Capítulo 11 - Sorrisos Quebrados

4324 Words
Pov Liam   Observar o céu sempre nos torna reflexivos, talvez seja por sua imensidão ou porque o azul limpa as teias de nossa mente, ou talvez simplesmente porque precisamos olhar para cima para avaliarmos tudo de um outro ângulo. Nuvens branquinhas passavam diante dos meus olhos em formas indistintas. Se Emma estivesse comigo provavelmente tentaria encontrar figuras de animais ou doces, mas eu só conseguia fazer um comparativo com minha atual circunstância. Momentos difíceis são como nuvens escuras de chuva, podem vir de várias formas: rápidas e de repente, que logo vão embora; lentas e pesadas, que nós conseguimos antecipar sua chegada e nos preparar; ou longas e duradouras, daquelas que parecem que nunca mais vão embora. Mas todas vão, uma hora ou outra, elas desaparecem para dar lugar ao sol, nem que seja por um curto período de tempo. Sempre passam. Tudo passa. Olhei no meu velho relógio novamente. Faltava 20 minutos para o horário de visita acabar. Uma vez que eu estivesse lá poderia ficar até quando pudesse, mas estava apenas eu, no meio da estrada deserta num ponto de ônibus de frente a um posto de gasolina caindo aos pedaços, sem perspectiva de avançar. Havia um Porche azul estacionado em frente a lojinha de conveniência do posto. Era muito parecido com o de Renesmee. Mas o que eu entendia de carros, afinal? Quase nada para falar a verdade, nunca tive muito tempo para pesquisar modelos em revistas e admirar cada novo lançamento no mercado. Eu sabia que aquele era um carro caro com certeza, e adoraria dirigi-lo, mas não me importava se nunca tivesse a oportunidade. Mais uma vez olhei para o relógio, eu estava esperando o ônibus por quase uma hora e meia. A preocupação turvava minha mente e eu já conseguia vislumbrar o rostinho e Emma se entristecendo quando percebesse que eu não a visitaria hoje. Olhei para o céu novamente, implorando por um sinal, qualquer coisa... O som de uma porta de carro se fechando me fez olhar para o outro lado da auto estrada novamente, para o Porsche reluzente ainda parado. Foi quando reconheci o brilho daqueles cabelos vermelhos de dentro do carro e suas feições delicadas. Imediatamente me levantei e atravessei a pista, dando a volta nos enormes tanques de gasolina e parando na frente da janela do motorista. Ela não me ouviu chegar, o que foi estranho, Renesmee parecia ter uma audição incrível, não era o tipo de pessoa que você consegue pegar desprevenida. Dei duas batidinhas no vidro e ela se virou, me reconheceu e sorriu. Mas quem ficou surpreso fui eu. Nos últimos anos eu vinha enfrentando monstros internos todos os dias sem ninguém saber. Às vezes era mais fácil, quando a esperança me envolvia como um cobertor. Outros eram terríveis, em que o cansaço me arrancava lágrimas. Tinha dias que era difícil sorrir, mas eu sorria, só para não dar a chance à tristeza. Só por teimosia. Mas o sorriso daquela garota tentando disfarçar o desespero de seus olhos... eu nunca tinha visto algo igual. Cada um sabe das batalhas dentro de si, mas aquilo que eu via era uma crise desesperadora acontecendo em silêncio. Parecia que o universo inteiro estava querendo sair de dentro dela, mas por alguma razão desconhecida, eu não era capaz de dizer porque não o fazia. - Está tudo bem com você? – perguntei desesperado com o que pudesse ter acontecido a ela. Renesmee pareceu se recuperar um pouco, mas seu sorriso vacilou. - Está tudo bem. O que você está fazendo aqui? – sua voz parecia normal, mas tinha alguma coisa muito errada ali. - Estou esperando um ônibus – apontei para o ponto vazio atrás de mim. – Mas está tudo bem mesmo, Ness? Você parece... Não consegui encontrar uma palavra boa o suficiente, mas não tão terrível assim para não assustá-la. Ela limpou a garganta e torceu os dedos no volante. Parecia ser loucura, mas pensei ter ouvido a estrutura de aço protestar na sua mão. - Já disse que estou bem... agora preciso ir – e levou a mão a ignição, mas a chave caiu no chão do carro. Mais um sinal de que tinha algo bem errado ali. Renesmee definitivamente não era uma