Capitulo 01 Lara
Lara Narrando
O cheiro me acordou primeiro.
Não era o cheiro do quarto — limpo, frio, com aroma de cera de chão e concreto novo. Era o cheiro do sonho que ainda grudava em mim como uma segunda pele: leite coalhado, choramingo abafado, suor de criança negligenciada.
No sonho, eu corria. Meus pés descalços batiam em um piso de cimento áspero e gelado. Um corredor interminável, portas de ferro com janelas gradeadas. De trás de cada uma, sussurros, gemidos, correntes rangendo.
Mas o soluço vinha da porta no final. Tinha um risco de giz rosa, desbotado, em forma de coração.
Empurrei. Lá estava ela. Encolhida no canto, vestido de renda branca sujo e rasgado. Os cabelos cacheados escondiam o rosto. Mas eu sabia.
— Mamãe? — a voz era um frêmito.
Meus joelhos dobraram no chão frio.
— Por que você nunca veio me buscar? — ela perguntou, erguendo a cabeça.
Não havia rosto. Onde deveriam estar os olhos, apenas uma névoa pálida e brilhante. Uma silhueta de luz triste.
Estendi os braços. Meus dedos estavam a centímetros daquele vestido podre quando sombras se desprenderam das paredes. Formas escuras de fome e maldade pura. Envolveram-na. O soluço virou um grito agudo, perfurante.
— NÃO! DEIXEM ELA! É MINHA FILHA!
Acordo sentada na cama, o grito ainda preso nos meus dentes cerrados.
A respiração sai aos arrancos. Olho ao redor. Não é meu quarto. É o quarto de serviço na casa grande no alto do morro. A casa do Abutre. Onde eu, Clara Oliveira, sou a nova ama de sua filha Lívia.
Levanto-me, as pernas trêmulas. Vou até o pequeno espelho rachado acima da pia. A mulher que me encara tem vinte e sete anos, mas carrega o peso de setenta. Cabelo loiro sem vida, preso num coque apertado. Olhos azuis — sempre azuis, sempre denunciando — cercados por olheiras profundas. Pele tão clara que parece translúcida sob a luz fria do neon.
E as mãos. As mãos que agora lavam a louça da casa dele, que passam a roupa de sua filha, que fazem o jantar que ele come sem saber quem realmente cozinhou.
As mesmas mãos que seguraram um bebê morto.
As mesmas mãos que empunharam uma faca.
O flashback não vem como lembrança. Vem como afogamento.
Flashback On
SETE ANOS ATRÁS - HOSPITAL
O quarto cheirava a antisséptico e morte disfarçada. Eu tinha vinte anos. Era uma loira que virava cabeças — Lucas dizia que eu era obra de arte. Meu corpo ainda tremia do parto, mas meus braços estavam vazios.
A enfermeira entrou. Rosto de pedra.
— Senhora Lara… complicações… não conseguimos reanimá-la…
Quando trouxeram o embrulhinho de lençol, tão pequeno, tão silencioso, algo dentro de mim quebrou. Desdobrei o pano. Minha Sofia. Pálida como mármore, lábios arroxeados, olhos fechados para sempre. Tinha meus cabelos loiros finos. Era perfeita.
E estava morta.
Abracei aquele corpinho frio contra meu peito. Lucas chorou no corredor. Na época, achei que fossem lágrimas de dor.
Anos depois descobri que eram de culpa. Passo a mão no rosto meio atordoada, sentindo o silêncio da casa me abraça.
DOIS MESES ATRÁS - A DESCOBERTA
A casa cheirava a poeira e mentira. Estava limpando para vender — o lugar onde tudo aconteceu, onde ainda esperava sentir o cheiro de um bebê que nunca viveu ali. O armário da sala estava emperrado. Puxei com força.
Ele saiu da parede com um rangido, revelando um envelope empoeirado.
Dentro: contas não pagas, recibos de agiotas. E no fundo, um papel diferente. Grosso. Com um carimbo.
Entrega de neonata do sexo feminino, saudável, aproximadamente 5 dias de vida, em troca de quitação integral de dívida no valor de R$ 45.000,00.
Fornecedor: Lucas Mendes.
Data: 19 de março de 2017.
— O mesmo dia do enterro da minha filha. — Sussurrei pra mim mesma olhando os papéis.
O mundo inclinou. Sentei-me no chão. Ele não chorou no corredor. Ele negociou. Enquanto eu segurava o corpo frio da minha menina, meu marido vendia outra criança — uma criança viva — para saldar uma dívida.
A raiva foi gelada. Um rio de gelo correu das minhas têmporas, congelando cada nervo.
Lucas entrou às 20h37, como sempre.
— Tem janta? — ele perguntou, sem nem olhar para mim.
— Tem — respondi, minha voz estranhamente plana. — Tem sim.
Coloquei o contrato sobre a mesa.
Quando seus olhos focaram no papel, vi a transformação. O cansaço evaporou. A cor sumiu do seu rosto.
