Pov Jacob
d***a, eu iria perder a porcaria da primeira aula de novo.
Já estava quase amanhecendo quando deixei a moto em casa, voltei para a floresta e amarrei meu short na perna.l m*l havia terminado a transformação e já conseguia ouvir as vozes da matilha na minha cabeça.
"Ei, o Jake voltou!" Reconheci a primeira, Quil, as demais ainda estavam indistintas.
“Olha só quem resolver dar o ar da graça” ouvi Leah no meio delas.
Precisei esperar alguns minutos até todos ficarem em silêncio e reconheci quem estava na forma de lobo além de Quil e Leah. Consegui distinguir as mentes de Jared, Paul, Collin, Kotah e Kyle, os dois mais novos estavam próximos de mim. Ótimo! Tínhamos sete lobos em atividade e oito para o próximo turno, nove na verdade, porque eu teria que compensar as horas ausentes.
“Você precisava desligar um pouco cara, estava terrível ficar na sua cabeça rabugenta” disse Quil.
“Sempre está” completou Paul.
“Calem a boca e me atualizem logo. Aconteceu alguma coisa?”
“Nada, como sempre” disse Leah, mas todos compartilharam comigo um resumo de suas rondas. Realmente nada de interessante.
“Está ficando muito chato isso” ouvi Kyle resmungar “eu queria que aparecesse um vampiro que pudéssemos atacar, para dar alguma emoção”.
Lógico que ele queria, Kyle tinha sido o último a se juntar a matilha. Com apenas doze anos, seu corpo novo tinha uma força feroz que ansiava por adrenalina. O ouvi lembrar-se das histórias que meu pai contou em sua primeira reunião do conselho. Ele estava atento em especial na história mais recente da tribo, que ocorreu há oito anos, quando aqueles sanguessugas italianos vieram para m***r não só os Cullen, como também toda a matilha, acreditando que Nessie era uma criança transformada em vampira. Após esse acontecimento passamos a receber diversos vampiros indesejáveis e fedorentos em nossas terras, todos com o intuito de visitar os Cullen, conhecer Nessie e saber mais sobre o poderoso clã que desafiou os Volturi. Eu odiava aquela história, na verdade odiava qualquer lembrança em que Nessie estava em situação de risco. Até hoje me pergunto o que teria acontecido se os Cullen e seus “amigos” tivessem partido para a briga, provavelmente eu e Nessie estaríamos em outro canto remoto do mundo, vivendo como eremitas e fugindo de qualquer um que tivesse restado de nossos inimigos. Teríamos deixado para trás toda a nossa família, nossa história, quem nós éramos. Viveríamos apenas um pelo outro, o que para mim seria o suficiente.
“Aght, não comece com suas fantasias de novo” reclamou Leah.
Por mais que tivéssemos nos aproximado por um tempo e agora ela fosse a segunda em comando, Leah ainda era difícil de conviver, mesmo com seu temperamento e humor melhorado consideravelmente após a saída de Sam. Ela ainda era infeliz na vida de lobo, estava de saco cheio de carregar esse fardo junto com outros caras. Se eu já não tivesse dispensado Paul e Jared da matilha, com certeza dispensaria Leah, mas ficaríamos desfalcados demais e eu precisava da minha beta.
“Nossa, fiquei até comovida” resmungou acidamente e eu a ignorei.
Então Leah começou a pensar que não era tão simples assim o que eu pensava e analisou se valia realmente a pena ser dispensada da matilha. Primeiro que o alfa tinha que concordar com a saída, caso contrário, nada feito. Mas essa era a parte fácil, a complicada era sair de fato. Nossos instintos eram muito fortes e era necessário travar uma luta interna tão violenta, que deixava qualquer lobo deprimido. Você ficava muito tempo irritado, instável e precisava resistir a todos tremores e impulsos. Além do fato que conviver com vampiros, mesmo sendo vampiros amigos, não ajudava em nada no processo. Para Paul, quem eu acreditava ser o mais difícil de conseguir por causa do seu gênio nada mansinho, era como escalar uma cachoeira usando apenas os polegares. Já Jared comparava a experiência com uma tentativa de parar um trem bala. O que os ajudava nesse aspecto era o imprinting, uma razão forte o suficiente para lutar contra seus instintos. Ninguém suportava a dor de sua companheira, que sofria a cada dia por envelhecer enquanto ficávamos congelados no tempo.
Leah não tinha essa ajuda e eu não tinha esse problema. Com Nessie sendo imortal, eu nunca precisaria passar pelo que eles estavam passando, seria lobo para sempre… alfa para sempre. Tentava não pensar muito nisso, porque era um assunto que me desagradava.
"Eu preferia ser lobo para sempre do que lutar mais um dia para não ser. Hoje quebrei a geladeira de Raquel por acidente, ela ficou furiosa" ouvi Paul aos meus pensamentos.