pessoa desastrada, na verdade, nas vezes que eu a observava, ela parecia ser capaz de fazer coisas elaboradas com muita precisão e graciosidade. - Não adianta fingir Ness, eu sei que você não está bem, mas não precisa me contar nada, deixa eu te acompanhar para a casa pelo menos, para você não ficar sozinha. Eu já tinha me conformado em magoar Emma hoje, porque o ônibus não daria as caras de qualquer modo. - Eu estou bem sozinha Liam – respondeu secamente, colocando a chave novamente na ignição. - Não está não. - Como você pode ter tanta certeza? – disse com uma pitada de raiva. Me debrucei sobre a janela, cruzando os braços. - Olha, eu adoro beber café sozinho enquanto leio, pegar o ônibus ou até mesmo ficar em casa sozinho. São coisas que dão tempo para a gente pensar com a mente livre. Mas eu percebo que mesmo que eu goste de ficar sozinho, eu não gosto de estar sozinho, principalmente em momentos difíceis. Agora chega para lá, eu vou te levar para casa. - O quê? – perguntou incrédula, sem acreditar quando eu abri a porta. - Eu sei que esse carro é super luxuoso e tal, mas sinceramente você não parece estar em condições de dirigi-lo. Não quero ter que ir ao funeral dele... que dirá no seu. Vai... – fiz sinal com a mão para que ela se afastasse. Mesmo ainda me olhando com incredulidade, obedeceu e se arrastou até o banco do passageiro. Quando entrei no carro, me senti dentro de uma nave espacial, com mais botões ao meu redor do que ar para respirar. Ao ligar aquela máquina o motor rugiu como uma pantera. Irado! - Espera ai! – exclamou Renesmee – Não quero ir para a casa. - Quer ir aonde? – fiquei preocupado, eu não conhecia muitos lugares para onde levá-la e seria constrangedor insistir em dirigir seu carro e ainda me perder. Renesmee olhou desesperada para a rua, mordendo o lábio inferior... isso me tirou dos eixos por alguns segundos. - Para onde você estava indo? – perguntou. - Visitar minha irmã – respondi simplesmente. - Sua irmã? Não sabia que tinha uma irmã. Dei de ombros, mirando a paisagem à frente. - Me leva então – pediu com uma centelha de desespero que me fez olhar imediatamente – Se estiver tudo bem... Sorri. - Claro. Quando engatei a primeira marcha e estava prestes a sair ela segurou meu braço coberto pelo casaco, me interrompendo. - Por que você está fazendo isso? – sua voz não passava de um sussurro com desespero contido. Alarguei ainda mais o sorriso. - Somos cúmplices, se lembra? - Pensei que você não queria ser associado a meu cúmplice. - Mas agora é tarde demais. *:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:* A sensação de dirigir aquela máquina era indescritível. Eu deslizava pela pista sem qualquer dificuldade e o trajeto foi consideravelmente mais curto do que se eu tivesse pegado ônibus com meia hora de dianteira. Renesmee nada falou, ficou apenas olhando a paisagem voando pela janela, abraçando o próprio corpo. Minha vontade era estender a mão e acariciar seu rosto, como se limpasse lágrimas invisíveis, mas eu estava concentrado demais em não causar nenhum acidente de trânsito e acabar meu dia devendo um rim a família Cullen. Algo muito sério devia ter acontecido e ela não estava confortável em me contar. Meu primeiro palpite foi no garoto que Julie supunha que Ness estaria apaixonada, um tal de “J”. Eu tentava não pensar muito nisso porque sempre vinha acompanhado de um ciúmes i****a e eu já estava com problemas demais na cabeça. Claro que uma garota incrível como ela tinha alguém. Só um trouxa para não reparar em sua beleza de tirar o fôlego e na profundidade do seu olhar, na forma como seu sorriso vinha acompanhado de covinhas e como cada palavra que ela dizia parecia trazer uma aura de mistério intrigante. Se fosse esse cara o responsável por sua tristeza, ele não passava de um tremendo i****a de marca maior, por fazê-la se sentir culpada por ter amado muito, quem merecia pouco. Ao estacionar o carro em frente ao enorme hospital a olhei novamente, ela observou o ambiente e depois a mim, a confusão brilhando em seu rosto, mas nada disse, apenas pegou sua bolsa e saiu do carro. Andamos