Capítulo 18 - Desejo e a Crueldade

1375 Words
A mansão Kuroda mergulhava em um silêncio opressor quando os portões se abriram. O carro preto avançou lentamente pelo jardim impecável até parar diante da entrada principal. Yusuke havia voltado. A presença dele mudava completamente o ar da casa. Era como se a própria atmosfera se tornasse mais pesada, mais densa, mais perigosa. Ren sentiu isso no instante em que o viu cruzar o hall. O terno escuro, os cabelos perfeitamente alinhados, o rosto frio — mas os olhos… os olhos estavam diferentes. Havia algo ali. Algo violento. — Onde ela está? — perguntou Yusuke, sem rodeios. — No quarto. — respondeu Ren, automaticamente. Yusuke assentiu uma única vez. Mas não se moveu. Seu olhar voltou-se lentamente para Ren, carregado de uma tensão quase palpável. — Você saiu com a minha esposa. — afirmou, em tom baixo. Ren engoliu em seco. — Ela estava triste. Sozinha. Você viajou sem avisar quando voltaria… eu só quis— — Você não quis nada. — cortou Yusuke, aproximando-se. — Você não tem o direito de decidir nada que envolva Nicole sem a minha permissão. Ren sustentou o olhar, firme. — Ela não é um objeto, Yusuke. O silêncio que se seguiu foi mortal. Por um segundo, tudo pareceu congelar. No instante seguinte, o punho de Yusuke atravessou o espaço e atingiu o rosto de Ren com violência. O impacto ecoou pelo salão. Ren cambaleou para trás, quase caindo, sentindo o gosto metálico do sangue na boca. Yusuke avançou mais um passo, os olhos completamente escurecidos. — Nunca mais ouse me desafiar dentro da minha casa. Ren limpou o sangue com o dorso da mão, respirando fundo. — Você sabe que eu jamais trairia sua confiança. — disse, com a voz firme, apesar da dor. — Mas também sabe que ela está sofrendo. — O sofrimento dela não é da sua conta. — rosnou Yusuke. — Ela é minha esposa. Tudo que diz respeito a ela passa por mim. — É exatamente isso que está destruindo vocês dois. — respondeu Ren, num fio de coragem. — Você a mantém distante, fria, presa… e depois se irrita quando alguém oferece um pouco de humanidade. Os dois ficaram frente a frente, respirando com dificuldade. Yusuke fechou os punhos. Por um momento, pareceu que bateria novamente. Mas se conteve. Virou-se bruscamente. — Saia da minha frente. Ren permaneceu parado, observando-o subir as escadas. Sabia. Aquela tempestade ainda estava longe de acabar. E Nicole seria o epicentro de tudo. --- Nicole ainda sentia o coração pesado quando terminou o banho. A água quente não conseguiu afastar o nó em seu peito. Vestia apenas uma toalha clara ao redor do corpo, os cabelos longos e úmidos caindo pelas costas, quando ouviu a porta se abrir com violência. Yusuke entrou. Sem bater. Sem avisar. A presença dele preencheu todo o ambiente. O ar ficou denso, quase irrespirável. Nicole se virou, assustada. — Y-Yusuke… Ele a encarou por longos segundos. A pele ainda quente do banho, o perfume suave, os olhos grandes cheios de incerteza. Algo nele se rompeu. Em dois passos, estava diante dela. Segurou seu rosto com firmeza e a beijou. Não foi um beijo doce. Foi intenso, dominador, carregado de raiva, desejo e frustração. Nicole ficou imóvel por um instante, surpresa demais para reagir, até que suas mãos tocaram o peito dele, tentando afastá-lo. Yusuke se afastou de repente, como se tivesse sido queimado. Os olhos escuros agora estavam frios. Duros. — Nunca mais faça isso. — disse, a voz baixa e cortante. Ela piscou, confusa. — Fazer… o quê? — Me provocar. — cuspiu. — Fingir inocência enquanto se exibe para qualquer homem da casa. As palavras atingiram Nicole como um tapa. — Eu não fiz nada… — sussurrou, sentindo os olhos arderem. — Fez. — ele rosnou. — Você sabe exatamente o que faz. Esse seu jeito doce, frágil… é uma arma. E você usa contra todos. Nicole sentiu o peito apertar. — Eu só… eu só tentei ser gentil… — sua voz falhou. Yusuke riu, sem humor. — Gentileza não sobrevive no meu mundo. Aprenda isso logo. Ela sentiu as