— Quem era a bebê, Lucas?
— Lara, escuta… pode explicar…
— EXPLICAR? — minha voz não subiu. Apenas ficou mais densa, mais pesada. — Você vendeu uma criança. Nossa filha. No mesmo dia que me fez chorar sobre um caixão vazio. Quem estava naquela caixa, Lucas?
Ele engoliu em seco.
— Era… um bebê que não sobreviveu. De um hospital público. — A voz rápida, ensaiada. — Mas pense, Lara! A Sofia está viva! Com uma família que pode dar tudo a ela!
— Onde ela está?
Ele hesitou. Vi o medo nos seus olhos — não medo de mim, mas de algo maior.
— Eu não posso… é gente poderosa, Lara.
— É daqui? De São Paulo?
— Não…
— Então é de onde? — gritei. — ME FALA!
— Não sei, pode ser… do Rio, sei lá — ele cuspiu, como se a palavra queimasse. — Só sei que pagou em dinheiro vivo. Muito dinheiro. Gente assim… é melhor deixar pra lá.
Deixar pra lá. Minha filha. Vendida como mercadoria.
Foi quando ele viu meus olhos. E entendeu. Não havia perdão ali.
Ele empurrou-me, correu para a porta. Eu tropecei. Minhas mãos já estavam se movendo. A faca de cozinha — a mesma que eu usava para cortar legumes para o jantar que ele nunca mereceu — estava sobre o balcão.
Ele alcançou a maçaneta. Eu alcancei a faca.
Quando ele se virou, eu já estava sobre ele.
O primeiro golpe foi instinto. A lâmina entrou em seu abdômen com um som úmido e surdo. Ele soltou um grunhido, de surpresa mais que de dor.
— Lara… — sussurrou, sangue já escorrendo de sua boca.
Não parei. Segundo golpe. Terceiro. Não eram frenéticos. Eram precisos. Metódicos. Cada entrada da lâmina era uma resposta.
Ele deslizou pela parede, deixando um rastro vermelho. Seu corpo caiu no chão. Eu fiquei de pé sobre ele, respirando pesadamente, a faca ainda firmemente empunhada.
Olhei para baixo. Para o homem que eu amara. Seus olhos ainda abertos, ainda surpresos.
Não senti horror. Não senti nojo. Senti… nada.
Então, do vazio, a pergunta:
Quem estava naquela caixa que eu enterrei?
E imediatamente depois, outra, mais terrível:
Onde está minha filha?
PRESENTE - RIO DE JANEIRO
Os dias seguintes foram um borrão. Saí de São Paulo com uma mochila leve: três mudas de roupa, minha identidade falsa, a foto do ultrassom, a faca lavada.
O dinheiro acabou rápido. Procurei em orfanatos, hospitais, bairros pobres e ricos. Mostrei a foto borrada do ultrassom para assistentes sociais cansadas, para policiais corruptos, para qualquer um que parecesse conhecer o submundo.
Mas os dias foram passando diante dos meus olhos, o dinheiro acabou rápido. Procurei em orfanatos, hospitais, bairros pobres e ricos. Mostrei a foto borrada do ultrassom para assistentes sociais cansadas, para policiais corruptos, para qualquer um que parecesse conhecer o submundo.
As respostas: “Isso aí é rede de tráfico, moça. Não mexe.” “Esse carimbo… melhor você sumir.”
Vendi o que restava: anel de casamento (falso), roupas, casaco de inverno. Comprei uma passagem de ônibus para o Rio com o último dinheiro. Uma viagem noturna de doze horas. Não dormi.
Eu jurava anjos da guarda não existiam, mas eu descobri que existia Sim, e Deus não tinha esquecido de mim. Lembro que cheguei na rodoviária Novo Rio. Carregando minha pequena bolsa, me misturei à multidão. Não tinha para onde ir. Não tinha dinheiro para pensão, nem para comida.
Fiquei parada na calçada, a foto do ultrassom na mão, olhando para os morros que engoliam o horizonte. Quantos minutos? Não sei. Até que uma voz:
— Moça? Tá tudo bem?
Virei-me. Uma mulher de cerca de trinta anos, morena, cabelos cacheados presos num coque desleixado.
— Parece perdida.
— Cheguei agora. De São Paulo.
— Tem onde ficar? Desculpa, deixa eu me apresentar, meu nome é Vanda e o seu?
— Nem emprego? — Abanei a cabeça. — Meu nome é Lara.
Outro não.
Ela respirou fundo.
— Escuta… pode passar a noite comigo. É só uma kitnet, mas tem um sofá-cama.
Janice apareceu no dia seguinte. Amiga da Vanda, morava na Rocinha. — Você vai ter que subir — disse, direta. — Lá o aluguel é metade. E tem trabalho, pra quem não tem frescura.
Eu não tinha frescura. Tinha apenas desespero.