lado a lado até a recepção, demos nossos nomes faltando apenas cinco minutos para o horário de visitas acabar e pegamos o elevador vazio. O silêncio não incomodava, mas eu a observava pelo espelho e percebia estava tensa. Ela torcia as mãos nos pulsos como de costume, mas ao notar a ausência de sua inseparável pulseira indígena, cruzou as mãos nas costas rapidamente. Eu quis perguntar porque não a estava usando, mas de alguma forma sabia a resposta. - O nome dela é Emma – falei, quebrando o silêncio e a fazendo me olhar. – Minha irmã. - Eu não sabia. - Ela está internada com pneumonia há três semanas. Faz dois dias que seu quadro piorou e precisou usar cilindro de oxigênio. Ela ainda me encarava quando as portas do elevador se abriram e um corredor colorido surgiu à nossa frente, cheio de desenhos colados nas paredes. Andamos em silêncio até a última sala e dei passagem para Ness entrar no quarto. O ambiente da UTI infantil era claro e arejado, com amplas janelas com vista para o jardim. Emma ficava em um quarto comunitário, onde dividia com mais quatro crianças, que já considerava como suas amigas. Ao nos aproximarmos de seu leito ela largou o livro que estava folheando no colo e abriu um enorme sorriso para mim. Naquele instante todo o peso das minhas costas foi aliviado como uma anestesia local. - Oi pulguinha. - Liam! – exclamou ela me estendendo as mãozinhas e esbarrando nos fios do respirador. - Epa epa, cuidado ai mocinha – disse arrumando os acessos. Emma olhou de mim para a Ness e deu um sorriso mais charmoso que uma garotinha de cinco anos conseguia produzir. - Emma, essa é minha amiga Ness, ela veio te ver hoje. Renesmee me olhou com um misto de insegurança e choque, mas se aproximou de Emma e se curvou para ficarem na mesma altura. - Oi, lindinha. Como você está? - Você é namorada do Liam? – perguntou Emma sem olhar diretamente nos olhos de Nessie devido a proximidade, ainda com dificuldades de formar frases sem colocar a língua para fora. Ness deu uma risada gostosa e percebi que parte da tristeza de seu olhar havia desaparecido. - Ela é só minha amiga, pulguinha – respondi. Emma voltou a olhar seu livro. - Ah bom, porque a namorada do Liam é a Julia – disse ela indiferente. Renesmee segurou a risada ao ver que um médico se aproximava. Reconheci a barriga saliente e o bigode branco do Dr. Garred imediatamente e fui até ele, deixando as duas conversando. - Oi Sr. Liam, achei que não o veria hoje – disse o médico consultando sua prancheta. - Cheguei um pouco atrasado, mas consegui vir. Como foram os exames, Dr.? Olhei ansioso por sobre o ombro para ter certeza de que ninguém me ouvia, mas pela expressão séria de Ness eu tinha minhas dúvidas. - Boa notícias. Os antibióticos estão fazendo efeito e a pequena Emma tem melhorado gradativamente. Se continuar assim amanhã mesmo poderá ficar sem o respirador, mas ainda terá que ficar mais alguns dias em observação. Suspirei aliviado, mais um peso saindo das costas. - Graças a Deus – exclamei. - Quero tirar logo o respirador dela para que não corra riscos de contrair alguma bactéria. Crianças com Síndrome de Down tem muita fragilidade no sistema imunológico e é comum ficar doente, especialmente por doenças respiratórias. - Eu sei bem disso – suspirei, lembrando de quantas vezes corri com Emma para o hospital ao menor sinal de gripe ou resfriado. - Mas se anime rapaz, as vacinas dela estão em dia e não teve nenhum sinal de febre essa semana. Logo, logo poderão voltar para a casa. E saiu para atender a próxima criança. Voltei animado para junto de Emma e Ness, feliz que o dia estivesse ficando cada vez melhor. - ...mas a moça de branco não quis me ajudar – ouvi Emma resmungar enquanto entregava uma escova de cabelo a Nessie. - Deixa eu te contar um segredo: minha tia sempre diz que se você escovar os cabelos muitas e muitas vezes, não precisa mais prender eles por estarem feios – disse Ness enquanto passava a escova pelos cachos loiros de minha irmã. - É verdade? - Juro para você. Ela faz isso todos os dias e é a mulher mais bonita que eu conheço. Parece uma Barbie. - Eu quero