Desde que assumiu a responsabilidade pela menina da boate, Júlio a visitava todos os dias. Foi em uma dessas visitas que soube que a cirurgia correu muito bem, mas como o corpo da garota estava muito fragilizado, provavelmente decorrente de tempos de privação, o médico achou melhor mantê-la no soro, até que o corpo apresentasse sinais de melhoras.
Era final de tarde, quando Júlio recebeu a ligação do hospital. Imediatamente Júlio e John ficaram preocupados, eles haviam passado no hospital no período da manhã e não havia nenhum sinal de que a garota acordaria. Ao chegarem no quarto, ambos se assustaram ao com a cena que viram. A garota se debatia, ela gritava:
_ Não vou voltar para aquele lugar, por favor, não me deixem voltar. Eu prefiro morrer. (Ela estava nervosa pelos últimos acontecimentos e a insegurança em não saber o seu futuro, a estava assustando ainda mais. Aproveitaria que estava em um hospital, para poder pedir socorro).
Os irmãos já haviam contado que a garota foi encontrada machucada na saída de uma boate, mas esconderam que não haviam chamado a polícia, e para não haver nenhum problema, tranquilizaram os médicos pedindo para que ela não fosse sedada. Ela precisava entender que não retornaria ao bordel.
_ Calma menina, me chamo Júlio e esse é o meu irmão John, estamos acompanhando a sua evolução para te levar para casa. Se você se acalmar e nos contar quem é , como parou naquele lugar e de onde veio, vamos poder levá-la de volta a sua casa. O que acha?
Os gritos pararam, mas ela ainda estava muito nervosa a ponto de não conseguir acalmar a respiração. Foi então que John falou:
_ A sua cirurgia foi muito complicada, ficamos aqui acompanhando e preocupados com você, mas para não prejudicar a cirurgia e os pontos, deixa que primeiro contaremos a você como chegou neste hospital, e assim saberá quem somos.
Júlio entendeu o que John fazia, e juntos contaram que para tirá-la daquele lugar, o amigo deles a comprou, e que ela não havia sido escolhida à toa, mas sim porque ela aparentava ser a mais nova do local, além da semelhança por uma conhecida de todos eles, chamada Mia.
Aos poucos o desespero foi acalmando, e após muitos minutos de silêncio ela teve forças e coragem para falar, só então os irmãos entenderam a sua triste história:
_ Me chamo Amanda Cortêz, venho de uma cidade pobre do interior, mas agora o meu tio deve estar rico. Ela abaixou a cabeça e começou a chorar.
Os irmãos sem perceber se aproximaram ao mesmo tempo, e juntos acariciaram os cabelos de Amanda.
_ Minha mãe morreu quando eu tinha oito anos, e meu pai resolveu não se casar com mais ninguém, ele a amava muito, assim ele cuidou de mim ... ele foi o melhor pai que alguém poderia ter, na verdade um cuidava do outro, até que ele teve um infarto e morreu. Meu tio foi morar comigo com a desculpa de eu ser menor de idade, ele me fez trabalhar para sustenta-lo, usou todo o dinheiro que meu pai levou anos para guardar, mas há alguns dias, quando completei dezoito anos, homens entraram na minha casa e me levaram de lá. Eu vi meu tio recebendo dinheiro, e dando os meus documentos aos homens, ele me vendeu .... ele me vendeu, depois o homem com a cicatriz me comprou, ele vai fazer m*l a mim?
_ Luke foi o homem que te comprou, mas apenas para tirá-la daquele lugar, e para que você não tenha relação nenhuma com ele, resolvemos a questão financeira, pode ficar tranquila. Queremos te ajudar e saber se depois que estiver liberada do hospital, se aceitaria morar conosco? Julio perguntou com carinho.
Amanda ainda estava muito fragilizada por tudo o que havia passado, ela rapidamente pensou em várias maneiras de não estar com esses dois homens, mas o seu maior medo seria retornar ao local do leilão. E sabia que para a sua cidade não poderia retornar, afinal, se o tio soubesse dela, poderia tentar fazer negócio novamente.
_ Eu agradeço que gastaram dinheiro por mim, também devem estar pagando o hospital, é justo que eu vá limpar e cozinhar até que eu pague a minha dívida.
Ela não sabia, mas o hospital estava por conta de outro amigo chamado Gabriel, e que também a ajudou a sair da boate, inclusive foi graças a ele que Júlio pode conhecer a garota. Por isso ele disse:
_ Não vamos cobrar nada, acabamos de saber que você não tem para onde ir e é natural que a convidemos para ficar conosco, mas saiba que você é livre, e não deve nunca se preocupar em pagar nada. Agora se acalma e descanse, pois vamos conversar com o médico.
Após vinte e quatro horas, se Amanda não tivesse nenhum desconforto, e desde que seguindo as orientações médicas, ela seria liberada e seguiria para a casa dos irmãos.