O quarto de Nicole estava em silêncio.
Um silêncio pesado demais.
Ela permanecia sentada na beira da cama, as mãos entrelaçadas sobre o colo, o olhar fixo em um ponto invisível à frente.
Não chorava.
Não se movia.
Não respirava direito.
A imagem dele ainda queimava em sua mente.
Os olhos escuros.
A voz fria.
A certeza brutal.
“Você será minha.”
A porta se abriu devagar.
Anya entrou em silêncio, fechando-a com cuidado atrás de si.
Sentou-se ao lado da filha e a puxou para os braços.
Só então Nicole desmoronou.
O choro veio como uma tempestade represada.
Convulsivo.
Doloroso.
Desesperado.
— Mãe… eu tô com tanto medo…
Anya a apertou com força.
— Eu sei, meu amor… eu sei…
E naquele abraço, Nicole percebeu algo terrível:
Ela estava se despedindo.
Mesmo ainda estando ali.
---
Nos dias seguintes, Nicole passou a caminhar pela propriedade como quem percorre um museu da própria vida.
Cada canto carregava lembranças.
O jardim onde aprendera a andar de bicicleta.
A confeitaria da mãe, onde queimara os primeiros bolos.
A biblioteca onde passava tardes inteiras lendo.
O lago congelado onde patinava com os irmãos.
Ela tocava tudo.
Como se precisasse memorizar cada textura.
Cada cheiro.
Cada detalhe.
---
Alexander e Alexei fingiam normalidade.
Mas ela via.
Via nos silêncios prolongados.
Nos olhares que demoravam demais.
Numa noite, Nicole entrou no quarto deles.
Sentou-se entre as duas camas.
— Quando eu for… vocês precisam cuidar da mamãe.
Os dois se entreolharam.
— Você vai voltar — disse Alexei, firme.
Nicole sorriu fraco.
— Prometam.
Alexander engoliu em seco.
— Prometemos.
Ela os abraçou com força.
Gravou aquele momento na alma.
---
Na confeitaria, Anya ensinava como se quisesse transferir toda sua essência.
— Se a massa rachar, não se desespere — dizia. — Basta um pouco mais de paciência.
Nicole anotava tudo.
Cada receita.
Cada observação.
Cada truque.
— Assim você sempre vai ter um pedaço de casa — dizia Anya, tentando sorrir.
Mas seus olhos estavam sempre marejados.
---
Com Polina, os dias eram agridoce.
Riam.
Saíam.
Conversavam.
Mas o relógio invisível sempre pulsava entre elas.
Até que, numa tarde gelada, sentadas num café quase vazio, Polina segurou sua mão.
— Ele te assustou.
Nicole assentiu.
— Eu nunca senti tanto medo na vida.
— Promete que vai sobreviver?
Nicole respirou fundo.
— Eu prometo tentar.
Elas se abraçaram em silêncio.
---
O pai tornara-se mais presente do que nunca.
Jantava com ela.
Assistia filmes.
Conversava.
Tentava arrancar sorrisos.
Mas o peso em seus ombros era visível.
Certa noite, sentado ao lado dela na sacada, Konstantin falou:
— Se houver qualquer brecha… eu vou te trazer de volta.
Nicole apoiou a cabeça em seu ombro.
— Eu sei, papai.
Mas ambos sabiam.
Não havia brechas.
---
Com o passar dos dias, Nicole começou a mudar.
O riso fácil tornou-se raro.
O olhar ficou mais atento.
Mais cauteloso.
Dormia pouco.
Sonhava com olhos negros observando-a da escuridão.
E, aos poucos, aprendeu a esconder o medo atrás de sorrisos suaves.
Como se quisesse proteger quem amava da própria dor.
---
Em Moscou, Mas Distante
Yusuke observava tudo de longe.
Relatórios diários.
Fotos.
Vídeos.
Informações detalhadas.
Ele via Nicole rir.
Chorar.
Caminhar.
Ler.
Cozinhar.
Viver.
— Ela está se despedindo — comentou Ren.
— Sim — respondeu Yusuke.
E, pela primeira vez, algo estranho apertou em seu peito.
Não era culpa.
Nem arrependimento.
Era algo novo.
Desconfortável.
Incompreensível.
Ele ignorou.
Porque o Akuma não sente.
Ele toma.
---
A neve caía lentamente naquela manhã.
O céu estava cinza.
Pesado.
Como se Moscou soubesse que estava prestes a perder sua princesa.
Nicole acordou antes do amanhecer.
Não havia dormido.
