2. O medo cheira m@l

1111 Words
Paola Sinto cheiro de vômito. O cheiro é mofado e úmido, como um porão antigo. O frio está penetrando em meu corpo, fazendo meus músculos doerem. — Levante! Meu lado direito dói. Eu gemo. — p***a, levante-se! — É Marcel. Meu irmão. Conheço bem a sensação de sua bota. — Isso não vai ajudar — diz outra voz. Rodrigo. Meu outro irmão. Que é um pouco menos insano. — Não há saída — acrescenta ele, com a voz estranhamente resignada. — Há uma janela — diz Marcel antes de enfiar a ponta da bota em minhas costelas. — Levante-se, seu maldito pedaço inútul de… — Deixe-a em paz, seu i****a. Abro os olhos, viro a cabeça e paro instantaneamente, a dor aguda nas costas. Levanto minha mão para tocar o local, sentindo o impacto enquanto tento lembrar. Lírios no chão. Cacos do espelho quebrando sob meus pés enquanto eu corria. Ou pensei em correr antes que ele me agarrasse. Eu olho para minha mão. O anel desapareceu. Ele colocou no bolso. Estou feliz que meu casamento forçado nao aconteceu. Eu me empurro lentamente para uma posição sentada. O cheiro de mofo, não é só o quarto. De alguma forma, é o véu que ainda está na minha cabeça. A sala gira e fecho os olhos até a tontura passar. Quando os abro novamente, uma sombra escura paira sobre mim. Olha para mim. Marcel. — Já era hora. Olho além dele e vejo Rodrigo sentado do outro lado da sala, com as costas apoiadas na parede oposta. A cabeça de Rael está em seu colo. — Depressa, me desamarre — diz Marcel. Ele foi espancado. Seu lábio está cortado e há sangue e vários hematomas em seu rosto. Ele se agacha de costas para mim. Vejo que as mãos de Rael estão amarradas e as de Rodrigo também devem estar. Eles estão atrás deles. Fui a única que eles deixaram solta. O cetim branco do meu vestido está manchado de sujeira e sangue, a bainha preta e a saia rasgada. Estendo a mão para tirar a renda da minha cabeça, o som dos grampos caindo no chão é muito delicado nesta cela na masmorra. Isso é o que é. Uma cela em uma masmorra. Com três muros de pedra, sendo o quarto uma grade. A janela que meu irmão mencionou é do tamanho de uma caixa de sapatos e alta demais para ser alcançada. É daí que vem a luz. Um ponto de luz na escuridão. Luz do dia. Estou desmaiada desde ontem à noite? Eu me pergunto onde estamos. No porão do complexo onde fui presa pela primeira vez na torre? Eu prefiro a torre. — O que diabos há de errado com você? — Marcel rosna, saliva caindo no meu rosto enquanto ele estica o pescoço. Tenho certeza de que se suas mãos não estivessem amarradas, ele já teria me esbofeteado uma dúzia de vezes. Encontro seus olhos escuros e odiosos. Sem uma palavra, estendo a mão para desamarrá-lo. Sempre obediente. Deus. O que diabos há de errado comigo? Olho para Rodrigo. Ele é um ano mais novo que Marcel. Ele parece triste e, como ouvi em sua voz, resignado. Ele também tem hematomas na mandíbula e sangue seco perto do nariz, mas seu rosto não está tão r**m quanto o de Marcel. — Rael está bem? — Eu pergunto. Rael, nosso irmão mais novo, ainda está desmaiado. — Sim — diz Rodrigo, olhando para ele. — Não por muito tempo, se você não tirar essas malditas cordas de mim — Marcel interrompe. Olho para o nó e volto meu olhar para Rodrigo. — O que está acontecendo? — Eu pergunto. — Fomos traídos. — Ronaldo, meu futuro marido? Ele balança a cabeça. — O seu namorado se foi — Marcel me diz. — Fugiu como o maldito covarde que ele é. — Ele não é meu namorado. Eu o odeio. — Bem, eu também. Tire isso. — Ele aponta para o nó. Estou prestes a concentrar minha atenção nisso quando ouço o som de uma porta se abrindo nas proximidades. A luz cai no espaço fora da cela. Seguem-se passos pesados e ouço a voz de um homem. Outra que reconheço. Uma que faz minha pele arrepiar. — p***a — Marcel murmura, levantando-se desajeitadamente quando os homens aparecem. Os soldados entram primeiro, com armas automáticas nos ombros. Três deles, um deles carregando uma lanterna resistente. Eles inserem uma chave na fechadura e abrem a porta da nossa jaula no momento em que meu tio aparece. Ele está sorrindo como um maldito. Seus olhos caem sobre mim primeiro. Isso faria minha pele arrepiar se eu não tivesse tanto medo. Seu olhar reflete em cada um dos meus irmãos. Ele está barbeado, o cabelo bem penteado para trás e coberto de gel. Posso sentir o cheiro sua colônia daqui. — Traidor de merda — Marcel murmura e cospe em sua direção. Mas não bate nele. Meu tio olha para ele, seus lábios se curvando em desaprovação. — Não é isso que todos nós somos? Mais passos. Olho além do meu tio quando ele se afasta. Mais dois soldados, outro homem que acho que não é um soldado apenas pela atitude casual e pela postura. E então ele. O responsável. Ele não está mais mascarado, mas sei que é ele. Eu reconheceria seus olhos em qualquer lugar. Jamais esquecerei aqueles olhos ou a maneira como olharam para mim. Ele para logo dentro da cela, a grande estrutura ocupando toda a entrada, sugando todo oxigênio. Meu coração dispara ao vê-lo. Ele enfia as mãos nos bolsos. Ele se inclina na direção do responsável e diz algo baixo demais para eu ouvir. Ele está falando italiano, pelo que pude entender. Eu sabia que eles não eram homens do Cartel em lugar algum. Ele está vestindo uma camisa de botão branca e jeans. Casual ao lado do homem de terno que pegou meu anel e de alguma forma me nocauteou. O de terno examina a cela, observando cada um dos meus irmãos e faz todo o possível para não recuar quando seu olhar se fixa em mim. Instintivamente, toco meu pescoço enquanto observo seus cabelos escuros, a sombra de uma barba. A cicatriz ao longo de sua bochecha direita não prejudica suas feições. O oposto. Ele é perigoso. Mortal. Eu saberia mesmo se o visse em um dia normal no mundo normal. Não que eu já tenha vivido uma vida normal em um mundo normal. E mesmo que eu não saiba quem ele é, meus irmãos sabem. Eu vejo isso nos olhos deles. Sinto na ansiedade que emana deles, no medo que domina a sala.
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