O sinal do intervalo me despertou do torpor. Ainda desorientado, peguei minhas coisas e fui diretamente para a última aula, sem parar para comer, pois precisava adiantar parte de um trabalho i****a.
Por sorte, ao final do dia, a última aula terminou trinta minutos mais cedo e pude correr de volta à reserva com dianteira.
Cheguei na vila faltando ainda uma hora para a minha ronda começar. Já tinha me atualizado de tudo que ocorrera de tarde e resolvi passar na casa de Sam para pedir que oferecesse ajuda a Leah durante os dias que eu estivesse no Brasil. Ela não iria gostar disso.
Porém quando cheguei na casa de Sam ele não estava, encontrei apenas Emily com uma barriga gigantesca passando roupinhas de bebê no fundo da sala, enquanto seu primeiro filho de três anos brincava com Claire no chão, e mais ao canto vi Quil os observando.
- Hey Jake! - disse Quil alegremente, se levantando para me receber.
- E aí pessoal - respondi, desabando no pequeno sofá marrom ao canto da sala.
O menininho de três anos, Mark, veio correndo para os meus braços, seus traços tão parecidos com Sam que sempre me assustava. Logo em seguida veio Claire, mais alta do que eu me lembrava, com seus onze anos. A abracei com delicadeza, ela era não magrinha que o menor movimento parecia que ia quebrá-la.
- Tio Jay, vem brincar com Mark também - pediu Claire - Quil disse que está cansado.
Ela fez um biquinho e mostrou a língua a Quil, que arrancou e elástico de seu cabelo com rapidez, onde os cachos castanhos caíram até os ombros. Ela gritou um "hey" e pulou para cima dele, tentando recuperar o elástico. Eles ficaram lutando por alguns minutos e Mark dando gritinhos de felicidade até Emily reclamar que eles amassaram as roupas recém passadas. Claire se desvencilhou do abraço de Quil e ele tentou prender seu cabelo novamente de uma forma patética.
A alegria daqueles dois me fez lembrar dos vários momentos em que passei com Nessie ainda criança, a provocando da mesma forma. A única diferença era que Claire era três anos mais velha que ela e tinha onze anos, enquanto Nessie já era adulta.
Isso me lembrou de um assunto recente que eu queria conversar com Quil, e até aquele momento não tinha surgido a oportunidade.
- Vamos dar uma volta cara, queria falar contigo - dei uma batidinha na sua perna e sai da pequena sala, indo direto para a pequena calçada de areia perto da praia.
- Só não me peça para fazer outro turno Jake, eu dobrei essa tarde e estou arrebentado - disse Quil ao passarmos por uma das lojinhas de suvenires fechando as portas.
Já estava anoitecendo e eu sabia que logo ele teria que levar Claire para casa, então tentei não demorar muito, mas não conseguia pensar em uma boa maneira de chegar ao assunto que eu queria.
- Esquece a matilha, não posso mais querer conversar com meu melhor amigo? - comecei na defensiva.
- Claro que pode. E aí, o que manda?
- Nada de importante. Como andam as coisas com você e Claire?
Ele me olhou por alguns segundos antes de responder, acredito que estava tentando entender o sentido daquela pergunta.
- Ah, está tudo ótimo, sabe como é. Claire está entrando numa fase mais rebelde agora, brigando o tempo todo com a mãe. Eu tento explicar como as coisas funcionam, mas ela briga comigo também - ele riu, um pouco cabisbaixo. - Ela adora me exibir para as amigas da escola, sabe? Isso é engraçado. Fica doidinha quando apareço para buscá-la. Ela também anda muito viciada em séries, perdi as vezes que o sol nasceu e ainda estávamos assistindo, ela sempre pede "só mais um episódio" com aqueles olhinhos. Sabe como é difícil dizer não a elas, não é?
- Sei muito bem - murmurei.
As coisas que ele contava eram tão simples, tão humanas. Não que eu nunca tenha tido nenhuma dessas experiências com Nessie, mas foi de forma totalmente diferente.