ficar bonita igual a Barbie. Não, igual você! – exclamou Emma dando tapinhas na cama. - Você é quem manda. Fiquei ali admirando as duas enquanto descansava na pequena poltrona ao lado do leito de Emma, sentindo meus músculos relaxando finalmente. Renesmee não tinha dificuldades em manter um diálogo animado com a menininha, pareciam até duas irmãs. Eu devia estar com uma cara de bobo no rosto, mas era difícil não ficar nesse estado quando tinha por companhia alguém tão bonita, e não me refiro apenas do lado de fora. Tudo acentuava ainda mais sua beleza. Uma conversa agradável, a calma que pousava ao meu lado que me fazia perder a noção do tempo, até seu perfume único era difícil de sair da minha cabeça. E as atitudes? Essas faziam eu querer abraçá-la e não soltar mais. Mesmo desejando que nosso relacionamento avançasse mais do que uma sincera amizade, eu me sentia incrível por tê-la na minha vida. Lembrava da primeira vez que a vi, entrando na aula de literatura inglesa em seu primeiro dia de aula. Eu era como qualquer outro rapaz naquele dia, totalmente vidrado por sua beleza única e seu andar hipnotizador. Eu a observei durante toda aquela aula, nem sequer havia prestado atenção na matéria. Ela não parecia concentrada também, pois seus olhos vagavam sempre, totalmente pensativa. Quando estava em silêncio esse era seu constante estado de espírito: imersa em pensamentos. Mas isso não a fazia ser uma pessoa distraída, muito pelo contrário, estava sempre pronta para responder alguma pergunta ou ingressar em qualquer tipo de conversa com muito empenho. Então me orgulhava intimamente por ter agido diferente dos outros garotos do colégio. Havia reunido coragem suficiente para falar com ela, arrumando a desculpa perfeita quando o professor passou a lista de leitura da próxima aula e ver que ela não havia anotado. Se ela precisasse de ajuda eu prontamente me ofereceria, mas se conhecesse dos livros eu também dominava aquele assunto, de qualquer forma eu estava disposto a ter algum diálogo decente. Tremia no meu âmago que ela me rejeitasse logo de primeira, - provavelmente esse medo era o que estava fazendo todos os garotos ficarem acuados – mas eu nunca me perdoaria se não tentasse, e tinha que aproveitar enquanto estava com coragem. Mas todos esses meus receios ruíram de qualquer forma, porque Ness se mostrou uma pessoa muito legal e simpática.  Depois daquele dia nossa amizade se estreitou consideravelmente, então nada mais justo eu mostrar a ela o outro lado da minha vida, o lado que eu escondia: hospital, doenças e correria. Talvez isso a fizesse sentir confortável para me contar seus segredos também. - Você toca? – a voz de Ness me tirou de meus pensamentos ao apontar a cabeça para mim, mas ao prestar atenção reparei melhor que ela indicava o velho violão de papai ao meu lado. - Não, o Liam toca – respondeu Emma. - Na verdade eu só arranho e bem m*l – confessei. – Emma gosta muito de música. - Eu também amo música – disse Ness abraçando a garotinha por trás. - Você sabe tocar? – perguntei. Ela deu de ombros. Peguei o instrumento e me levantei para entregar a ela. - Não, está doido? Isso aqui é um hospital – sussurrou, exacerbada - Um hospital, não um velório – imitei sua reação - Vamos, as crianças adoram – insisti estendendo o violão a ela, mas Ness não o pegou. - Toca, toca! – exclamou Emma, virando-se na cama e batendo palmas. Ness suspirou e pegou da minha mão. - Tudo bem. O que vocês querem ouvir? – perguntou se sentando na beira do leito e posicionando o violão. - Emma é fã de Beatles – disse ao abraçar minha irmã, tomando cuidado para não esbarrar em nenhum fio. - Hum... tão nova e com tanto bom gosto – elogiou Ness e Emma lhe deu um sorriso banguela. Começou a dedilhar os dedos delicadamente nas cordas, fazendo os acordes perfeitos que eu tinha tanta dificuldade em sincronizar. Não me surpreendi por ela não precisar de cifra ou letra, tudo que fazia era com perfeição. Então fechou os olhos e começou a cantar “Here comes the sun” na voz mais linda que eu já tinha ouvido. Tive que me lembrar de não deixar o queixo cair, tamanho