"A minha geladeira você quis dizer, seu imprestável" rosnei.
"Não é não, é da Raquel, ela quem consertou da última vez"
"Do mesmo jeito que vai consertar de novo, porque é minha e quem quebrou foi você"
"Ah, parem com isso moças" interrompeu Jared "Ei Jake, você vai levar a Nessie para o casamento, não vai?"
"Claro que sim" respondi, lembrando do nosso último momento juntos.
"Espera aí, quando você iria nos contar que vai para o Brasil neste domingo?" Perguntou Leah ao vasculhar minha cabeça.
"Ah, sim, eu vou, bem lembrado. Aliás, preciso que reúna toda a matilha amanhã a noite para que eu possa passar as instruções"
"Posso fazer isso por você"
"Eu sei, mas eu prefiro fazer eu mesmo. Faça como te pedi"
"Vai ficar muito tempo fora, Jake?" Perguntou Kotah.
"Apenas algumas semanas garoto, não se preocupe"
"Não estou preocupado, estou feliz. Você precisa de uma folga"
E todos concordaram de imediato. Os ignorei.
Estava quase chegando no centro de Washington e já conseguia ouvir os carros da rodovia. Antes de voltar a forma humana, parei próximo a um riacho para beber água.
"Tudo bem pessoal, quando terminar a aula eu volto. Leah, avisa para o Embry tomar cuidado na ronda ao norte de Port Angeles, vai haver montanhistas por perto. Vou precisar também que avise a meu pai que volto a noite, para ele não ficar preocupado".
"Mais alguma coisa senhor alfa?" Perguntou e a ignorei novamente.
Já podia sentir meus músculos relaxarem gradativamente e antes que eu pedisse meu corpo já estava sobre duas pernas novamente. Vesti minhas roupas e entrei na rua mais próxima, onde já conseguia distinguir os sons de civilização.
A essa altura já não me importava mais das pessoas verem um cara enorme andando descalço aos primeiros sinais do dia. Apesar do sol ainda estar nascendo, sabia que chegaria atrasado na faculdade, não podia mais permanecer na forma de lobo, o que seria muito mais rápido, e se estivesse de moto ainda estaria em Olympic.
Então enquanto cruzava as ruas pelo caminho mais curto até o complexo da universidade, me peguei pensando nos últimos momentos que passei com Nessie. Vê-la bem e tão linda melhorou consideravelmente meu dia. Quando me encontrou, seu sorriso de covinhas era tão radiante e encantador que se Edward não tivesse me avisado sobre seu estado de antemão, dificilmente eu conseguiria identificar.
Retorci o rosto, a culpa me atingindo como um soco no estômago. Ela estava infeliz por minha culpa e isso era errado de tantas formas que tive que concentrar todas as minhas forças para não explodir em lobo novamente e voltar correndo para ela. Tudo bem que Edward era exagerado, mas eu estava do seu lado nesse aspecto, não era certo essa minha ausência. Prometi a mim mesmo mais uma vez que faria de tudo para vê-la todos os dias, mas no meio do pensamento me refreei. Essa promessa teria que ser adiada, essa semana seria uma loucura para me preparar para a viagem ao Brasil, tinha que organizar todo o cronograma com a matilha, deixar alguém responsável pelo treinamento dos meninos, além da faculdade… Aghr, fiquei com dor de cabeça só de pensar.
Mas, d***a, era isso que ela me pediu não foi? Que eu cuidasse de mim mesmo. Eu vi em seus olhos naquele fatídico dia que era isso que ela queria e não tive mais argumentos. Todo o meu ser era compelido a dar aquilo que aquela garota pedisse, eu não tinha nem mais escolhas. Então quando ela me convenceu de que era isso que precisava, eu tinha que fazer.
Antes pensava que toda essa coisa de imprinting era só outra maneira de aprisionar nosso livre arbítrio, mas na verdade é algo bem mais complexo. Eu não só queria, como almejava fazer. Minhas vontades não foram tiradas de mim, pelo contrário, agora eu tinha muito mais delas, mas eram todas devidamente direcionadas a Nessie, e eu sabia que me faria genuinamente feliz fazer qualquer coisa por ela, como se isso fosse o único propósito da minha vida.