Nesse momento eu compreendia que Quil não seria de muita ajuda, por mais que o imprinting "precoce" fosse algo em comum somente para nós dois - todos os outros garotos tiveram imprinting com suas companheiras já adultas - ainda sim era diferente em muitos aspectos entre mim e ele. Primeiro: Nessie era metade vampira, não que isso fizesse alguma diferença para mim, mas definitivamente a tornava única em muitos aspectos. Segundo: ela tinha um intelecto muito à frente da sua idade, então nunca precisei lidar com esses comportamentos rebeldes que Quil descrevera em Claire. Terceiro: ela cresceu muito rápido, quando pisquei ela já era um adulto e começou a desenvolver sentimentos adultos. Se a meu respeito, não tinha certeza.
- Era só isso que queria perguntar, Jake? - perguntou Quil quando não comentei mais nada depois de um tempo.
- Sim, era - menti. Ele não acreditou.
- Jake, você sabe que estamos juntos nessa cara, pode me perguntar o que quiser.
Ele tinha razão, depois do meu imprinting, Quil e eu ficamos ainda mais próximos. Tínhamos que lidar com os preconceitos de pessoas ignorantes que não entendiam o que sentíamos, além do fato de Nessie e Claire brincarem juntas quando crianças e virarmos uma dupla de babás.
Por mais que compreendesse que ele não me ajudaria muito, não pude deixar de perguntar:
- Você acha que Claire já está começando a ficar apaixonada por você? - perguntei num fôlego só.
Vi seu rosto confuso se transformar em um choque de horror.
- Claro que não cara! Por Deus, ela só tem onze anos, ainda brinca de boneca - ele exclamou, claramente ofendido. Me apressei em tranquilizá-lo.
- Não, Quil, me desculpe, fui um i****a, eu sei que Claire ainda é uma criança.
Retomei nossa caminhada que tinha sido interrompida por seu susto, tentando parecer descontraído, sem sucesso. Chutei uma pedrinha na rua para me distrair, mas tudo que consegui fazer foi arremessá-la até um portão de garagem, emitindo um barulho alto de lataria.
- Então o que você quis dizer? - perguntou Quil, cauteloso. Eu percebi que ele tentava entender minha pergunta.
Pensei um pouco em como poderia reformular minha próxima fala, antes de colocar para fora:
- Você já pensou no que vai fazer quando Claire começar a te olhar de um modo diferente? - conclui que essa pergunta era boa, chegava ao ponto que eu queria. Não ousei olhar em seu rosto.
- Diferente como…?
- Ah, não seja burro, Quil. Diferente. Apaixonado. Já pensou no que vai fazer quando o relacionamento de vocês chegar nessa fase? Já contou a ela sobre o imprinting?
Não queria ser ríspido com ele, não era sua culpa que eu estivesse tão confuso, mas precisava de ajuda para encontrar a ponta do novelo embaraçado que eram meus pensamentos.
Quil pensou por um instante, seu olhar distante, observando a movimentação da praia, onde os turistas já voltavam para seus carros.
- Ainda não contei, mas você acha que eu deveria contar agora? Não sei se ela vai entender ainda.
Esse era mais um aspecto que eu e Quil tínhamos em comum. Para os outros garotos era muito mais fácil contar as suas companheiras, elas entenderiam totalmente, já para uma criança era mais complicado. E não é que nós tivéssemos a opção de não contar, era algo que não conseguíamos esconder, uma parte enorme da nossa vida e estava ficando cada vez mais dolorido não contar a Nessie.
Reparei que Quil ainda aguardava minha resposta, pacientemente.
- Não é isso, Quil, mas como você pensa que ela vai reagir quando souber?
Ele deu de ombros.
- Ah, cara, acho que normal. Pretendo contar somente quando me apaixonar e acredito que ela vai levar numa boa, afinal ela já sabe que não sou muito humano - ele soltou um risinho amargo.
- Pois é - murmurei.
Quil me olhou por alguns minutos e depois deu algumas batidas nas minhas costas.
- Mas eu entendo o que quer dizer. A Nessie é adulta e está se apaixonando por você, mas relaxa, se ela já te ama, vai adorar saber do imprinting.
