Eu não sabia onde estava, seja de maneira física ou mental, só sabia que, quando fiquei sozinha, meu cérebro voltou a trabalhar freneticamente como uma locomotiva, tentando racionalizar tudo que eu estava sentindo naquele momento.
De repente uma lembrança fantasma do passado inundou minha mente, como se tentassem me dizer "olha, estava tudo aqui, você só não percebeu".
Fui conduzida novamente a cozinha alegre da casa de Sam Uley e Emily Young, o cheiro de bolo quentinho saindo do forno estava me deixando faminta, mas eu tentava não demonstrar impaciência enquanto observava Claire pedir insistentemente para segurar no colo o bebê recém-nascido, Mark.
Na época eu tinha apenas cinco anos de idade, mas já podia me passar facilmente por uma criança de treze, devido ao meu tamanho. Também não tinha muita vontade de brincar com Claire, ela ainda não tinha superado a perda de sua amiga de torta de lama, por mais que eu ainda me esforçasse para participar das suas brincadeiras, principalmente quando Quil e Jake estavam envolvidos.
Jacob havia acabado de retornar de sua ronda. Como ainda não era alfa, já era rotina vir me buscar em casa para fazermos alguma coisa juntos, seja brincar na praia, apostar corrida na floresta, pulo de penhasco ou simplesmente ficar de bobeira.
Era uma tarde de setembro chuvosa, o frio ainda não tinha ido embora e a areia da praia ficava muito desagradável, então decidimos ficar com os outros garotos para conhecer o novo bebê do alfa. Quil se juntara a nós pouco tempo depois acompanhado de uma animada Claire.
A cozinha de Emily estava ficando pequena demais para comportar cinco garotos lobisomens enormes famintos, e quando ela depositou na mesa uma bandeja enorme de pães e ovos cozidos, foi como se tivesse jogado milho para as galinhas da fazenda, todos nós pulamos ao mesmo tempo para garantir uma parte.
- Pelo amor de Deus, quase fiquei sem braço – reclamou ela ao tentar voltar para o fogão. – Vocês parecem uns animais.
- Modos garotos, tem damas presentes – exclamou Sam, mas procurava por cima do grupo um espaço que pudesse pegar alguma coisa.
Eu era muito pequena - perto de todos aqueles braços enormes - para conseguir alcançar um mísero pãozinho, mesmo fazendo força para empurrar algum deles, então Jake conseguiu pegar seis no meio daquela bagunça e entregou metade deles para mim. Voltei para a minha cadeira enquanto observava todos os garotos se movendo em sincronia, como gêmeos, todos com músculos longos e arredondados, pele morena avermelhada, cabelos curtos e pretos. Eu era muito feliz ali junto com meus irmãos.
- Tá legal, desde quando Nessie come feito uma dama? - falou Collin do outro lado da mesa com a boca cheia. - Já viram o tamanho do prato que ela consegue limpar?
- Ei - exclamei - eu posso comer como uma dama se quisesse.
Para provocá-lo levantei os dedos mindinhos que seguravam o pão. Jake riu da minha tentativa.
- Mas você é uma Cullen, não devia ser assim - falou Rachel, irmã de Jacob.
- Isso que dá passar tempo demais com lobisomens - acrescentou Paul, passando um dos braços por sobre os ombros de Rachel. - Até a Claire está ficando selvagem.
Ele indicou com a cabeça a menininha sentada aos pés de Quil, comendo distraidamente com as pernas esticadas no chão.
- Ah, calem a boca vocês todos - reclamou Quil, ajudando Claire a manter os ovos dentro do prato.
Enquanto eu ria daquele assunto banal, Jake se inclinou até mim e limpou o canto de meus lábios sujos de comida. Dei um sorriso agradecendo.
- Você também é assim Emily? - perguntou Kotah, um garoto do meu tamanho que tinha entrado na matilha a poucos dias, ainda se adaptando aos costumes dos lobos, mas estava feliz por fazer parte de algo tão importante.
- Assim como? - perguntou Emily, distraída.
- Assim, com modos mais selvagens. Isso é coisa do imprinting?