Mas eu consertaria o que tinha feito e começaria com aquela viagem, faria com que fosse a viagem mais incrível da vida dela e quando voltássemos não a deixaria um dia sequer sentindo minha falta. Ela não merecia nenhum grau de infelicidade, era boa demais, preciosa demais. O ser mais especial que já conheci, com uma alma tão pura que me fazia querer ser melhor a cada dia, só para ser digno de estar na sua presença. Eu a conhecia melhor do que a mim mesmo, sabia do quanto era bondosa e gentil, na mesma medida que era corajosa e altruísta. Claro que era bem teimosa, além de ser muito engraçada, inteligente, carinhosa e linda… bom, Nessie sempre foi mais que linda, ela era fascinante. Eu poderia passar todas as horas da eternidade a olhando sem me cansar. Seus cabelos estavam mais compridos desde a última vez que a vi, uma moldura de cachos ruivos em torno da sua pele marfim. Eu ficava hipnotizado feito um i****a todas as vezes que ela agilmente passava as mãos por eles ou prendia no alto da cabeça. Seus olhos cor de chocolate ainda tinham a mesma intensidade e inocência, e brilhavam tanto quando me viam que era de tirar o fôlego. O sorriso sempre radiante e sincero, emoldurado pelos lábios grossos e vermelhos… o que me levou a lembrar o momento que acordei naquele penhasco e seu rosto estava a centímetros do meu. Se alguém me dissesse que eu tinha acabado de morrer e estava no paraíso, teria acreditado, qualquer anjo pareceria um patinho f**o ao lado daquela divindade.
Naquele momento eu podia jurar que via em seu rosto aquele mesmo brilho da nossa tarde na praia, antes de iniciar as aulas da faculdade e eu ficar tanto tempo sem vê-la, da loucura que eu estava tão perto de cometer ao quase beijá-la. Foi necessário uma força inimaginável para desviar meus olhos do seu rosto e aumentar a distância entre nós, enquanto meu corpo lutava para trazê-la para mais perto. Eu estava certo de que naquele instante havia esse desejo nela também, e era tão forte quanto o meu. Mas e daí que ela quisesse me beijar? Não significaria nada, não explicava que ela de repente me quisesse de uma forma diferente. Eu era dela de tantas maneiras, a tanto tempo, mas não sabia se ela estava pronta para ultrapassar essa barreira, para me ver de uma forma romântica. Se ela estivesse, eu claramente estaria pronto, a esperando.
Desde a primeira vez que ela me olhou de um jeito diferente e novo, mesmo sendo por um breve instante, meu ser imediatamente reconheceu esse desejo e me vi perdido nessa nova perspectiva. Antes, quando alguém falava esse tipo de coisa para mim - pensar em Nessie de uma maneira romântica e adulta - eu repreendia no ato, como se a pessoa tivesse proferido uma praga, mas hoje era tão real dentro de mim quanto o ar que eu respirava.
Esse fato aconteceu a seis meses atrás, quando busquei Nessie na casa dos Cullen para participar de uma festa do conselho. Kyle e Andrew tinham acabado de se juntar a matilha e seria a primeira vez que ouviriam as histórias. Nessie estava se empanturrando de cachorro quente e se divertindo muito, quando eu disse alguma coisa engraçada que a fez tossir ketchup por toda a parte, inclusive no meu rosto. Ela quase caiu para trás de tanto rir, mas logo se apressou a tentar limpar minha bochecha. Como suas mãos estavam ocupadas com a comida, ela se inclinou para me dar uma lambida. Eu estava achando aquilo tudo muito engraçado, mas ela pareceu de repente se dar conta do que estava fazendo e se afastou imediatamente, com o rosto corado. Depois disso ficou quieta durante toda a festa, de vez em quando me lançando olhares pelo canto dos olhos, mas foi apenas quando meu pai contava a última história que reparei que ela me encarava há algum tempo. A encarei de volta e dessa vez ela não desviou os olhos mais. Seus cabelos estavam muito vermelhos pela luz da fogueira, seu rosto cor de rosa e seus olhos ainda mais brilhantes, parecendo uma deusa do fogo. Como um homem fraco, me vi petrificado pelo seu olhar, que se tornava mais intenso a cada segundo, como se ela fosse uma feiticeira me enfeitiçando apenas pelo poder da mente. Eu senti como se tivesse vendo-a pela primeira vez, os sentimentos que cresceram dentro de mim eram semelhantes aos que eu experimentei há oito anos atrás, quando a vi ainda bebezinha no colo da vampira loura, me olhando com olhos inteligentes. Era como se estivesse sofrendo imprinting de novo, só que desta vez acompanhado por uma onda de desejo e paixão. A gravidade me compelia a chegar mais perto, como um inseto para a luz, mas alguém jogou um copo na minha direção, tirando nós dois do transe.
Eu já estava no apartamento que dividia com um i****a da faculdade e podia sentir o cheiro de bebida alcoólica antes de passar pela porta. Pelo jeito a noite foi uma farra para ele. O lugar estava como sempre um chiqueiro. Eu não tinha tempo de limpá-lo e Calebe nem se dava ao trabalho.
- Oi cara - respondeu ele do computador, tentando finalizar algum trabalho de última hora, imaginei.
- Você não devia estar na primeira aula? - perguntei, pois era onde eu deveria estar também, mas como estava quase acabando, não me dei ao trabalho de ir para lá.