era seu talento. Aos poucos outras pessoas foram se aproximando para ver mais de perto, crianças, pais e até alguns enfermeiros. Quando terminou a canção fez um floreado elaborado e engatou na próxima música, sempre com os olhos fechados. Foi assim com cinco canções, até nosso cantinho estar totalmente lotado de espectadores silenciosos. Enquanto abraçava Emma que se balançava fora do ritmo da música e admirava Renesmee, eu só conseguia pensar numa coisa: O que um pobre garoto que perdeu o pai, cuida de uma mãe instável e da irmã doente como eu podia fazer de frente a tanta perfeição? Se sentir um miserável. *:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:*:* -Acho que causei muito alvoroço hoje. Talvez até seja impedida de voltar ao hospital - comentou Ness ao sairmos do elevador. -Você está brincando? Eles podem até te contratar depois disso tudo. Não viu como aquelas crianças ficaram felizes? Estávamos agora cruzando o grande estacionamento à procura do seu carro, deixando uma Emma adormecida e contente em seu leito. Já se aproximava a hora do crepúsculo e eu tinha que correr para casa para não me atrasar no trabalho. -Sua irmã é um amor - comentou ela. -Sim, a pestinha é maravilhosa mesmo… você tem irmãos? -Não, mas cresci com os garotos da reserva, então é como se tivesse vários. Como ela havia me respondido tão facilmente minha pergunta íntima, não achei por m*l fazer mais algumas. -Os Cullen adotaram você? -Sim. -Posso perguntar o que aconteceu com seus pais? - Hum... acidente de carro. - Sinto muito. Renesmee apenas assentiu com a cabeça, não estava mais confortável com aquele assunto. Ao entrarmos no carro ela deu partida em silêncio e saímos do estacionamento. Permiti minha mente vagar de volta para aquela tarde.  Os olhinhos de Emma brilhavam como duas estrelas enquanto Ness tocava e parecia que elas tinham se tornado amiguinhas em pouco tempo. Meu pai sempre dizia que a alegria era melhor que qualquer remédio... -Liam, eu gostaria de agradecer - disse Ness, quebrando o silêncio e me tirando de meus devaneios. -Pelo quê? -Por ter me deixado ir com você, por ter mostrado essa parte da sua vida, por melhorar um dia que eu já considerava acabado… enfim, por tudo. Eu não queria ficar sozinha. Acredito que a essa altura você tenha alguma ideia do que aconteceu comigo, mas eu queria explicar… -Não precisa, se não quiser… -Mas eu quero - ela respirou fundo - Em resumo, acabei descobrindo essa manhã que mentiram pra mim a vida toda, todos que eu um dia confiei. Eu imaginava que uma determinada pessoa nutria sentimentos profundos e espontâneos a meu respeito… mas estava sendo enganada e todos sabiam. Eu não sei como lidar com isso. Tentei manter uma expressão tranquila ao ouvir aquilo tudo. Como devia estar sendo h******l para ela. -Não me sinto digna do amor mais - continuou ela - estava tudo tão maravilhoso e agora… eu só quero sumir, como se fosse uma forma de não pensar em nada disso, pelo menos eu não teria que me explicar para ninguém. – Assenti enquanto a olhava se concentrar na estrada a frente. – Não suporto mentiras, me r***o ao meio sempre quando preciso mentir em alguma circunstância. Eu prefiro sempre a verdade, por maior que seja a decepção que ela provoque… e ele foi a mentira que eu mais acreditei. Sua voz agora não passava de um lamento embargado, ao se esforçar para refrear o choro. Tentei imaginar o sofrimento que ela estava passando, mas nunca tinha visto tanta dor em seus olhos como eu havia visto naquele dia, mas ainda sim ela conseguiu alegrar um quarto de UTI cheia de crianças correndo risco de vida.  