- O problema é que eu não sei se ela já me ama, alguns momentos eu penso que sim, em outros não tenho certeza. E não é tão fácil quanto você pensa, eu não quero que ela sinta algum tipo de culpa ou obrigação, e ela é altruísta o suficiente para isso. Quero que ela se apaixone por mim de verdade e não por causa da porcaria de um imprinting, não porque se sente impelida a isso. Além do mais, ela sabe que já fui apaixonado por Bella, e se ela pensar que se não fosse o imprinting, eu ainda estaria nessa? Essas inseguranças me matam, Quil. Tem momentos que eu queria me declarar e acabar logo com isso, começar a pensar em nós como um casal de verdade. Em outros eu fico maluco ao pensar que, se não fosse o imprinting, será que ela se apaixonaria por outro? Eu sei que eu não, eu ainda seria louco por ela da mesma forma que sou hoje, mas e…
Não consegui continuar, meu pequeno discurso já estava ficando tão confuso quanto meus pensamentos. Por um momento me perguntei se Quil estava me acompanhando.
- Calma cara - ele por fim disse - você está pensando demais, deixa as coisas acontecerem. E além do mais, ela não pode ter imprinting por você, então os sentimentos dela serão puros, livres de qualquer influência de magia Quileute.
- Eu também pensava isso, mas me lembrei do quanto Bella tinha necessidade de me ter por perto durante a gravidez, como ela se sentia vazia na minha ausência. Então pensei, será que essa magia é forte para os dois lados?
Quil refletiu por um momento, uma expressão de bobo em seu rosto.
- Isso é interessante, nunca pensei por esse lado.
"Claro que não, lerdo do jeito que é" pensei.
- Talvez Sam possa te responder melhor que eu, ou até mesmo seu pai. Mas de uma coisa eu sei, você está sofrendo por antecipação, conte para ela primeiro e pense no que fazer depois, isso se houver algo que precise ser feito. O mais provável é que ela aceite tudo isso e ponto.
Seria muito fácil seguir seu conselho, eu m*l podia esperar para livrar minha mente dessa culpa, soltar esse nó preso na garganta e colocar tudo para fora. Minhas ilusões já pintavam imagens de Nessie aceitando todos esses anos em que escondi isso dela, já imaginava como seria nosso primeiro encontro de casal, nosso primeiro beijo…
Mas de repente me lembrei da noite passada, nós dois no alto do penhasco e ela me perguntando porque eu não tinha sofrido imprinting até hoje. Antes de minha fúria ridícula me cegar, eu podia jurar que tinha visto em seus olhos um sentimento tão profundo de tristeza, como se eu a tivesse traído. Na hora eu só pensava que Edward tinha dado com a língua nos dentes, numa tentativa de ajudar a filha, contara a ela sobre o imprinting, descumprindo a promessa que tinha me feito anos atrás. Mas agora, refletindo melhor, fiquei intrigado com o interesse de Renesmee. Por que ela me perguntou isso? Será que foi apenas curiosidade, como tinha dito, ou havia algo além de suas palavras? A tristeza dela era por minha possível solidão ou por me imaginar com outra pessoa? Ou talvez ela desconfiasse da verdade e estava testando minha reação? Achei improvável, se fosse isso Edward me contaria.
Mas outra coisa me ocorreu: Nessie sempre foi muito correta, tinha um caráter impecável e não gostava de injustiça ou deslealdade, muito menos de mentiras, por pior que fosse a verdade. Será que ela ficaria tão furiosa comigo por ter escondido esse segredo por tanto tempo que não faria diferença o grau de sentimentos que tinha desenvolvido por mim?
De repente eu sabia a resposta.
Minhas inseguranças de que ela ainda não estava pronta de nada serviriam, ela poderia estar enlouquecedoramente apaixonada por mim, no momento em que descobrisse a verdade tudo estaria arruinado, a dor da traição invadiria sua mente mais rápido do que uma bala, e isso era algo que eu não podia suportar. Quis me dar um chute por não ter contado isso quando ela ainda era criança.
Eu não precisava perguntar a Quil, Sam ou a meu pai sobre qualquer coisa. Eu já sabia a resposta. Renesmee teria que me escolher naturalmente, da forma "tradicional". E por mais que isso contrariasse todos os meus instintos, ela jamais poderia saber sobre o imprinting.