Capítulo 10 - Sob as Regras

1353 Words
O avião pousou suavemente em solo japonês. Era madrugada. O céu ainda escuro contrastava com as luzes impecáveis da pista privada. Nicole observava pela janela, o coração acelerado. Tudo era diferente. O ar. O silêncio. A sensação de estar a um oceano inteiro de distância de tudo que amava. Quando as portas se abriram, o frio tocou sua pele. Yusuke levantou-se primeiro. — Venha. A única palavra. Nicole obedeceu. --- A comitiva seguiu em carros de luxo por estradas silenciosas, cercadas por montanhas e vegetação densa. Nicole permanecia calada, olhando pela janela. As luzes da cidade foram ficando para trás. Até que só restaram árvores. Silêncio. Escuridão. E, então… A mansão surgiu. Não. Aquilo não era uma mansão. Era uma propriedade. Muros altos. Portões de ferro n***o. Vigilância armada. Luzes estratégicas iluminando um lago gigantesco, que refletia a lua. Cerejeiras alinhadas ao longo do caminho, suas pétalas rosadas caindo suavemente, como se zombassem da beleza daquele lugar. O carro atravessou os portões. Eles se fecharam atrás. Com um som seco. Definitivo. O coração de Nicole apertou. Era o som de uma prisão. --- Ao descer do carro, Nicole sentiu dezenas de olhares sobre si. Empregados alinhados. Seguranças imóveis. Silêncio absoluto. Yusuke caminhou à frente, sem olhar para trás. Ela o seguiu. Os pés pareciam pesar toneladas. No interior da casa, tudo era minimalista, elegante, frio. Mármore, madeira escura, lanternas orientais. Nada acolhedor. Nada humano. No topo da escadaria, três figuras aguardavam. Um homem idoso. Duas jovens idênticas. Yusuke parou. — Jii-san. O velho inclinou levemente a cabeça. Chiaki (**). O antigo líder da Yakuza. O homem que moldou o Akuma. Seus olhos eram atentos, profundos, carregados de uma sabedoria perigosa. — Então… esta é Nicole Volkov. Nicole engoliu em seco. Inclinou-se desajeitadamente, lembrando vagamente dos costumes. — Prazer, senhor… — Não — interrompeu Chiaki, com voz firme, mas não c***l. — Aqui você me chamará de avô. Ela piscou, confusa. — Avô…? — Em breve, você carregará o nome Kuroda. Um arrepio percorreu seu corpo. --- As gêmeas observavam Nicole com curiosidade contida. Sakura, de cabelos levemente ondulados. Hina, com os fios lisos e presos em um r**o de cavalo alto. Ambas muito bonitas. Muito jovens. Muito distantes. — Oi… — murmurou Nicole, tímida. Elas se entreolharam. — Oi — respondeu Hina, sem muita convicção. Sakura apenas inclinou a cabeça. Havia medo nos olhos delas. Medo de Yusuke. E, de alguma forma, Nicole sentiu-se ainda mais deslocada. --- Chiaki aproximou-se lentamente. Observou Nicole com atenção. — Tão delicada… Ergueu a mão e tocou de leve seu ombro. — Você não pertence a esse mundo. Nicole sentiu a garganta apertar. — Mas agora está nele. Os olhos do velho pousaram brevemente em Yusuke. — Cuide para que ela não se perca completamente. Yusuke não respondeu. Apenas desviou o olhar. --- — Leve-a — ordenou Chiaki. Yusuke segurou o pulso de Nicole. Não com força. Mas com domínio. Subiram as escadas em silêncio. O corredor era longo. Frio. Portas fechadas dos dois lados. Até que ele parou diante de uma porta dupla de madeira clara. Abriu. O quarto era amplo. Minimalista. Luxuoso. Uma cama grande, lençóis claros, janelas de vidro com vista para o jardim de cerejeiras. Tudo impecável. E completamente impessoal. — Este é o seu quarto. Nicole entrou lentamente. Observou o espaço. Bonito. Mas vazio. Sem alma. — Ele fica ao lado do meu — completou Yusuke. Ela estremeceu. — Eu não gosto de dividir minha cama. O coração de Nicole bateu forte. — Não se preocupe — continuou ele. — Ainda. Ela sentiu o rosto esquentar. O medo subir pela espinha. — Descanse. Amanhã começa sua adaptação. Virou-se para sair. Mas antes de fechar a porta, acrescentou: — Aqui, você aprenderá a ser minha esposa. A porta se fechou. O clique da fechadura ecoou como um tiro. Nicole ficou sozinha. Caminhou até a cama. Sentou-se. Olhou ao redor. As cerejeiras balançavam lá fora. Tão lindas. Tão enganosas. Ela abraçou os próprios joelhos. E chorou. Em silêncio. Porque finalmente entendeu: O Japão não era um país. Era sua prisão. --- Nicole acordou antes mesmo do