Capítulo 12 - Adaptação

1195 Words
A mansão Kuroda estava silenciosa demais naquela noite. A chegada de Nicole, das gêmeas e de Ren havia mexido com toda a estrutura da casa — e, principalmente, com Yusuke. Ele não demonstrava, mas cada mudança no ambiente o deixava em estado de alerta constante. Sentado na poltrona de couro de seu escritório, ele girava lentamente o copo de uísque entre os dedos, o olhar perdido nas luzes distantes de Kobe através da parede de vidro. — Chame a Yumi — ordenou, sem erguer a voz. Minutos depois, ela entrou. Yumi caminhava com passos leves, quase silenciosos, vestida de maneira simples, mas elegante. O olhar era baixo, respeitoso, ainda que carregado de uma entrega silenciosa. Ela sabia exatamente por que havia sido chamada — e não ousava questionar. Yusuke não se levantou. Apenas observou. Havia nela uma tranquilidade que o mundo brutal da Yakuza não oferecia. Uma pausa. Um intervalo. Um espaço onde ele podia baixar minimamente suas defesas. — Sente-se — disse, apontando para a poltrona à sua frente. Ela obedeceu. O silêncio entre os dois não era desconfortável. Era denso. Carregado de tudo o que não precisava ser dito. Yusuke apoiou os cotovelos nos joelhos, aproximando-se levemente. — Hoje foi… cansativo. Era raro ouvi-lo admitir isso. Yumi levantou o olhar com cuidado. — Imagino. Ele soltou um breve suspiro pelo nariz, quase imperceptível. A presença dela não apagava sua escuridão — apenas tornava o peso mais suportável. Quando finalmente se levantou, passou por ela lentamente, tocando de leve seus ombros, um gesto simples, mas carregado de significado. Yumi fechou os olhos por um instante, absorvendo aquele contato mínimo, sabendo que para ele aquilo já era muito. Naquela noite, Yusuke permitiu-se repousar. Não em paz — ele nunca conheceu esse estado —, mas em silêncio. E, para alguém como ele, isso já era um luxo. --- A mansão Kuroda dormia sob um silêncio quase sagrado. Nicole despertou no meio da madrugada com a garganta seca. A rotina rígida, o fuso, o impacto da mudança… tudo conspirava para deixá-la inquieta. Vestiu o robe claro e saiu do quarto em passos cuidadosos, guiando-se pela luz baixa dos corredores. A cozinha estava a poucos metros. Mas antes que alcançasse a escada, viu uma porta se abrir lentamente no corredor oposto. O quarto de Yusuke. Nicole congelou. Uma mulher saiu primeiro. Tinha cabelos longos, escuros como a noite, traços delicados e postura elegante. Caminhava com calma, como se aquele ambiente lhe fosse íntimo demais. Usava um quimono leve, m*l ajustado ao corpo. Quando passou sob a luz lateral, Nicole viu. Marcas arroxeadas no pescoço. Seu coração deu um salto violento dentro do peito. A mulher também a percebeu. Parou. Os olhos das duas se encontraram no meio do corredor silencioso, como se o ar tivesse ficado mais denso. Por alguns segundos, nenhuma falou. Foi a mulher quem quebrou o silêncio. — Você… quem é? — perguntou em japonês suave, mas com um leve tom de curiosidade. Nicole engoliu em seco. — Nicole. A mulher inclinou levemente a cabeça, analisando-a com atenção. — Eu sou Yumi. O nome ecoou estranho na mente de Nicole. Ela respirou fundo antes de perguntar, quase num sussurro: — Você… é o quê do Yusuke? Yumi sustentou o olhar por alguns instantes. Não havia provocação, apenas uma verdade tranquila demais para o coração de Nicole. — Sou alguém que ele chama quando precisa esquecer quem é. A resposta atravessou Nicole como uma lâmina silenciosa. O corredor pareceu girar levemente. — E você? — Yumi devolveu, com suavidade. — Quem é para ele? Nicole hesitou. Pensou em tudo o que lhe haviam dito. No casamento. No acordo. Na promessa. No