Fui com ela. A subida pela Estrada da Gávea foi como entrar em outro país. De um lado, condomínios fechados de São Conrado. Do outro, a parede vertical da Rocinha.
Janice me levou até Dona Lúcia, no centro comunitário. Mulher de cinquenta anos, olhos que pareciam furar qualquer mentira.
— Tem experiência com criança? — ela perguntou.
— Tenho. Já cuidei de várias. Em São Paulo.
Menti com a naturalidade de quem já tinha se tornado outra pessoa.
— Tem uma vaga — ela disse, baixando a voz. — Na casa grande, no ponto mais alto. É para cuidar da filha do chefe. Menina de sete anos, Lívia.
Sete anos. A mesma idade que Sofia teria.
— Quando começo? — perguntei, tentando não parecer ansiosa demais.
— Amanhã. Sete em ponto na frente da casa. E vá com roupa adequada. Nada chamativo.
Passei a noite no quartinho de Janice, olhando para o teto. No dia seguinte, às 6:58, estava diante do portão cinza enorme, com abutres estilizados fundidos no metal.
Às 7 em ponto, o portão abriu com um clique. Marta estava lá, com dois homens enormes ao lado — Xandão e Marcos.
— Entra — disse ela, sem cerimônia.
Atravessei o portão. Ele se fechou atrás de mim com um clique final.
Flashback Off
Me levantei e fui até o canto do quarto onde tinha um espelho, olhei não me reconhecendo, eu já não sou mais a mesma.
— Sete anos Lara, 7 anos e nada. — Falei olhando pra minha imagem no espelho.
A mulher pálida me encara. Passou um mês desde aquele dia. Um mês vivendo nesta casa-fortaleza. Um mês cuidando de Lívia — a menina de olhos cor de mel que me olha com uma curiosidade que corta a alma. Aí não conheço o tal Abutre, fui instruída a não olhar para ele, nem procurar por ele, se ele estivesse no local só abaixa a cabeça e sai. Quem me contratou foi Marcos, durante esses 30 dias eu só tive contato com o Xandão, Marcos, Marta e a pequena Lívia.
Ela não é Sofia. Não pode ser. Eu já coloquei essa certeza no meu coração de que não é ela. Apesar que desde quando cheguei tudo aponta para ela não pode ser como a minha filha veio parar na casa de um Traficante de um dono de Morro.
Mas Deus, como eu queria que fosse.
Me assustei com as batidas vem na porta.
Seca. Autoritária.
Meu coração parou. Meus olhos voltaram para o reflexo no espelho para a porta de madeira maciça.
Não é hora da Marta. Não é hora de ninguém.
A pessoa insistiu batendo mais forte.
Me afastei do espelho indo na direção da porta, minhas mãos se fecham. A respiração trava.
Eu girei a maçaneta.
Continua...
🔥 RECADINHO DA AUTORA 🔥
No Alto do Morro — Uma Caçada Sem Perdão
Se você ama histórias intensas, com segredos perigosos, tensão elétrica e personagens que vivem no limite entre o amor e o ódio… esse livro é pra você.
Aqui você vai conhecer o Abutre.
O dono do morro. O homem que ninguém desafia. Criado no sangue e na pólvora, moldado pela perda e pela desconfiança. Ele não acredita em fragilidade. Não acredita em lágrimas. Não acredita que uma mulher de olhos azuis possa entrar em sua fortaleza sem esconder uma faca atrás das costas.
Ele está certo.
E vai conhecer Lara.
Uma mãe que matou. Uma mulher que perdeu tudo. Sete anos de busca. Uma única pista. E a certeza de que sua filha está viva — em algum lugar, com alguém, respirando o mesmo ar que ela.
Para recuperar o que é seu, ela invade a casa do homem mais perigoso da cidade. E se torna ama da filha dele.
Dois mundos que deviam se odiar.
A caçadora e o rei.
A mentira e a suspeita.
O desespero e o poder.
Um encontro explosivo onde cada olhar pode ser uma armadilha, cada gesto de cuidado pode esconder uma obsessão, e o amor… o amor pode ser o maior risco de todos.
Mas já aviso logo:
Não espere um romance comum.
Aqui tem tensão psicológica.
Tem confrontos que deixam marcas.
Tem beijos na corda bamba da traição.
Tem um segredo capaz de destruir duas vidas.
Esta é uma história sobre até onde uma mãe é capaz de ir.
Sobre o que acontece quando a verdade ameaça tudo o que você construiu.
Sobre encontrar sua filha — e descobrir que o lar que você precisa destruir é o único que ela conhece.
Te espero nas próximas páginas.
Com carinho (e muito suspense),
JM MARTINS
🚨 AVISO LEGAL — DIREITOS AUTORAIS 🚨
Esta obra é fruto da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, lugares ou situações reais é mera coincidência.
🚫 Proibido para menores de 18 anos.
Contém cenas de violência, linguagem imprópria, tensão psicológica intensa e situações destinadas ao público adulto.
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Com carinho (e muito suspense),
JM MARTINS