Lembrei quantas vezes eu via pessoas azedar por bobagens, como se tudo que houvesse de bom em alguém pudesse ser sugado por causa de um momento r**m. Em minha própria casa eu enfrentava um processo semelhante. Isso não passava de uma forma de auto defesa, querer manter o restante do mundo afastado através da hostilidade ou do entorpecimento para não sofrer outro abalo. Eu não concordava com isso, para mim era covardia se esconder de sentir, pois não era só se privar de decepções, mas abrir mão da felicidade genuína. Nada disso eu via em Ness, mesmo afogada em escuridão ela era luz. -Bom - falei depois de algum tempo, uma vez que ela se acalmara - se você foi brutalmente quebrado por alguém e ainda tem a coragem de ser gentil com os outros, então é merecedora de algumas coisinhas, eu acho. Ela riu baixinho, mas ainda continuava triste. -Não consigo aceitar essa situação. -Se você precisa aceitar algo que não quer, então não é amor de verdade. -Você por acaso segue tudo o que diz, Liam? Parece que engoliu um livro de auto ajuda. Agora um sorriso teimoso se curvava em seus lábios, já eu sorria abertamente com o clima mais leve. Depois de alguns minutos ouvi seu suspiro pesado. -Eu posso me manter firme, mas não sou de ferro, sabe? - disse ela, cansada - As coisas às vezes parecem que vão me derrubar. Posso ser forte, mas também sou humana - admitiu, encarando as próprias mãos. E ela nunca me pareceu tão humana quanto estava sendo agora. Tomei sua mão repousada no câmbio e a beijei delicadamente, querendo demonstrar todo o meu apoio, como um verdadeiro amigo faria. Se ela estava decepcionada com tantas pessoas, comigo não seria assim. A temperatura da sua pele era quente como uma brasa, e essa quentura pareceu percorrer todo o meu corpo quando toquei meus lábios no dorso de sua mão. Ela ficou surpresa com meu gesto e recolheu o braço rapidamente, colocando sobre o volante e voltando a atenção para a estrada, o queixo trincado. Ao chegarmos na rua de minha casa, Renesmee parou o carro bem em frente ao pequeno sobrado que eu dividia com minha mãe e minha irmã e eu olhei o relógio do painel. - Infelizmente não posso me demorar, trabalho meio período como segurança do supermercado – o único e mísero mercadinho que existia naquele fim de mundo. Ela me encarou. - Nossa Liam, você diz que é meu cúmplice, mas o que mais da sua vida eu não sei? - Seu tom era de brincadeira, mas eu percebi a curiosidade reluzindo em suas palavras. Sorri - Por algum motivo eu me faço a mesma pergunta. Você parece esconder mais do que aparenta. - Touché. Essa parecia ser a nossa relação, um fingindo que sabe dos segredos do outro. Mas para falar a verdade isso não fazia tanta diferença, não eram os segredos que nos aproximavam e sim a honestidade. - Liam? - uma voz chamou do lado de fora do carro, olhei e vi Julie se aproximando - Renesmee? - Oi Julie! - cumprimentou Ness enquanto abaixava o vidro. - O que você está fazendo aqui? - perguntou a menina baixinha, seu tom aparentava um pouco de hostilidade. Ela e eu trocamos olhares rapidamente antes de responder. - Ness me encontrou e me deu uma carona. Julie assentiu devagar, ainda nos encarando com desconfiança. - Está certo - disse. - Sua mãe acabou de almoçar Liam, comeu tudo dessa vez. Acabei de buscar os pratos na sua casa. - Obrigada Ju, você é um anjo. Renesmee me encarava confusa enquanto Julie acenava e voltava para a sua casa, que ficava a poucos metros da minha. Eu retirei o cinto e peguei minha mochila no chão. - Você tem que ir mesmo? - perguntou Ness e eu a olhei, vendo um lampejo do desespero de mais cedo refletir em seus olhos. Meu coração se apertou dentro do peito. Eu não queria que aquele dia acabasse, não queria que ela fosse embora. - Sim… mas você pode ir amanhã visitar Emma comigo de novo. - Posso mesmo? - perguntou surpresa e mais animada. - Claro. Preciso de aulas de uma professora se quiser aprender a tocar o violão da minha irmã. Sua expressão se tornou um pouco emocionada de repente e ela pareceu hesitar por alguns instantes antes de se inclinar sobre mim e me envolver em um abraço. Fiquei paralisado de surpresa, levemente entorpecido pelo perfume de seus cabelos em meu rosto e na quentura de lareira que era seu corpo. Não tive tempo de abraçá-la de volta antes dela se afastar, um pouco constrangida pelo seu ato repentino. Ainda com o cérebro na consistência de uma gelatina, me despedi desajeitadamente e sai do carro, concentrando em meus próprios pés até a porta de casa e sentindo seu olhar penetrante atrás de mim. 
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