Senti Jacob enrijecer imediatamente ao meu lado, os dentes trincando. Eu fiquei assustada com a mudança de humor e o encarei a procura de respostas, mas ele fuzilava Kotah de um jeito homicida.
- Ei Jake, o que houve? - tive que perguntar, agarrando seu braço.
Todos olharam para nós receosos, mas vi que Kotah se encolheu no banco, quase entrando debaixo da mesa.
Aos poucos Jake foi relaxando e olhou para mim, seu semblante voltando ao humor habitual conforme eu abria um sorriso tímido para o acalmar.
Eu estava prestes a perguntar novamente o que foi tudo aquilo quando Emily chegou até a mesa mais uma vez com uma travessa imensa de bolo, perfumando o ambiente.
A explosão de braços e dedos voltou e depois acabei me esquecendo do assunto, conforme a tarde discorria com meus irmãos.
Se eu tivesse insistido, perguntando a Jacob mais tarde naquele dia o que tinha significado aquele seu ataque de fúria, será que ele teria me falado, ou só contaria mais de uma de suas mentiras?
Mas eu não podia deixar de me sentir i****a e burra depois de reviver aquela lembrança. Realmente estava tudo ali, a implicação na fala de Kotah, a reação de Jake... Eu podia ter deduzido tudo sozinha, mas mais uma vez me perguntei… será que Jacob teria negado minhas deduções?
Eu me sentia completamente perdida num looping de inseguranças, duvidando que se eu tivesse falado ou agido de forma diferente o resultado seria o mesmo. Mas eu precisava colocar meus sentimentos no lugar e para isso era necessário analisar friamente os fatos, antes que meu cérebro entrasse em colapso.
Primeiro ponto: Eu era o alvo do imprinting de Jacob.
Pronto, precisava admitir isso para mim mesma.
Era um fato. Mesmo ainda considerando Mia uma mentirosa - realmente eu não acreditava na historinha que ela tentou inventar de que ela e Jacob estavam tendo um caso - sua última afirmação era verdade. Todas as provas estavam bem ali diante dos meus olhos esse tempo todo e eu nunca havia me dado conta.
Segundo ponto: Jacob deveria ter me contado.
Além de ser uma informação muito importante, não contar só tornaria as coisas piores, como era comprovado pelo meu atual estado de loucura.
Mas por que ele escondeu isso? Qual o sentido? O que ele esperava que eu fizesse?
Eu sabia o que era imprinting, convivia com pessoas nessas condições, todas eram muito felizes e realizadas, suas vidas eram entrelaçadas eternamente como almas gêmeas…
O que me levou ao terceiro ponto: vampiros são inimigos naturais dos lobisomens, isso também é um fato. Nossos instintos gritavam o tempo todo "perigo, perigo!". Afinal, o que era a transformação dos Quileutes em lobos se não uma forma de p******o geneticamente mágica contra os frios? Minha família só sobreviveu a isso porque eram muitos na época que vieram para Forks pela primeira vez. Teriam derrotado facilmente a tribo de Ephraim Black se não fosse o tratado, condição que exigia que nenhum Cullen pisasse na reserva e não mordesse um humano, em troca a tribo não revelaria o segredo e não os atacariam nos limites territoriais de Forks.
Esse tratado havia sido completamente extinto depois do meu nascimento… mais uma evidência do imprinting diante dos meus olhos que eu não enxerguei.
Respirei profundamente algumas vezes.
Não conseguia mais racionalizar nada, a dor era muito intensa. Eu precisava sentir o que precisava sentir no momento, ainda que alguns dos sentimentos fossem amargos, ainda que lutasse com a ânsia de querer ser otimista o tempo todo, era necessário lidar com toda a gama de emoções que eu tinha oprimido por todo esse tempo. Porque eu sabia que quando respeitasse cada sentimento, até os mais dolorosos, conseguiria ser feliz de novo.
Como "feliz" era algo totalmente fora da minha realidade atual, o desejo mais próximo era ser conformista, olhar para essa situação toda e dizer "Isso aí que fizeram comigo foi muito errado, mas fazer o quê, a vida é assim, às vezes magoamos as pessoas que amamos", porém eu só conseguia pensar "A vida é assim, mas não deveria ser".