destino traçado sem seu consentimento. — Eu… sou a noiva dele. Yumi piscou, surpresa real passando por seus olhos. Por um segundo, pareceu querer dizer algo. Mas conteve. Apenas assentiu lentamente. — Entendo. O silêncio voltou a se instalar entre as duas, pesado, carregado de significados que nenhuma delas conseguia organizar. — Boa noite, Nicole — disse Yumi, antes de seguir pelo corredor e desaparecer. Nicole permaneceu imóvel. O copo de água que buscava já não fazia sentido. Seu coração batia forte, confuso, tentando processar aquela imagem: Yusuke — o homem que agora determinava seu futuro — dividido entre a brutalidade, o controle… e aquela i********e secreta. Ela voltou para o quarto com passos lentos. E naquela noite, o sono não veio. --- Na manhã seguinte, Nicole acordou antes do toque do sino que marcava o início da rotina. Seus olhos ardiam. Não havia chorado — não de verdade —, mas a dor permanecia ali, presa no peito, pesada demais para sair. Levantou-se em silêncio, vestiu-se com cuidado e deixou o quarto sem fazer ruído. Nos corredores, tudo parecia igual. Mas dentro dela, nada estava. O café da manhã foi servido pontualmente. Yusuke estava à mesa, impecável como sempre, expressão neutra, postura inabalável. Ren permanecia ao seu lado, atento. As gêmeas Sakura e Hina comiam em silêncio, obedientes. Nicole sentou-se em seu lugar sem erguer muito o olhar. E, ainda assim, sentiu. Sentiu quando Yusuke a observou por um breve instante a mais do que o habitual. Algo nela estava diferente. Mais quieta. Mais distante. Mas ele nada disse. Nicole também não. Comeu pouco. Bebeu o chá devagar. Respondeu às perguntas com monossílabos suaves. Quando o café terminou, inclinou-se respeitosamente e pediu licença para sair. No jardim, o ar frio da manhã tocou seu rosto, trazendo uma leve sensação de alívio. Foi ali que encontrou Sakura e Hina. As gêmeas estavam sentadas próximas ao lago artificial, alimentando os peixes coloridos. Ao vê-la, trocaram um olhar rápido antes de sorrirem. — Nicole — chamou Hina, acenando para que se aproximasse. Ela foi. Sentou-se entre as duas, observando os peixes romperem a superfície da água. Por alguns minutos, nenhuma falou. Mas o silêncio, ali, não doía. — Você está triste — murmurou Sakura, com delicadeza. Nicole hesitou. Depois assentiu lentamente. — Um pouco. Hina encostou o ombro no dela. — Aqui é difícil no começo. Para todas nós. Nicole respirou fundo. Naquele gesto simples, encontrou um conforto inesperado. A partir daquele dia, passou a procurar mais as gêmeas. Ajudava nos estudos, caminhava com elas pelos jardins, participava de pequenos rituais diários da casa. Aos poucos, deixou de se isolar no quarto. E, sem perceber, também começou a se aproximar de Ren. Ele a tratava com uma formalidade respeitosa, sempre atento para que ela estivesse confortável. Quando percebia seu cansaço, diminuía o ritmo das atividades. Quando via seu silêncio prolongado, oferecia companhia sem perguntas. Certa tarde, ao vê-la sentada sozinha na biblioteca, aproximou-se. — Posso? — perguntou, apontando para a poltrona ao lado. Nicole assentiu. Ficaram ali, lendo em silêncio. Era simples. Era suficiente. Ren tornou-se sua ponte de segurança dentro daquele mundo rígido. E as gêmeas, seu abrigo. Enquanto isso, Yusuke observava. De longe. Percebia cada pequeno afastamento. Cada mudança sutil no comportamento dela. Cada vez que Nicole desviava o olhar ao cruzar com o seu. Ela não reclamava. Não exigia. Não chorava diante dele. Mas se fechava. E isso, para alguém que sempre controlou tudo ao seu redor, era o mais inquietante dos sinais.
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