- A professora Wanner ficou doente, não teve aula hoje.
Ótimo, menos uma matéria para recuperar depois.
Fui para o banho e depois corri para chegar no campus.
As horas se arrastavam como todos os dias, uma agonia total para que as aulas terminassem mais depressa e eu finalmente estivesse sobre quatro patas de novo, correndo de volta à reserva.
Tentei de verdade prestar atenção na aula de cálculo, mas nos primeiros vinte minutos me peguei pensando em como organizaria a matilha durante minha ausência. Não podia mais contar com Jared na próxima semana por causa da lua de mel. Paul tampouco poderia fazer turnos mais longos porque estava enfrentando a novela de deixar de se transformar e eu já estava exigindo muito do seu auto controle. Como Leah seria a alfa durante minha ausência, teria que cobrir minhas rondas, e isso ela não iria gostar nem um pouco. Decidi ao final que as rondas seriam lideradas pelos lobos mais velhos, acompanhados de um ou dois mais novos. Eu teria que treiná-los ainda mais essa semana, para que estivessem prontos para percorrer grandes perímetros. A única desvantagem é que o perímetro seria reduzido consideravelmente, pois os mais jovens ainda tinham que ir à escola da reserva e suas famílias não sabiam do segredo. Por ser mais perto, Leah havia sugerido que deixasse todos os mais novos patrulhando La Push, mas o rosnado que soltei em resposta fez com que ela nunca mais sugerisse esse tipo de coisa i*****l. Ela sabia muito bem que a três anos eu não deixava nenhum lobo inexperiente patrulhar a área mais próxima da reserva, desde a morte de Brady Fuller.
As lembranças daquele verão ainda me causavam torpo. Brady, por ser o mais jovem, cuidava da reserva enquanto nós cobríamos perímetros mais longos, essa era a estratégia adotada até então pelo comando de Sam. Já havia passado dois anos desde o último sanguessuga estrangeiro que veio fazer uma visita indesejada aos Cullen, então estávamos um pouco mais relaxados nesse aspecto. Quando em uma sexta-feira a noite ouvimos o chamado de Brady de que tinha um vampiro desconhecido o perseguindo. Ficamos naturalmente assustados. Com exceção dos Cullen, nenhum frio tinha se aproximado tanto das nossas terras desde a época das histórias.
Eu estava com Nessie no chalé nesse dia, assistindo a um filme, quando Leah apareceu uivando ruidosamente na janela. Imediatamente saí da casa e explodi em um lobo, já entendo tudo antes que ela me explicasse.
"Os outros já estão quase na reserva, eu resolvi te chamar primeiro porque já era caminho" pensou ela, enquanto corríamos o mais rápido possível para La Push. Em menos de um minuto já conseguíamos ouvir a luta de Brady com o vampiro, seus ganidos de dor eram como facas no meu cérebro.
"Aguente firme rapaz" disse Embry
"Ataque pela esquerda" sugeriu Paul
"NÃO! SAIA DAÍ" berrei, usando pela primeira vez a voz do alfa, mas nem me importando, tamanho era meu desespero.
Mas Brady estava tão desorientado quanto restante de nós.
"Estamos chegando" disse Leah, a trinta metros da minha frente.
Mas quando faltava meio quilômetro para que o lobo mais próximo o alcançasse, de repente a dor de Brady silenciou, seus pensamentos desesperados cessaram. Levou meio segundo para entendermos o que tinha acontecido, e um uivo coletivo foi pronunciado por toda a matilha.
Naquela noite, eu prometi a minha matilha e a minha própria sanidade que nunca passaria por isso novamente, nunca mais silenciaria a voz de outro irmão, nunca mais consolaria uma família inventando mentiras, porque eles não sabiam o que Brady estava fazendo. Fui obrigado a inventar que tudo aquilo não passou de uma queda de penhasco m*l sucedida, para justificar todos os ossos quebrados.
Eu tinha apenas meses como alfa e já estava enfrentando resistência com o bando e questionamentos sobre minha liderança. Não precisava de nenhuma morte nas mãos para me sentir mais lixo do que já era.
Felizmente os Cullen não conheciam aquele vampiro, o que foi bom, porque assim eu não enfrentaria resistência quando começasse a minha busca por vingança. Levou três semanas, mas finalmente eu consegui localizar o vampiro que tinha tirado a vida de Brady e o estraçalhei tão ferozmente com meus dentes que pensei que iria ficar banguela, mas por fim apaguei sua existência sem esforço, tamanha era minha vontade de m***r aquele ser já morto.
Claro que precisei de mais algumas semanas para tranquilizar Renesmee, que tinha ficado tão desesperada que quase foi atrás de mim, mas Edward a impediu. Fiquei feliz, não a queria metida nessa história, se acontecesse algo com ela…