Então eu procurei ser conformista de outra forma, talvez me conformar que o mundo não é justo e muitas coisas estão fora do meu controle. Eu não queria me tornar uma eterna refém das coisas que me aconteceram. Eu precisava, só não sabia como, começar a trilhar o caminho da superação, começar a ser quem sou, e não um amontoado de resquícios de traumas. Pois, uma vez que você sobrevive a uma dor dilacerante, daquelas que parecem que vão te m***r, sem que você morra de fato, começa a acreditar que nada mais pode te destruir, mas ao mesmo tempo tem certeza de que nada, nunca mais, será o mesmo.
Eu estava não imersa em meus pensamentos que não percebi quando as casas ao meu redor começaram a me parecer familiares demais. Eu já estava na estrada havia muitas horas, dirigindo a esmo sem nem ao menos prestar atenção para onde iria, com a vontade apenas de fugir para mais longe de Forks. Mas pelo visto meu cérebro pregou uma peça em mim, pois eu inconscientemente estava no último lugar onde queria estar. Ou talvez fosse exatamente onde eu deveria estar? Se para o bem ou para o m*l, eu já parava o carro no final do curto calçadão da praia, onde as lojinhas locais nem ao menos tinham sido abertas.
Olhei ao redor quando sai e não avistei ninguém por perto na praia de La Push, apenas alguns moradores caminhando pela manhã, mas sem se arriscarem a chegar até a água por conta do frio. Me sentei no último conjunto de bancos de madeira desgastados e fiquei admirando as pequenas aparições do sol alterando a cor do mar, antes de ser encoberto por uma grossa nuvem de chuva, nada muito surpreendente na terra da umidade.
Pela altura do sol naquele momento eu tentei calcular a hora, uma vez que tinha perdido totalmente a noção do tempo depois que deixei Liam em casa e fiquei dirigindo sem rumo madrugada adentro.
Eu ainda estava fascinada pelas coisas que descobri sobre Liam, não só sobre sua vida cheia de responsabilidades e um fardo que nenhum garoto de 17 anos deveria carregar, mas também com o quanto eu me senti confortável ao seu lado. Tão confortável ao ponto de relevar algumas coisas que não queria.
Até então não sabia se tinha agido por puro desespero de colocar para fora uma mísera parcela do que estava acontecendo, só sei que me fez sentir um pouco melhor, principalmente por sua reação não ser o que eu esperava. Ele não tentou me consolar com palavras de conforto, muito menos reagiu de forma avessa à temperatura anormal da minha pele.
Estar com Liam naquela tarde também me fez lembrar de coisas que eu gostava muito, mas aos poucos fui deixando esquecido, principalmente o ambiente de hospital e o meu amor pela música. Eram coisas que eu nem havia me dado conta que sentia falta. Lembrava que a última vez que havia tocado meu violino fora uma semana antes de Jacob se tornar alfa, ele havia me pedido que tocasse sua canção favorita, uma espécie de oração com canto indígena que eu mesma tinha composto.
Não, não, não! Eu não iria revisitar minhas lembranças novamente, elas abriam buracos no meu peito e causavam sensação de sufocamento que eu tentava controlar desde que descobrira tudo.
Eu não queria pensar em mais nada, silenciar minha mente... como se isso fosse possível. O mais estranho de tudo era que ao mesmo tempo em que me sentia arrasada com toda aquela situação, tinha uma voz, ou sensação, muito estranha de que eu estava agindo errado...
De repente um som de passos próximos a mim me sobressaltou, estavam pertos demais e eu estava muito distraída para não perceber ninguém chegar. Saltei imediatamente do banco, temendo quem quer que fosse a companhia. Não estava pronta ainda para lidar com aquela loba intragável... nem com Jacob. Porém ao virar encontrei apenas Emily, esposa de Sam, se aproximando e carregando um bebê adormecido nos braços.
Fui inundada por um sentimento de culpa. Eu nem ao menos me lembrava que Emily estava prestes a dar à luz, muito menos que sua menina tinha nascido.
A mulher morena linda, mas com parte do rosto terrivelmente desfigurado, escrutinou meu rosto enquanto chegava mais perto.
- Posso me sentar com você? – perguntou com simpatia.