Vestiu-se em silêncio: um vestido claro, simples, um casaco bege, botas delicadas. Os cabelos loiros caíam soltos pelas costas.
Observou o quarto pela última vez.
Cada detalhe.
Cada objeto.
Cada memória.
Passou os dedos pela penteadeira.
Pelos livros.
Pela janela.
Inspirou fundo.
E saiu.
---
A família inteira aguardava na sala.
Anya foi a primeira a se aproximar.
As duas se abraçaram forte.
Longo.
Doloroso.
— Leve meu amor com você — sussurrou Anya. — Onde você estiver, ele vai te encontrar.
Nicole chorava silenciosamente.
— Eu vou sentir seu cheiro… todos os dias.
Anya apertou ainda mais.
— Você é mais forte do que imagina.
Nicole não respondeu.
Não acreditava nisso.
---
Alexander e Alexei a abraçaram ao mesmo tempo.
— Volta pra casa — pediu Alexei, com a voz embargada.
— A gente vai ficar forte — disse Alexander. — Pra te buscar.
Nicole sorriu entre lágrimas.
— Eu acredito em vocês.
---
O abraço com Polina foi desesperado.
— Não deixe ele apagar quem você é — sussurrou a amiga.
Nicole fechou os olhos.
— Se eu esquecer… me lembre.
---
Por último, o pai.
Ele não a abraçou de imediato.
Apenas a observou.
Como se quisesse gravar cada traço.
Então a puxou para seus braços.
Forte.
Protetor.
— Você é minha vida — murmurou. — E eu vou te arrancar daquele inferno se ele ousar tocar na sua alma.
Nicole chorava contra seu peito.
— Eu te amo, papai.
— Mais do que qualquer império.
Ele beijou sua testa.
E a soltou.
Porque se não soltasse, mataria alguém.
---
No aeroporto privado, o jato n***o aguardava.
Yusuke estava ao lado da escada de embarque.
Imóvel.
Frio.
Imponente.
Ren poucos passos atrás.
Quando Nicole desceu do carro, sentiu o peso da presença dele antes mesmo de vê-lo.
Seu corpo inteiro estremeceu.
Yusuke a observou aproximar-se.
Tão frágil.
Tão humana.
Tão deslocada naquele mundo de monstros.
Konstantin caminhou até ele.
Pararam frente a frente.
O ar ficou pesado.
— Se ela sofrer — disse Konstantin, com voz baixa e carregada de ódio — eu não vou destruir só você.
Yusuke não piscou.
— Não me ameace, Volkov.
— Eu prometo.
Por um instante, o mundo pareceu suspenso.
Então Yusuke inclinou levemente a cabeça.
— Cumpra sua palavra. Eu cumprirei a minha.
Konstantin se voltou para a filha.
— Lembre-se: você é uma Volkov.
Nicole assentiu.
Com os olhos cheios de lágrimas.
E então…
Virou-se.
Caminhou até Yusuke.
Cada passo era uma ruptura.
Quando passou por ele, sentiu a mão forte segurar seu pulso.
— Não olhe para trás — ordenou, em tom baixo.
Ela obedeceu.
Porque naquele instante entendeu:
Seu passado havia acabado.
---
O Voo para o Japão
O interior do jato era luxuoso.
Frio.
Silencioso.
Nicole sentou-se perto da janela.
Apertava os dedos no colo.
Yusuke sentou-se à frente.
Não falou nada.
Não olhou.
O silêncio era torturante.
Quando o avião decolou, Nicole sentiu o estômago revirar.
Observou Moscou sumir sob as nuvens.
Seu mundo desaparecendo.
As lágrimas caíram em silêncio.
Yusuke percebeu.
Não comentou.
Apenas fechou os olhos.
Porque, de alguma forma que não compreendia…
Aquele choro silencioso ecoava dentro dele.
---
No Meio da Noite
Nicole acordou assustada com a turbulência.
Respiração curta.
Mãos trêmulas.
Sem perceber, levantou-se e caminhou até a pequena área comum.
Yusuke estava ali, imóvel, observando a escuridão do céu.
Ela congelou.
— Volte para o seu lugar — ordenou, sem olhar.
Nicole hesitou.
— Eu… não consigo dormir.
Silêncio.
Yusuke virou lentamente o rosto.
Os olhos negros encontraram os dela.
— Acostume-se — disse friamente. — Seu mundo colorido acabou.
Ela engoliu em seco.
— O seu mundo escuro começa agora.
E naquele instante, Nicole compreendeu:
O inferno não estava esperando no Japão.
Ele estava sentado diante dela.