lágrimas escorrerem. Silenciosas. Contidas. — Eu tenho medo de você… — confessou, num fio de voz. Por um segundo, algo passou pelo olhar dele. Algo que parecia dor. Mas desapareceu rápido. — Então é melhor se acostumar. Sem dizer mais nada, virou-se e saiu, batendo a porta atrás de si. Nicole deslizou lentamente até a beirada da cama, abraçando a própria cintura. O choro veio forte. Profundo. Doído. Não só pelo medo. Mas pela confusão. Porque, por um breve instante, naquele beijo, ela sentiu algo diferente. Algo que quase pareceu desejo. E isso a apavorava ainda mais. --- Yusuke entrou no próprio quarto e fechou a porta com força. Passou a mão pelos cabelos, respirando pesado. O reflexo no espelho mostrava um homem à beira do colapso. A lembrança da pele dela, do perfume, da fragilidade… Tudo o desestabilizava. — i****a… — murmurou para si mesmo. Apoiou as mãos na pia, encarando os próprios olhos. Ele não podia. Não devia. Nicole era uma promessa. Um acordo. Uma peça num jogo muito maior. Sentir desejo por ela era fraqueza. E fraqueza, naquele mundo, custava vidas. Ainda assim… O gosto do beijo permanecia em sua boca. E isso o enfurecia. --- O sol da manhã entrava tímido pelas janelas da mansão Kuroda, mas para Nicole tudo parecia cinza. Ela m*l havia dormido. As palavras de Yusuke ecoavam em sua mente como lâminas. Desceu para o café da manhã em silêncio, os olhos ainda inchados, tentando manter a postura serena que aprendera desde pequena. Foi quando o viu. Ren estava sentado à mesa lateral, afastado dos demais. O canto do lábio arroxeado. Um corte discreto acima da sobrancelha. E os olhos levemente inchados. O coração de Nicole disparou. Ela se aproximou devagar. — Ren… o que aconteceu com você? Ele ergueu o olhar e, por um instante, pareceu surpreso por vê-la ali. — Não é nada. — respondeu rápido demais. Mas Nicole conhecia aquele tipo de resposta. — Foi ele, não foi? Ren permaneceu em silêncio. E o silêncio foi a confirmação mais c***l. A garganta de Nicole se fechou. — Por minha causa… — Não. — disse Ren, firme. — Foi por escolha minha. Ela balançou a cabeça, sentindo os olhos arderem. — Eu saí com você. Ele viu. Eu percebi a mudança dele quando voltou… — sua voz falhou. — Ele fez isso porque achou que você estava me desrespeitando. Ren respirou fundo. — Yusuke não aceita perder controle. De nada. Sobre ninguém. — disse em tom baixo. — Mas não se culpe. Você não fez nada errado. — Eu fiz. — sussurrou ela. — Eu existo aqui. Só isso já parece ser um problema. Ren sentiu o peito apertar. — Nicole… — tentou dizer. Mas ela já sentia as lágrimas escorrerem. — Eu achei que talvez… talvez eu pudesse ser feliz aqui. — confessou. — Mas agora eu vejo… eu estou presa num mundo que me odeia. Ren segurou delicadamente sua mão. — Você não está sozinha. Ela ergueu o olhar para ele. — Estou. — respondeu com um pequeno sorriso triste. — Sempre estive. Nesse instante, passos ecoaram no salão. Nicole sentiu o corpo inteiro enrijecer. Yusuke atravessava o ambiente com sua postura impecável, expressão fria, olhos atentos a cada detalhe. E então viu. Viu a mão de Ren segurando a dela. Viu o rosto abatido de Nicole. E viu o medo nos olhos dela ao perceber sua presença. Algo dentro dele se contraiu. Mas seu rosto permaneceu uma máscara. — Solte. — ordenou, seco. Ren obedeceu de imediato. Nicole recolheu a mão, sentindo-se pequena. — Você. — Yusuke disse, olhando diretamente para ela. — Coma. Em quinze minutos, quero você pronta. Vamos sair. O coração dela deu um salto de pavor. — P-Pra onde? — Não é da sua conta. Virou-se e saiu, deixando para trás um rastro de tensão. Nicole permaneceu imóvel por alguns segundos. Depois respirou fundo. — Eu sinto muito… — sussurrou para Ren. Ele balançou a cabeça. — Não peça desculpas por tentar viver. Mas ela sabia. A partir daquele momento, qualquer pequeno gesto seu teria consequências. E alguém sempre pagaria o preço. ---
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