Soltei o ar que nem sabia que estava segurando e me joguei de volta no banco, me arrastando para o lado a fim de dar espaço a ela, que se sentou e ajeitou a pequena bebê com rostinho do pai.
- Onde está Mark? – perguntei sobre seu filho, pois eu nunca tinha visto ela sem o menino por perto.
- O deixei dormindo com Sam, precisava trazer essa garotinha para tomar um pouco de sol – ela viu quando olhei para o mísero sol que estava quase desaparecido e rio baixinho. – Eu sei, mas temos que aproveitar o que temos.
A pequena bebezinha se mexeu levemente, mas não acordou.
- Ela é linda. Meus parabéns – tentei expressar um pouco de ânimo na minha voz, mas acho que não enganei ninguém com minha tentativa.
Ela olhou alguns minutos para a filha e a estendeu para mim, que institivamente a peguei aninhei em meu colo. Através do meu dom tentei transferir a bebê alguns sonhos tranquilos, aqueles que eu lembrava ter durante minha infância. Foi bom revisitá-los em minha memória, épocas mais tranquilas e confortantes.
- Sabia que toda a matilha está a sua procura? – falou Emily, ainda olhando a própria filha dormindo.
Tentei disfarçar a careta que teimava em surgir em meu rosto.
- Como que eles...? – comecei a perguntar.
- Embry te viu saindo de La Push ontem de manhã e achou que você estava com uma expressão estranha no rosto. Ele sabia que você estava procurando por Jacob e contou o que viu. Jacob abandonou tudo e mobilizou até os anciões para te procurar. Posso saber o que houve?
Ponderei por uns instantes se eu queria contar a Emily sobre ter descoberto o imprinting. Ela sempre foi como uma irmã mais velha, cuidando de mim como seus irmãos lobos. Além do mais, ela também era alvo do imprinting, talvez pudesse me compreender melhor que qualquer outra pessoa.
- Mia me contou.
Não foi preciso dizer mais nada, ela entendeu imediatamente o que quis dizer.
- Olha Nessie - começou, ajeitando a manta grossa que cobria a filha em meu colo. - O imprinting pode ser algo bem difícil no começo, mas depois que você aceita que esse sentimento existe, tudo se torna simples, a vida fica mais simples, e você se sente mais feliz e completa.
- Então quer dizer que eu preciso aceitar que Jacob é minha alma gêmea só porque o que quer que seja Quileute que exista dentro dele diz isso? Não posso ter outras opções? Outras escolhas? Qualquer outro que me ame espontaneamente?
Percebi que direcionava mais essas perguntas a mim mesmo do que a ela, e limpei furtivamente as lágrimas que insistiam em descer em meu rosto.
Ela precisou pensar alguns minutos antes de responder
- Acredito que você possa…, mas sinceramente, por que vai querer algo incompleto quando pode ter um amor tão incondicional e devoto quanto o de Jacob?
- Mas não é verdadeiro, Emily! É isso que eu não consigo aceitar.
Ela pensou por uns instantes.
- Mas como você, justamente você, que tinha toda a informação na mão, não adivinhou logo de cara o que estava acontecendo?
Bufei como uma criança malcriada. Eu não precisava de ninguém me dizendo que eu fui a burra da história, eu já tinha adivinhado isso. Porque sabia que era óbvio, depois de passar horas e horas revirando todas as memórias com Jacob, me dei conta de que todos os sinais estavam ali. Os olhares, a dedicação, o comprometimento...
Tive que me concentrar em manter a calma porque ainda segurava um bebê no colo. Por um momento pensei que Emily havia me dado Hannah de propósito, para que minhas mãos ficassem ocupadas.
- Olha, Leah e eu éramos como irmãs desde crianças…
- Eu conheço muito bem a história de vocês - a interrompi e depois mordi o lábio, não queria ter sido ríspida, principalmente com alguém tão disposto a me ajudar.
Por sorte ela não se ofendeu e continuou a falar:
- Só bastou um olhar, Nessie, um olhar - continuou e seu olhar se tornou vago e nostálgico, direcionado ao mar a nossa frente. - Sam e eu nos dávamos bem, ele gostava da minha amizade com Leah e eu aprovava seu namoro com minha prima.