sol nascer. Não porque quisesse. Mas porque seu corpo simplesmente se recusava a continuar dormindo naquele lugar estranho. O quarto estava mergulhado em um silêncio absoluto. As paredes claras, a decoração minimalista, a cama grande demais para alguém que sempre dormira cercada de vida. Sentou-se lentamente, abraçando os próprios joelhos. Por um instante, esqueceu onde estava. Até lembrar. Yusuke. Japão. Casamento. Prisão. Seu estômago se revirou. --- Uma batida firme ecoou na porta. Nicole se sobressaltou. — Entre… — murmurou. Uma empregada curvou-se respeitosamente. — Bom dia, senhorita Volkov. Sou Aiko. Fui designada para auxiliá-la. Atrás dela, duas outras mulheres aguardavam em silêncio. — O senhor Kuroda estabeleceu sua rotina. O coração de Nicole apertou. — Rotina? Aiko assentiu. — Sim. Banho, café da manhã, aulas de japonês, etiqueta, cultura, comportamento social, defesa pessoal, postura, música tradicional, caligrafia e acompanhamento psicológico. Nicole piscou. — Tudo isso… hoje? — Todos os dias. O peso daquelas palavras caiu sobre ela como uma sentença. --- Após o banho e vestir um conjunto delicado escolhido pelas funcionárias, Nicole foi conduzida até a sala de refeições. A mesa era longa. Impecável. Silenciosa. Yusuke já estava sentado. Tomava seu café da manhã sem sequer erguer os olhos. Ren estava ao lado, lendo algo em um tablet. Nicole aproximou-se devagar. — Bom dia… — disse, quase num sussurro. Yusuke não respondeu. Continuou comendo. O silêncio era constrangedor. Opulsivo. Ela sentou-se, com as mãos trêmulas no colo. Minutos se passaram. Até que Yusuke falou: — Pontualidade é obrigatória. Ela engoliu em seco. — Eu acordei cedo… — Não cedo o suficiente. O tom era neutro. Mas afiado. — Aqui, tudo funciona sob regras. Se quebrá-las, arcará com as consequências. Nicole sentiu o rosto esquentar. — Sim, senhor… Ren ergueu brevemente os olhos. Algo em seu olhar demonstrava desconforto. Mas não disse nada. --- As horas seguintes foram exaustivas. Aulas intensas. Treinos físicos. Ensaios de postura. Língua japonesa. Tradições. Comportamento. Tudo rígido. Controlado. Frio. Nicole m*l teve tempo para respirar. Quando errava, era corrigida. Quando demonstrava cansaço, ignorada. Seu corpo doía. Mas o pior era o peso psicológico. A sensação constante de estar sendo observada. Julgada. Avaliada. --- Ao fim da tarde, exausta, Nicole foi liberada por algumas horas. Caminhou lentamente pelo jardim das cerejeiras. As pétalas caíam suaves. O vento era fresco. Ali, ao menos por alguns minutos, conseguiu respirar. Sentou-se próxima ao lago. E foi então que ouviu passos leves. Sakura e Hina aproximavam-se devagar. — Você pode ficar conosco — disse Hina, quebrando o silêncio. Nicole ergueu os olhos, surpresa. — Claro… As duas sentaram-se ao seu lado. Por alguns segundos, ninguém falou nada. Até Sakura tomar coragem: — Você parece… triste. Nicole sorriu fraco. — Um pouco. Hina balançou a cabeça. — Ele é… muito rígido. A palavra ele não precisava de explicação. — Vocês têm medo dele? — perguntou Nicole, com cuidado. As duas se entreolharam. Sakura assentiu. — Yusuke é nosso irmão… mas também é o Akuma. O silêncio pesou. — Mas você não é — completou Hina, encarando Nicole. — Você parece… gentil. O peito de Nicole apertou. — Eu sinto falta da minha família. Sakura aproximou-se um pouco mais. — Nós também sentimos falta… do que nunca tivemos. Nicole engoliu em seco. — Podemos ser amigas? As gêmeas se entreolharam novamente. E, pela primeira vez, sorriram. — Podemos tentar — disse Sakura. Hina segurou timidamente a mão de Nicole. — Você não está sozinha aqui. As lágrimas vieram sem aviso. Mas, dessa vez, não eram só de medo. Eram de alívio. --- Yusuke observava tudo pelas câmeras do sistema interno. Nicole sentada com as gêmeas. Sorrindo. Chorando. Criando laços. — Ela é mais resistente do que parece — comentou Ren. Yusuke não respondeu. Mas, ao ver aquele pequeno grupo sob as cerejeiras, algo nele se contraiu. Não era empatia. Não era piedade. Era incômodo. Porque, de alguma forma, Nicole começava a existir naquele espaço que sempre fora apenas dele. E o Akuma não gostava de dividir.
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