Os dias começaram a se repetir.
E, ainda assim, nunca se tornavam mais fáceis.
Nicole acordava antes do amanhecer, tomava banho em silêncio, vestia-se com roupas escolhidas por outras mãos e seguia para uma rotina exaustiva, milimetricamente cronometrada.
Aprendia a andar com passos mais contidos.
A se sentar com postura impecável.
A falar menos.
A observar mais.
Aprendia a esconder o cansaço.
A engolir o medo.
Mas, acima de tudo, aprendia a não desaparecer.
Porque, mesmo cercada de frieza, Nicole se recusava a deixar que sua luz fosse apagada.
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Ela passou a acordar alguns minutos mais cedo.
Nesse pequeno intervalo roubado, preparava doces simples na cozinha menor da ala dos empregados.
Nada sofisticado.
Nada luxuoso.
Apenas bolinhos, pães macios, biscoitos delicados.
Receitas da mãe.
Aos poucos, os funcionários começaram a sorrir mais ao vê-la passar.
Alguns agradeciam em silêncio.
Outros inclinavam discretamente a cabeça.
E Nicole sorria de volta.
Era pouco.
Mas era algo.
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Sempre que podia, passava tempo com as gêmeas no jardim.
Conversavam sobre livros.
Músicas.
Filmes.
Sonhos que pareciam proibidos naquele lugar.
— Você não parece alguém que pertence a esse mundo — disse Sakura certa vez.
Nicole observava as pétalas caindo.
— Nem eu sinto que pertenço.
Hina segurou sua mão.
— Mas ainda assim… você deixa tudo mais leve.
Nicole sorriu.
Talvez aquela fosse sua missão ali.
Não sobreviver.
Mas suavizar.
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Mas a mansão nunca esquecia quem mandava.
Se Nicole errava uma postura, era corrigida.
Se falhava na pronúncia, repetia até acertar.
Se demonstrava cansaço, era ignorada.
Yusuke raramente falava com ela.
Mas quando falava, sua voz era sempre precisa.
Cortante.
— Não abaixe os olhos.
— Endireite os ombros.
— Respire direito.
Ela obedecia.
Sempre.
Não por submissão.
Mas porque sabia que resistir ali significava sofrer ainda mais.
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Certa noite, Aiko apareceu em seu quarto com um tablet nas mãos.
— Seu pai solicitou uma chamada de vídeo.
O coração de Nicole disparou.
As mãos começaram a tremer.
Ela assentiu rapidamente.
Sentou-se na cama, respirou fundo, tentou conter o choro.
A tela acendeu.
E, de repente…
Moscou estava diante dela.
Anya.
Konstantin.
Os gêmeos.
Katya.
Irina.
Igor.
Valentin.
Todos juntos.
O mundo que ela perdera.
— Filha… — a voz de Anya falhou no primeiro segundo.
Nicole não conseguiu se controlar.
As lágrimas vieram fortes, silenciosas, descontroladas.
— Mamãe…
Anya chorava também.
— Você está bem? Ele está te machucando?
Nicole balançou a cabeça.
— Não… ele não encostou em mim.
Era verdade.
Mas não significava que não doesse.
Konstantin aproximou-se da câmera.
— Se ele ousar—
— Papai… — ela o interrompeu, suavemente. — Eu estou tentando ser forte.
O silêncio se instalou.
Alexander e Alexei surgiram, empurrando-se para aparecer na tela.
— A gente tá treinando mais — disse Alexei. — Quando você voltar, vamos estar prontos.
O peito de Nicole apertou.
— Eu acredito em vocês.
Valentin acenou animado.
— Eu desenhei você!
Katya sorriu, os olhos marejados.
— Sua mãe continua exagerando no açúcar.
Nicole riu entre lágrimas.
— Algumas coisas nunca mudam.
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Quando a ligação terminou, o quarto voltou a parecer grande demais.
Vazio demais.
Nicole abraçou o travesseiro, respirando fundo.
A saudade era uma dor física.
Mas, ainda assim, ela não deixou que o desespero vencesse.
Levantou-se.
Foi até a janela.
Observou as cerejeiras balançando ao vento.
— Eu ainda sou eu — sussurrou.
Mesmo ali.
Mesmo presa.
Mesmo assustada.
Ela ainda era Nicole Volkov.
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Yusuke observava o corredor pelo monitor.