- Sim, você vinha o tempo todo a La Push - estimulei, uma vez que fui percebendo que sua voz estava começando a embargar.
- Fui eu quem a consolei quando aconteceu tudo aquilo com Sam. Os desaparecimentos, os segredos, enfim… você sabe.
Assenti.
- Bom, depois dele provar na própria pele que as histórias de lobisomens que seu avô contava eram verdade, passou a acreditar no imprinting também, só não imaginava que aconteceria com ele - ela soltou uma risada amarga. - Acredita que ele ainda segurava a mão de Leah quando aconteceu? Digo, quando me viu depois de se transformar?
Neguei com a cabeça, amaldiçoado internamente a ironia do destino.
- Foi - continuou Emily. - Lembro-me como se fosse ontem a expressão dele… era indecifrável, um misto de choque e completa admiração. O mais estranho foi que fiquei com uma sensação de que ele estava prestes a me revelar algo, como um segredo.
Ela viu meu rosto confuso e soltou uma risadinha.
- Já deve ter acontecido com você, ou talvez não tenha reparado ainda, mas nós sentimos umas coisas bem estranhas com relação a eles… como se fosse um sexto sentido.
Não quis interromper o que ela dizia, mas achei muito confuso esse "sexto sentido", embora parecesse familiar.
- Bom, como você já sabe, mais tarde naquele dia ele terminou com a Leah. Ela não se conformou com nada disso e prometeu esperar por ele. Quando ela veio me contar o que havia acontecido, eu tive a mesma sensação estranha, nada disso tinha me surpreendido - ela bateu os dois dedos nas têmporas, como uma leitora de mentes charlatã e eu ri. - Quando ele me encontrou mais tarde naquele dia eu meio que já esperava… não sabia por que, mas parecia de certa forma… inevitável.
Suspirei. Aquela sensação eu conhecia bem. Lembrava de todas as vezes que eu via Jacob e o aconchego de que o mundo estava no lugar tomava conta de mim.
- Sim, é bem forte isso - admiti.
- E é mesmo. Continuando: eu fiquei horrorizada quando ele disse que havia terminado com Leah para ficar comigo. Mesmo não tendo feito nada de errado, a sensação de culpa era muito forte, Nessie, eu sentia que tinha feito algo muito errado.
- Mas você não fez - a consolei, vendo seus olhos marejarem novamente com a lembrança. - Ele não a escolheu em detrimento de Leah, foi essa magia maldita…
- Sim, hoje eu sei, mas quando cheguei em casa e liguei para Leah para contar tudo o que Sam havia me dito, fiquei me sentindo m*l também, porque tinha a impressão de que havia traído a confiança de Sam.
- Você foi muito correta, Emily.
- Eu tentei ser. Fiz de tudo para apoiar minha prima, mas no final sempre sabia que Sam retornaria.
De repente uma risada de criança irrompeu nossa conversa, estávamos tão imersas que eu nem percebi que a praia começava a atrair os turistas e os lojistas vinham chegando para abrir seus comércios.
- Desculpe - disse Emily - você aqui querendo um tempo sozinha para ajeitar as ideias e eu te enchendo com histórias do passado.
- Não, por favor, continue, não vou te interromper mais - soltei uma das mãos que segurava Hannah para tocar em seu braço.
Alguma coisa em minha expressão desesperada a fez hesitar e depois continuar.
- Ele conseguiu marcar um encontro comigo e contou toda a verdade. Absolutamente tudo. Contou que depois que me viu ficou caminhando pelo quarteirão, porque doía fisicamente ficar longe de mim. Disse que um instante olhando em meus olhos mudou mais sua vida do que qualquer outro acontecimento, mais até que a transformação em lobisomem. Bem, foi um pouco difícil acreditar nessa parte, então ele me levou até a floresta e se transformou bem na minha frente.
Ela deu uma risadinha com a lembrança, mas não consegui usufruir do seu humor.
Sam havia dito toda a verdade a Emily na primeira oportunidade que tivera, enquanto Jacob havia escondido de mim por toda a vida.
