O carro preto deixou os portões da mansão Kuroda lentamente.
Dentro, o silêncio era tão denso que parecia ter peso.
Nicole mantinha as mãos pousadas sobre o colo, os dedos entrelaçados com força, o olhar fixo na paisagem que passava pela janela sem realmente enxergar nada.
Yusuke dirigia com precisão impecável, os olhos atentos à estrada, o maxilar rígido, a presença opressora.
Nenhuma palavra havia sido dita desde que entraram no carro.
O ar estava carregado de coisas não ditas.
De mágoas.
De raiva.
De tensão.
O caminho até a casa de veraneio duraria algumas horas.
Horas longas demais.
O celular de Yusuke vibrou.
Ele atendeu sem tirar os olhos da estrada.
— Jiisan.
A voz de Chiaki soou do outro lado da linha, grave e serena.
— Já está saindo de Kobe?
— Sim. Vou me ausentar alguns dias. Quero que cuide da casa principal.
— Entendo. — respondeu o velho líder. — Ren?
Yusuke hesitou por um segundo quase imperceptível.
— Ele permanece. Mas não toma decisões sem sua aprovação.
Houve um breve silêncio.
— Yusuke… — disse Chiaki, em tom mais baixo. — Não confunda autoridade com brutalidade. Há coisas que nem mesmo um Akuma pode dominar à força.
Yusuke fechou a mão no volante.
— Ela é minha esposa.
— E ainda assim, é uma jovem que acabou de ser arrancada do próprio mundo. — retrucou Chiaki. — Cuidado para não quebrar aquilo que ainda pode ser seu maior tesouro.
A ligação foi encerrada.
O silêncio voltou a dominar o interior do carro.
Nicole tinha ouvido tudo.
Seu coração estava acelerado, mas ela não ousava dizer nada.
A estrada começou a se tornar mais estreita, cercada por florestas densas e montanhas. O ar ali parecia mais frio, mais isolado, mais selvagem.
Após longas horas, o carro finalmente entrou por um portão de ferro imenso.
A casa de veraneio Kuroda surgia entre árvores centenárias e um lago cristalino.
Era linda.
E assustadora.
Uma construção tradicional japonesa, ampla, elegante, cercada por jardins perfeitamente cuidados.
Um paraíso isolado.
Ou uma prisão dourada.
Yusuke estacionou.
Saiu do carro sem dizer uma palavra.
Nicole desceu logo depois, o coração batendo descompassado.
O silêncio entre eles parecia um abismo.
— Entre. — ordenou ele, abrindo a porta principal.
Ela respirou fundo.
E obedeceu.
Sem saber exatamente o que a aguardava ali.
Sozinha.
Com o Akuma da Yakuza.
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A casa de veraneio mergulhava lentamente na escuridão.
Do lado de fora, o vento balançava as copas das árvores, fazendo as folhas sussurrarem como lamentos antigos. O lago refletia a lua cheia, imóvel, como um espelho de prata.
Por dentro, o silêncio era absoluto.
Nicole caminhava descalça pelo assoalho frio, vestindo um quimono simples que encontrara no quarto. Seus passos eram leves, quase inaudíveis, mas seu coração batia forte demais para ignorar.
Estava sozinha ali com ele.
Sem Ren.
Sem as gêmeas.
Sem o avô Chiaki.
Sem sua família.
Sem ninguém.
O pensamento fez seu estômago se contrair.
A casa era enorme, tradicional, fria. Cada corredor parecia interminável, cada porta fechada escondia algo desconhecido. Tudo era belo — e ao mesmo tempo assustador.
Ela parou diante da porta do quarto principal.
Sabia que Yusuke estava ali.
Respirou fundo.
Mas antes que pudesse decidir voltar, a porta se abriu.
Yusuke estava parado à sua frente.
Os cabelos ainda levemente úmidos do banho, o quimono escuro frouxamente ajustado ao corpo, deixando à mostra parte das tatuagens que cobriam seu peito e pescoço. Seu olhar era indecifrável, profundo, predatório.
— Entre. — ordenou, em tom baixo.
Nicole obedeceu.
O quarto era amplo, minimalista, frio. A iluminação suave projetava sombras longas pelas paredes, criando um ambiente quase irreal.
A porta se fechou atrás dela.
O som ecoou alto demais.
O silêncio voltou a se instalar.
Yusuke caminhou lentamente até a mesa lateral, serviu-se de uma dose de saquê e bebeu de uma vez. Depois, virou-se para ela.
— Você tem medo de mim.
Não era uma pergunta.
Nicole engoliu em seco.
— Eu… não sei.
Ele deu um meio sorriso sem humor.
— Mente m*l.
Ela baixou os olhos.
— Eu não queria provocar nada. — sussurrou. — Eu só… queria respirar um pouco.
Yusuke se aproximou.
Cada passo dele fazia seu coração acelerar ainda mais.
— Você respira quando está sob meu controle. — disse, parando diante dela. — Fora dele, você se perde.
Ela ergueu o olhar, os olhos marejados.
— Eu não sou sua prisioneira.
O silêncio que se seguiu foi perigoso.
Por um instante, ela achou que ele iria explodir.
Mas Yusuke apenas a observou.
Longamente.
Como se tentasse decifrá-la.
Então, de forma inesperada, levou a mão até o queixo dela, erguendo seu rosto com firmeza.
O toque era frio.
Controlado.
O coração de Nicole parecia querer sair do peito.
— Você é minha esposa. — murmurou ele. — E ainda assim… continua intocada.
Os olhos dele desceram lentamente até os lábios dela.
Por um segundo, Nicole esqueceu como respirar.
Quando percebeu, Yusuke já estava próximo demais.
O beijo veio abrupto.
Duro.
Intenso.
Não havia delicadeza.
Era uma tomada de posse silenciosa.
Nicole ficou rígida no primeiro instante, assustada, mas logo seus dedos se fecharam no tecido do quimono dele, como se buscassem equilíbrio.
O mundo pareceu desaparecer.
Quando Yusuke se afastou, ambos respiravam com dificuldade.
Ele encostou a testa na dela por um breve segundo.
— Durma. — ordenou, afastando-se.
Nicole piscou, confusa.
— Aqui?
— Não. — respondeu seco. — No seu quarto.
Ela assentiu, sem ousar discutir.
Ao sair, sentiu as pernas bambas.
No quarto ao lado, sentou-se na cama, abraçando os próprios joelhos.
O coração ainda descompassado.
Não sabia se sentia medo.
Ou algo ainda mais perigoso.
No quarto principal, Yusuke permaneceu parado, olhando para o vazio.
Fechou os olhos por um instante.
O cheiro dela ainda estava em suas mãos.
E aquilo o irritava mais do que qualquer inimigo jamais conseguiu.
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