Capítulo 17 - Quando a Luz Vem de Onde Menos se Espera

1001 Words
Yusuke partiu antes do amanhecer. Nenhuma despedida. Nenhuma explicação. Apenas ordens curtas, uma escolta reforçada e o som distante dos motores deixando a mansão Kuroda em silêncio. Nicole observou tudo da janela. O peito apertado. Não sabia por que aquela ausência doía tanto. Talvez porque, mesmo distante, a presença dele era constante. E agora… Havia apenas o vazio. Os dias seguintes foram cinzentos. Ela cumpria a rotina. Tomava café com as gêmeas. Estudava japonês. Caminhava pelo jardim. Fazia doces na pequena cozinha. Mas tudo parecia sem cor. Ren percebeu. Sempre percebia. Na terceira manhã, ao encontrá-la sentada sozinha no banco próximo ao lago, ele parou ao seu lado. — Você sente falta dele. Não era uma pergunta. Nicole engoliu em seco. — Não sei. Ren sentou-se ao lado dela. — Sente, sim. E está tudo bem. Ela soltou um suspiro trêmulo. — Eu odeio sentir isso. Ele me machuca… mas eu não consigo ignorar. Ren permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois se levantou. — Vista algo confortável. Vamos sair. Ela piscou, surpresa. — Sair? Pra onde? Ele sorriu de canto. — Você confia em mim? Nicole hesitou. Depois assentiu. — Confio. --- O carro seguiu pelas ruas de Kobe, afastando-se da área nobre. Nicole observava tudo pela janela: pessoas caminhando, lojas pequenas, crianças correndo, o cheiro de comida de rua. Seu coração bateu diferente. Era a primeira vez que via o Japão real. Ren parou em uma rua movimentada, cheia de lanternas coloridas e barracas. — Bem-vinda ao lado que Yusuke ignora. Nicole sorriu pela primeira vez em dias. Caminharam entre as barracas, experimentando doces tradicionais, bolinhos quentes, chás aromáticos. Ren comprou um algodão-doce rosa e entregou a ela. — Pra equilibrar o inferno. Nicole riu baixinho. — Obrigada. Sentaram-se próximos ao porto, observando os barcos balançarem suavemente. — Você não precisa ser forte o tempo todo — disse Ren. — Aqui, pode ser só Nicole. Ela sentiu os olhos marejarem. — Eu sinto tanta saudade da minha família. — Eu sei. — E, às vezes… — ela respirou fundo — sinto falta dele. E isso me assusta. Ren olhou para o mar. — Yusuke não sabe amar. Mas sabe proteger. E quando ele protege, se entrega sem perceber. Ela abaixou o olhar. — Você acha que eu posso mudá-lo? — Não. — Ren a encarou. — Mas acho que você pode lembrá-lo de quem ele era antes do inferno. O silêncio caiu entre eles, leve. Sem dor. Sem medo. Apenas paz. --- Na volta, as gêmeas correram para encontrá-los. — Onde vocês foram? — perguntou Hina, curiosa. — Um passeio secreto — respondeu Ren. Sakura puxou Nicole pela mão. — Você está sorrindo! Ela percebeu naquele instante. E sorriu ainda mais. — Um pouco. Naquela noite, Nicole dormiu melhor. Pela primeira vez desde o casamento. E, em algum lugar do mundo, Yusuke sentiu uma inquietação estranha no peito. Como se algo precioso estivesse acontecendo… Sem ele. --- A noite em Osaka era fria, carregada de uma neblina espessa que tornava os becos ainda mais claustrofóbicos. O galpão abandonado cheirava a ferrugem, mofo e medo. Yusuke Kuroda caminhava pelo espaço como um predador paciente. O terno preto impecável contrastava com o cenário sujo e com os homens ajoelhados no chão, todos tremendo, feridos, alguns chorando em silêncio. Eles haviam traído a Yakuza. E traição não tinha perdão. — Vocês sabiam exatamente o que aconteceria — sua voz saiu baixa, controlada, quase serena. — Mesmo assim, escolheram vender informações para o clã rival. Um dos homens tentou falar. Gaguejou, implorou, prometeu lealdade. Yusuke não piscou. Com um movimento preciso, puxou a katana da bainha. O som metálico ecoou pelo galpão. O primeiro golpe foi rápido. O segundo, mais lento. Não havia raiva em seus gestos. Apenas eficiência. Sangue respingou no chão de concreto, formando poças escuras. Os gritos cessaram um a um, substituídos por um silêncio pesado, quase reverente. Ren observava à distância, o rosto sério, os punhos cerrados. Mesmo acostumado, ainda sentia o peso daquela brutalidade fria. Minutos depois, tudo estava terminado. Yusuke limpou a lâmina com um pano branco, descartando-o em seguida. — Limpe tudo. — ordenou. — Não quero rastros. Ele caminhava em direção à saída quando seu celular vibrou no bolso interno do paletó. Mensagem criptografada. Do chefe de sua equipe de segurança particular. Yusuke abriu. Anexo: 4 imagens. Seu olhar pousou na primeira foto. Nicole. Ela caminhava ao lado de Ren por uma rua movimentada de Kobe, usando um vestido claro, os cabelos soltos, o rosto iluminado por um sorriso que ele raramente via dentro da mansão. Na segunda, Ren segurava sua mão ao ajudá-la a atravessar a rua. Na terceira, eles dividiam um algodão-doce, rindo. Na quarta… Os dois sentados muito próximos em um banco de praça, inclinados um na direção do outro, parecendo um casal comum, íntimo, confortável. Algo perigoso se moveu dentro de Yusuke. Um aperto estranho no peito. Raiva? Ciúme? Possessividade? Ele não soube nomear. A mandíbula se contraiu. Seus dedos apertaram o celular com força suficiente para quase trincar a tela. Ren. Nicole. Sozinhos. Rindo. Leves. Um privilégio que ele nunca concedera a ela. Seu olhar escureceu ainda mais. — Então é assim que você sorri quando eu não estou por perto… — murmurou. Ren sempre fora seu braço direito. Seu homem de confiança. Seu irmão. Mas aquela proximidade… Aquela i********e… Algo dentro de Yusuke rejeitava violentamente a ideia. Não porque amasse Nicole. Ele não amava. Mas porque ela era dele. E ninguém tocava no que lhe pertencia. O sangue ainda quente em suas mãos contrastava com o frio que agora se espalhava por suas veias. — Mantenha vigilância total. — digitou. — Quero relatórios em tempo real. Cada passo. Guardou o celular. Seu olhar voltou para o galpão manchado de vermelho. A morte o acalmava. Mas, daquela vez, nem mesmo o m******e havia sido suficiente. Nicole estava se tornando um problema. Um problema perigoso. Porque despertava nele coisas que ele não controlava. E Yusuke Kuroda jamais permitia perder o controle.
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