- Naquele momento tanto eu como ele tínhamos certeza de que o sentimento jamais mudaria e que a vida a partir dali seria insuportável se ficássemos separados. Eu vi em seus olhos que, embora ele ainda amasse Leah como antes, o sentimento se tornara irrelevante. Dói até hoje saber como minha prima sofre com tudo isso.
Lágrimas grossas agora escapavam de seu rosto desfigurado e eu me comovi. Em toda a minha vida acreditei que todas as mágoas do passado entre eles haviam sido superadas, principalmente quando Leah mudou para a matilha de Jacob e não era mais obrigada a compartilhar os pensamentos com o ex-namorado. Mas pelo visto ainda existia muito sofrimento a ser superado.
- Bem, eu e Sam passamos a nos encontrar com mais frequência depois de toda aquela revelação - continuou ela - mas eu tentava convencer a mim mesma que estava ali como obrigação para fazê-lo voltar para Leah, mesmo Sam insistindo em dizer que se voltasse com ela seria como viver uma mentira. Eu guardei seu segredo, lógico, sabia que era meu segredo também, mas eu ficava a cada conversa mais fascinada com a fantasia de todo aquele mundo que ele me contava… lobisomens, vampiros…
Dessa vez eu ri junto com ela, como se fossemos duas amiguinhas em um clube secreto.
Porém a expressão de Emily de repente se tornou séria e eu sabia que estava se aproximando da parte complicada da história, mais complicada que tudo aquilo.
- Foi quando minha mãe me contou dos boatos que rondavam a meu respeito e de Sam, e sabia que se Leah descobrisse ficaria muito chateada. Com o objetivo de dar um ponto final a essa história, eu fui confrontar Sam, não sabia se estava mais furiosa com o fato de não conseguir explicar meu comportamento nem para mim mesma, ou pela vergonha de saber que nós já tínhamos um local de encontro. Bem, a essa altura eu já havia admitido que gostava muito da sua companhia e conseguia reconhecer que isso não era só por causa do imprinting, era ele, o Sam, eu ficava totalmente intensa com a presença dele.
Ela me olhou sugestivamente pelo canto dos olhos, me desafiando a contradizê-la, mas eu nada disse, apenas escutava com atenção.
- Eu o chamei de mentiroso e outras coisas horríveis - seu rosto se tornou tão sombrio que por um momento pensei que o sol tinha se posto, mas ela continuou. – Mas o pior de tudo foi que eu disse a ele que estava fugindo de sua responsabilidade com Leah, assim como seu pai… Eu sabia que esse era um terreno perigoso, mas eu e minha mesquinharia sentimos satisfação por ofendê-lo… hoje reconheço que só me sentia tão furiosa comigo mesmo porque sabia que os sentimentos de Sam com relação a Leah eram muito mais leais que os meus.
Emily ficou em silêncio por vários minutos, mas eu estava muito presa naquela história, ouvindo detalhes inéditos. A estimulei que continuasse.
- Bom, você já consegue imaginar o restante. Sam se enfureceu e na tentativa de tentar me afastar de seu descontrole, acabou atingindo meu rosto - ela virou o lado direito do rosto para mim para mostrar o estrago causado, mas eu conhecia muito bem aquelas marcas. - Enfim, ele ficou tão horrorizado com o que tinha feito que levou horas para voltar a forma humana. Mas aqueles dias no hospital foram necessários para criar meu elo com a matilha e ele.
- E você o perdoou - concluí.
- Foi difícil, ele estava tão perdido que me pedia o tempo todo para que eu o mandasse se m***r, porque só assim poderia fugir da infelicidade - ela revirou os olhos, mas ainda mantinha a expressão sombria. - Não sei se você já se deu conta, mas eles estão meio que sujeitos a fazer nossas vontades, sabia?
Me assustei com aquela informação. Não havia percebido mesmo… mas parando para pensar, eu me lembrava de um momento em particular; depois do nosso primeiro beijo, quando Seth nos interrompeu para alertar sobre o que tinha acontecido na aldeia makah, e Jacob só reagiu de fato depois de eu lhe pedir.
Outro aspecto negativo do imprinting para somar a minha longa lista: a submissão aos desejos e necessidades do alvo, a ausência de livre arbítrio.