Viu quando Aiko saiu do quarto.
Viu quando Nicole se aproximou da janela, abraçando a si mesma.
Ren estava ao seu lado.
— Ela sente muita falta da família.
— Isso é irrelevante.
Mas sua voz não soou tão firme quanto deveria.
— Quanto mais cedo esquecer, melhor.
Ren o encarou.
— E se ela não esquecer?
Yusuke permaneceu em silêncio.
Os olhos fixos na imagem dela.
Pequena.
Frágil.
Resistente.
— Então… — murmurou por fim — eu terei que ensiná-la.
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O sol da manhã iluminava suavemente os jardins quando Aiko anunciou:
— Senhorita Nicole, o senhor Ren solicitou que a senhora e as senhoritas Sakura e Hina se preparem. Vocês sairão.
Nicole ergueu o olhar, surpresa.
— Sair?
Aiko assentiu.
— Compras. Pro casamento.
O coração de Nicole bateu mais forte.
Não era exatamente felicidade.
Mas sair da mansão, ainda que escoltada, parecia um pequeno sopro de liberdade.
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O carro de luxo cortava as ruas de Kobe em silêncio.
Ren estava no banco da frente, sério, atento.
Nicole e as gêmeas seguiam atrás.
Sakura observava tudo pela janela, encantada.
Hina mexia no celular discretamente.
Nicole respirava fundo.
— Obrigada por nos levar — murmurou.
Ren virou levemente o rosto.
— Não agradeça. É… necessário.
Mas seu tom não era frio.
Era contido.
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A loja inteira fora fechada exclusivamente para elas.
Vendedoras alinhadas.
Vestidos impecavelmente organizados.
Tecidos nobres.
Sapatos delicados.
A atmosfera era de luxo absoluto.
— Para o casamento, quero opções tradicionais e modernas — ordenou Ren. — Que respeitem a cultura japonesa, mas não apaguem quem ela é.
Nicole piscou, surpresa.
Sakura sorriu discretamente.
Hina cutucou o braço da irmã.
— Ele é diferente.
Ren ouviu.
Mas fingiu não perceber.
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Nicole experimentava vestidos em silêncio.
Alguns eram pesados demais.
Outros tradicionais demais.
Alguns delicados demais.
Ela se observava no espelho e m*l se reconhecia.
Até que vestiu um modelo simples, em tom perolado, leve, com bordados sutis de cerejeiras.
Era delicado.
Suave.
Elegante.
Quando saiu do provador, Sakura e Hina ficaram em silêncio.
— Você parece… uma princesa — murmurou Hina.
Nicole engoliu em seco.
Ren observava atentamente.
Por um instante, viu não a futura esposa do Akuma…
Mas apenas uma garota assustada tentando sobreviver.
— Esse — decidiu. — Esse é o principal.
Nicole assentiu.
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Sakura e Hina também experimentaram roupas.
Riram.
Giraram diante do espelho.
Por alguns instantes, pareciam garotas normais.
— Faz tempo que não saímos assim — confessou Sakura.
— Ele não gosta que chamemos atenção — completou Hina.
Nicole sentiu o estômago apertar.
— Vocês têm medo dele…
As duas assentiram em silêncio.
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Enquanto aguardavam ajustes, Ren levou as três até uma pequena cafeteria discreta.
— Temos quinze minutos.
Nicole quase sorriu.
Tomaram chá quente.
Doces leves.
Algo simples.
Algo humano.
— Obrigada — murmurou Nicole.
Ren encarou sua xícara.
— Não pense que isso muda sua situação.
Ela assentiu.
— Eu sei.
Mas ainda assim, agradecia.
Porque aqueles minutos eram um presente.
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Na mansão, Yusuke assistia às imagens pelas câmeras de segurança instaladas nos carros e nos estabelecimentos.
Viu Nicole rir timidamente.
Viu Ren pagar a conta.
Viu as gêmeas relaxarem.
Seu maxilar se contraiu.
— Você está ultrapassando limites — murmurou.
Ren sabia.
Mesmo à distância.
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No caminho de volta, o clima era silencioso, mas diferente.
Mais leve.
Mais humano.
Nicole apoiou a cabeça no vidro.
Observou a cidade passando.
Guardando cada detalhe.
Cada cor.
Cada rosto.
Porque, mesmo que aquele mundo não fosse seu…
Era o último onde ainda conseguia respirar.