Capítulo 13 - O Velho Dragão Observa

1404 Words
A cozinha pequena dos empregados era o único lugar naquela mansão que ainda lembrava, mesmo que vagamente, o mundo de Nicole. Ali, o ar era mais quente, os aromas mais humanos, os sons mais vivos. Era madrugada. Nicole entrou em silêncio, usando apenas uma camisola clara e um casaco fino. Os pés descalços m*l tocavam o chão frio. Sabia que não devia estar ali. Sabia que havia regras. Mas precisava respirar. Precisava sentir algo que não fosse medo. Separou os ingredientes com cuidado. O som suave da farinha caindo na tigela trouxe uma lembrança tão viva que seus olhos marejaram. A cozinha da sua mãe. O cheiro de baunilha. O riso de Anya. Os dedos começaram a tremer. Mas ela continuou. Quebrou os ovos com delicadeza, misturou a massa, acrescentou açúcar e manteiga, concentrada, como se aquilo fosse um ritual de sobrevivência. O forno foi ligado em silêncio. E então— — O que pensa que está fazendo? A voz atravessou o ambiente como uma lâmina. Nicole se virou num sobressalto, o coração quase saltando pela boca. Yusuke estava parado à porta. Descalço. Camisa social preta aberta no colarinho. Os cabelos levemente bagunçados. A presença dele dominava o espaço de forma quase física. Ela engoliu em seco. — Eu… eu só… — a voz falhou — queria fazer um bolo. O silêncio que se seguiu foi sufocante. O olhar de Yusuke percorreu a bancada, os ingredientes, a massa, o forno ligado. — Você não tem permissão para estar aqui — disse, frio. — Muito menos para usar a cozinha dos empregados. Nicole sentiu o peito apertar. — Eu não queria incomodar. Só… precisava. — Precisava? — ele deu um passo à frente. — Precisa aprender que nesta casa nada é feito sem minha autorização. Ela ergueu o rosto, os olhos brilhando. — Eu não sou sua funcionária. Nem um dos seus soldados. Eu sou um ser humano. As palavras escaparam antes que pudesse contê-las. O ar ficou denso. Os olhos de Yusuke escureceram. — Cuidado — murmurou. — Você não sabe com quem está falando. — Eu sei exatamente. — A voz dela tremia, mas não recuava. — Com o Akuma da Yakuza. Com o homem que arrancou tudo que eu tinha. Com alguém que me trouxe para o outro lado do mundo sem sequer perguntar se eu queria. Silêncio. O forno apitou baixinho. Nicole respirava rápido, o coração em disparada. — Eu não escolhi isso — sussurrou. — Mas mesmo assim estou tentando. Tentando não quebrar. Tentando ser forte. Tentando sobreviver aqui. As lágrimas finalmente caíram. Yusuke ficou imóvel. Ninguém jamais falava assim com ele. Ninguém jamais ousava. E, no entanto, aquela garota frágil, de voz suave, estava ali, enfrentando o inferno. — Desligue o forno — ordenou, num tom mais baixo. Nicole obedeceu. O cheiro doce se espalhou pelo ambiente. — Por que faz isso escondida? — perguntou. Ela respirou fundo. — Porque é a única coisa que ainda me faz sentir em casa. As palavras o atingiram com uma força inesperada. Por um instante, algo quase humano atravessou seu olhar. Quase. — Você não pertence mais àquele mundo — disse, enfim. Nicole o encarou. — Então por que parte de mim ainda está morrendo lá? O silêncio se estendeu. Pesado. Perigoso. Yusuke virou-se. — Termine o bolo — disse. — Mas não saia daqui até amanhecer. Ela piscou, confusa. — Isso é… uma ordem? — É uma concessão. E saiu, deixando para trás o cheiro de açúcar… e um inferno discretamente abalado. --- O cheiro espalhou-se pela sala de jantar antes mesmo de todos se sentarem. Era diferente. Quente. Aconchegante. Estranho demais para aquela mansão fria. Os empregados colocaram à mesa pequenas fatias de um bolo dourado, delicadamente polvilhado com açúcar. Nicole manteve o olhar baixo. O coração batia acelerado. Yusuke sentou-se à cabeceira, expressão inalterável. Ren ao seu lado. As gêmeas, em frente. Chiaki, logo após, observando tudo com atenção. Foi o avô quem percebeu primeiro. Levou o garfo à boca. Mastigou devagar. Seus olhos, cansados, se estreitaram levemente. — Interessante… Todos o olharam. Ele comeu mais um pedaço. — Muito bom. Macio. Equilibrado. Há anos não sinto um sabor assim nesta casa. Silêncio. Os empregados se entreolharam, tensos. — Quem