- Mas o que eu quero concluir com tudo isso, e o objetivo de ter contado toda minha história a você é: foi só quando minha teimosia quase me fez perder a vida que percebi o quanto queria ficar com Sam, ele era a única pessoa que eu queria ter ao meu lado, sem ele eu me sentia incompleta e solitária. Depois disso a vida se tornou muito mais fácil, eu me surpreendi com a felicidade ao lado dele, tudo ficou tão simples, tão alegre... Amo você e Jacob como irmãos – nesse momento ela se virou totalmente para mim e pegou uma das minhas mãos que descansava na base das costinhas de Hannah – e eu sei que foi errado o que ele fez e que você tem todo o direito de ficar chateada, mas não deixe isso estragar a relação de vocês. Acredito que eu seja a pessoa que mais te compreende, eu sei o que é duvidar de todos os seus sentimentos por eles originarem justamente do imprinting, mas isso é só um impulso do destino, as coisas reais acontecem aqui – e encostou no meu peito delicadamente.
Nesse momento Hannah despertou de seu sono e começou a resmungar baixinho. Tentei acalentá-la, mas os miados começaram a se tornar choro de verdade.
- Alguém deve estar com fome – constatei, percebendo que minha voz estava embargada por conta do choro.
- Sim, vou levá-la para casa. Sam já deve estar acordando – e a tomou de meus braços. – Mas pense bem no que eu te contei, Nessie.
- Obrigada Emily.
Fiquei mais alguns minutos admirando o mar e refletindo em tudo aquilo que eu havia ouvido. Percebi que a história de Emily e a minha eram de certa forma parecidas: ambas fomos vítimas de um imprinting que nem nós, nem nossos parceiros, queríamos.
- Posso te fazer uma pergunta antes de você ir? – disse enquanto ela acomodava a manta do bebê em volta de si.
- Claro.
- Você então acredita que o imprinting foi algo bom que aconteceu?
Ela ficou com o semblante pensativo por uns instantes.
- No final eu diria que sim – disse - mas como eu te disse, não é algo fácil de lidar, para ambas as partes.
- Hum – foi apenas o que eu fui capaz de dizer.
- Hannah nasceu há três semanas. Por que você acha que eu ainda não deixei nenhum dos garotos vê-la?
Quando terminei de processar o que ela havia dito a olhei intrigada, mas Emily apenas voltou a encarar o horizonte com o rosto impassível.
- Você não tem como saber se isso vai acontecer – respondi, na defensiva.
- Renesmee – ela voltou a me olhar e torceu os lábios - assim como tenho certeza de que meu filho Mark será lobisomem um dia, Hannah será alvo do imprinting de alguém. Ambos têm o gene muito latente.
Ao final a expressão de Emily se tornou dura, como se tentasse não pensar muito a respeito desse assunto, pois era difícil de enfrentar. Reconheci brevemente o olhar que as vezes via em minha mãe e a batalha que travava internamente contra um destino inelutável.
Desviei os olhos e encarei o rostinho de Hannah, reconhecendo imediatamente os traços quileutes ali.
- Você agiria da mesma forma que meus pais agiram? – voltei a falar depois de alguns minutos. - Se um dos garotos tivesse imprinting por ela?
- Não sei. Provavelmente sim. Destino é um assunto delicado, acredito que deve ser encarado quando realmente chegar a hora.
Não gostei daquilo, era uma grande hipocrisia. Os garotos Quileutes eram expostos as lendas da tribo desde pequenos, eles cresceram já sabendo de seu destino.
- É uma boa desculpa para esconder a verdade. É isso que vai dizer a Hannah, ou até mesmo a Claire?
Lembrei do rostinho inocente de Claire, minha antiga amiguinha de infância.
- O imprinting delas não me diz respeito Renesmee, não acho que eu tenha o direito de interferir – e então se levantou e acomodou Hannah melhor em seu colo. – Bem, eu vou indo. Obrigada pela companhia.
- Tchau – murmurei, ainda com a mente turbada.
A observei se afastar e voltar para a vila.
Na sua ausência, percebi que não queria mais ficar sozinha, precisava começar a me tornar protagonista da minha própria história, e não apenas uma espectadora, vendo tudo se desenrolar na minha frente enquanto eu ficava apenas esperando o próximo acontecimento.