu novamente meus pensamentos. Honestamente tinha momentos que eu me perguntava onde estava com a cabeça quando a deixei ser minha beta. Ela era muito irritante. - Tudo bem - murmurei, mais para mim mesmo - vou ficar. Olhei para Carlisle quando disse aquilo, querendo de alguma forma que ele transmitisse todo o meu sofrimento e culpa a Nessie. Ele me encarou de volta sem julgamentos, não estava criticando minha decisão de dar o cano em sua neta. - Claro que você vai - reclamou Leah, e rosnei para ela para que se calasse de uma vez. - Vou precisar voltar para casa e contar o que aconteceu a minha família - voltou a falar Carlisle - também preciso trazer alguns equipamentos para cá, já que ela vai ficar inconsci… De repente a garota começou a se debater violentamente na maca, como se estivesse levando uma descarga elétrica muito forte. Seus braços e pernas estavam tão descontrolados que Leah e eu tivemos que segurá-los para que ela não fosse para o chão. - É o choque, seu corpo está convulsionando. - disse Carlisle, surpreendentemente calmo, ainda segurando a lateral da cabeça da garota. - Preciso voltar para a casa e trazer mais sedativos.  - Você não pode ir agora Dr. Cullen, e se as convulsões voltarem? - exclamou meu pai, perplexo  - Seth pode buscar o que precisar ou pedir para algum Cullen trazer - disse eu. - Tudo bem, boa ideia. Seth peça para a Alice trazer… - e começou a listar vários equipamentos, remédios e coisas de médico que eu não fazia ideia do que era. O garoto teve que sair repetindo tudo em voz alta para não esquecer. - Embry, vá com ele e nos traga notícias da matilha. Kotah, vá até minha casa e peça para minha mãe separar algumas roupas minhas - disse Leah. Depois de trinta minutos Alice voltara com tudo o que Carlisle havia pedido, Seth ao seu encalço a ajudando. A sala da minha casa agora parecia um pequeno leito hospitalar, com equipamentos médicos, sonda e a maca ocupando todo o espaço. O cômodo ficou tão minúsculo que todos nós lobos tivemos que ficar do lado de fora, pois éramos muito grandes e de vez em quando derrubávamos alguma coisa.  A garota havia convulsionado mais três vezes até aparentemente ter se acalmado. Embry voltou informando que não foi encontrado nada de novo na vila, nem cheiro de mais nenhum vampiro. Tinham enterrado todos os corpos na praia, mas não parecia que mais ninguém tinha visto o que aconteceu a não ser eles. Esfreguei as costas da mão na testa ao pensar no trabalho que teria para encobrir a morte de dezenas de pessoas.  Nós tínhamos acabado de comer o que Emily havia nos trazido e atualizado Sam das notícias, quando já estava anoitecendo e o médico e a vampira baixinha saíram de casa, acompanhados pelo meu pai logo atrás. Todos nos levantamos de imediato. - Fizemos tudo o que era possível fazer por enquanto. A garota está altamente sedada e não terá mais convulsões esta noite, o que é bom, porque os espasmos dificultam a recuperação dos ossos colados. Amanhã volto para ver se o quadro evoluiu, mas me liguem imediatamente se ela tiver febre - disse Carlisle em um tom muito profissional, se dirigindo principalmente a Billy. - Mais uma vez não temos palavras para te agradecer, Dr. Cullen - falou meu pai com uma voz muito cansada. - Billy, você não tem o que agradecer, eu me sinto pessoalmente responsável pelo que aconteceu. Foi alguém da minha espécie que causou tudo isso. Pode ficar tranquilo que nós iremos descobrir quem fez e porquê. - Carlisle, por favor diga a Renesmee o motivo de não ter ido a viagem e que sinto muito - disse, muito preocupado que ela estivesse esperando notícias minhas. Eu iria pessoalmente de não soubesse que ela já tinha partido. Deixei que esse fato não transparecesse no meu rosto. - Eu direi - garantiu ele e depois partiu. Ficamos alguns momentos sem saber o que fazer, até que eu decidi que iria ver com meus próprios olhos o que tinha acontecido com os makah. Corri de volta à floresta, deixando que a fúria que estava reprimindo até então dominasse minha mente. 
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