fez? — perguntou Chiaki, com voz firme. Nicole sentiu o estômago se contrair. Antes que pudesse falar, uma voz cortou o ar. — Foi ela. Yusuke. Todos voltaram-se para Nicole. Ela engoliu em seco. Chiaki a observou com atenção profunda, quase clínica. Seus olhos escuros percorreram cada detalhe dela. — Você sabe cozinhar? — Sim, senhor — respondeu com respeito. — Aprendi com minha mãe. Chiaki assentiu lentamente. — Isso explica. Há sentimentos neste bolo. Coisa rara. As palavras fizeram o peito de Nicole apertar. — Faça mais vezes — ordenou ele. — Esta casa precisa lembrar que ainda existem coisas que não envolvem sangue. Ren sorriu de canto. As gêmeas trocaram um olhar animado. Yusuke permaneceu em silêncio. Mas seus olhos estavam nela. Fixos. Observando. Aquela garota havia alterado a rotina da sua casa em uma única madrugada. E isso o incomodava mais do que qualquer ataque inimigo. Nicole sentiu o peso daquele olhar e, instintivamente, desviou o rosto. O coração apertado. O bolo acabou. Mas o impacto permaneceu. --- Chiaki Kuroda não acreditava em coincidências. Nunca acreditara. Aos setenta e três anos, tendo governado o submundo japonês por décadas, aprendera que tudo tinha propósito. Até o caos. Até a dor. Especialmente a dor. Da varanda superior da mansão, observava o jardim coberto por cerejeiras. As pétalas rosadas caíam lentamente, dançando no vento frio da manhã. Era belo. E falso. Assim como a paz. Seu olhar então deslizou até a figura delicada sentada próxima ao lago. Nicole Volkov. Tão frágil naquele mundo. Tão deslocada. Tão perigosa. Desde sua chegada, Chiaki percebera algo diferente no ar da propriedade. Algo quase imperceptível, mas real. O inferno estava… inquieto. — Ela não pertence a este lugar — murmurou para si mesmo. Mas pertencimento nunca fora escolha. Apenas destino. Ele recordava-se bem da noite em que o pequeno Yusuke chegara à sua casa. Tinha doze anos. O olhar morto. O corpo coberto de sangue que não era seu. O neto não chorara. Não gritara. Não implorara. Apenas ficara parado, encarando o vazio. Naquela noite, Chiaki soube. O inferno havia nascido. E ele o moldara. Cada golpe. Cada treino. Cada ordem c***l. Cada silêncio. Ele transformara dor em arma. Fizera de Yusuke um monstro necessário. E agora, diante daquela jovem de olhos claros e mãos delicadas, percebia algo perturbador. Ela não temia como deveria. Ela não se submetia como deveria. Ela não se quebrava. Tentava sobreviver com doçura. E isso… Era mais perigoso que qualquer lâmina. Chiaki desceu lentamente as escadas e caminhou até o jardim. Nicole levantou-se ao vê-lo. — Senhor Chiaki… — Sente-se — disse ele, apontando para o banco ao seu lado. Ela obedeceu. Por alguns instantes, apenas observaram o lago. — Sabe por que meu neto é chamado de Akuma? — perguntou ele. Nicole engoliu em seco. — Porque… ele é c***l. — Não. — Chiaki virou-se para ela. — Porque o mundo o fez assim. Ela sentiu o peito apertar. — Meu neto não nasceu um monstro. Ele foi criado por tragédias. Moldado por guerras. Lapidado pela morte. O silêncio caiu pesado. — Você é o oposto disso — continuou. — E exatamente por isso é uma ameaça. Nicole empalideceu. — Eu não quero machucar ninguém. Chiaki soltou um leve sorriso, sem humor. — Eu sei. É isso que torna tudo mais perigoso. Ela franziu levemente o cenho. — O senhor me odeia? Ele a observou longamente. — Não. Eu a respeito. Nicole piscou, surpresa. — Porque mesmo assustada, mesmo arrancada do seu mundo, você tenta permanecer inteira. Poucos conseguem. Ela abaixou o olhar. — Isso não significa que este seja seu lugar — completou ele. — Mas significa que você pode mudá-lo. O vento agitou as cerejeiras. Pétalas caíram sobre os cabelos claros de Nicole. — Yusuke não sabe sentir — murmurou Chiaki. — E isso o mantém vivo. — E o senhor? — perguntou ela, quase num sussurro. — Eu já senti demais. Ele levantou-se. — Seu destino e o dele agora estão entrelaçados. Querendo ou não. — Fitou-a pela última vez. — A única questão é: você será a ruína dele… ou sua salvação? E partiu, deixando atrás de si o eco da própria profecia.
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