Luana narrando
Guardo os produtos de limpeza e me deito exausta no sofá. É oficial agora: fiz a primeira faxina do meu apartamento.
Este é um dos apartamentos do meu pai. Ele possui muitos imóveis aqui nos Estados Unidos, os quais foram passados para mim agora. A maioria está alugada e temos um advogado que cuida de tudo, então estou segura.
O lugar já estava todo pronto. Foi um presente que ganhei há dois anos, mas nunca o utilizei porque foi bem na época em que descobrimos seu câncer, e eu quase morei naquele hospital com ele.
Para não ficar pensando em coisas tristes, me levanto e corro para o banheiro para tomar um banho. Decido sair para comer um enorme sanduíche.
[...]
Andando pelas ruas de Nova Iorque, só consigo ver como as pessoas são apressadas e sem educação.
Vejo um amarelinha no meio da calçada e não resisto à vontade de fazer o trajeto pulando. Uma criança ri e aceno para ela.
Ao puxar a porta da hamburgueria, uma mulher bonita passa quase me levando junto. Ela desliga o celular e me tira de perto da porta:
— Me desculpa, está tudo bem?
— Sim, me desculpe, eu não vi que tinha alguém saindo.
— Não, a culpa foi minha. Estou tão atarefada que m*l te vi. Sinto muito.
— Tudo bem. — falo sorrindo sem graça, e ela assente indo embora. Entro e peço um bom hambúrguer para o meu almoço.
Como todo o lanche e sinto que estou mais do que cheia. Pego as batatas e o refrigerante saindo do restaurante. Entrego a comida para um morador de rua e sigo sem rumo.
Eu tenho três metas para este ano, e uma já está cumprida: a primeira era ir morar sozinha, o que já marquei com um "ok" mentalmente. A segunda é arrumar um emprego, e a terceira é ser feliz.
Entro em uma loja de brinquedos antigos e fico olhando as prateleiras. Pego meu celular e decido procurar algum emprego na internet.
Vejo um anúncio que foi publicado há poucos minutos e clico, interessada: "Procura-se uma babá com horário totalmente disponível". Vejo que pagam bem e querem encontrar alguém o mais rápido possível.
Mando uma mensagem interessada e meu currículo. Não tenho muita experiência, apenas fui babá quando adolescente e dava aulas de instrumentos para algumas pessoas. Mas fiquei dois anos cuidando do meu pai, o que acredito que possa ajudar.
Recebo uma mensagem rápida apenas com um endereço:
"Se estiver interessada, me encontre aqui em menos de uma hora."
Leio a segunda mensagem e me assusto com a grosseria. Mas tudo bem, acho que estão apenas com pressa.
Vejo que a rua é perto daqui e saio em direção. Não tenho nada a perder mesmo. Crianças são divertidas e alegres. Têm suas birras de vez em quando, mas com uma conversa e negociação, sempre param.
Paro em frente ao endereço e vejo que é um prédio enorme. Entro e na recepção explico que marquei uma entrevista de emprego e menciono o nome que está no site. Me deixam subir:
— A sala da Melinda é na presidência, último andar. Boa sorte. — ela fala simpática, e sorrio agradecendo.
— Espera! — falo chegando perto do elevador, que estava fechando as portas, mas o homem tatuado me ignora.
— A gente espera o próximo juntos. — outro cara todo tatuado fala ao meu lado. Ele tem cara de ser muito simpático e um sorriso incrível.
— Sim, espero não me atrasar. — falo, e ele ri, estendendo a mão.
— Prazer, me chamo Martin, sim, igual à bebida.
— Prazer, Martin. Me chamo Luana, mas pode me chamar de Lua. — ele ri do meu apelido.
— Qual o andar? — ele pergunta quando o elevador chega, e entramos.
— Eu acho que o último.
— Temos o mesmo destino. Veio falar com minha irmã ou meu pai? — fico confusa com sua pergunta.
— Eu não sei na verdade. Vim para uma candidatura de emprego que acabei de ver.
— Espero que consiga. Vou adorar te ver. — o elevador para, e ele pega na minha mão galanteador, dá um casto beijo e pisca para mim, saindo na frente.
Ando até a secretária, que me autoriza a entrar. Bato na porta e em seguida a abro. Vejo a mulher bonita do restaurante. Todos aqui são tatuados?
— Sente-se, por favor. — ela fala, e eu obedeço instantaneamente. Se essa mulher poderosa me pedir para pular da ponte, eu pulo. — Bem, pelo seu currículo que você me encaminhou, você tem experiência com cuidados e dedicação em tempo integral, certo?
— Sim. — apenas concordo.
— Eu gostei muito de você e acho que nem precisaremos de experiência. Na verdade, eu e minha família estamos desesperados atrás de uma babá. Aqui está o contrato. Leia, por favor.
— Uau, tão rápido assim. O que aconteceu com a última babá? — pergunto, tentando fazer uma piadinha, e ela sorri sem graça e tensa.
Começo a ler o contrato e me assusto.
***
Não acordar antes do horário certo. Ele fica zangado e pode morder.
Meia hora depois de acordado e pronto, você deve sair e correr com ele por uma hora.
Na volta para casa, ele se arrumará e fará as coisas sozinho até o almoço.
Você deve cozinhar as refeições usando apenas ingredientes naturais. Pela falta de açúcar, ele pode ficar mais estressado.
Ajude com o treino da tarde e não o deixe beber à noite ou ter visitas fora da família.
Qualquer serviço adicional será pago, como ficar depois do horário, trabalho aos fins de semana, preparar banho de banheira, massagem, mas isso apenas se você aceitar.
Tente não falar diretamente com o
Max. Ele odeia pessoas novas e o que você está lá para fazer.
Deve morar na mansão durante a semana. Se precisar dos seus serviços à noite, ele pode tentar fugir, mas aos fins de semana, você pode ir para casa se quiser ou se não for necessário a sua presença.
Ele irá tentar te mandar embora, mas ignore.
Pelo trabalho difícil, será pago US$1.000,00 semanalmente para o contratado.
***
Leio um pouco confusa. Eu achei que era para ser babá de uma criança, não de um cachorro.
— Senhora Melinda...
— Me chame apenas de Melinda, por favor.
— Claro, mas eu acho que houve um engano. Estava escrito que era babá, não estava escrito que era para cuidar de cachorrinhos. Mesmo gostando de cachorros, não sei se conseguirei cuidar de um.
— Digamos que é um ser vivo. — ela ri forçadamente, e não entendo. — Por favor, Luana, estamos desesperados atrás de alguém, e será apenas três meses.
— Três meses? Isso é bom. Não quero algo por muito tempo. — penso, mas com ela me olhando é difícil.
— Isso é um sim? — assinto um pouco incerta, e ela me entrega uma caneta para assinar.
— Ah, mas eu nem li as letrinhas pequenas.
— Ah, não precisa. Coisa boba. Pode assinar aqui. — ela indica, e obedeço, fazendo minha assinatura e a entregando, que guarda em uma pasta e sorri.
— E agora? — pergunto, e ela se levanta me abraçando, me deixando toda desprevenida, mas eu amo abraços, então retribuo.
— Aqui sua cópia, minha flor. O endereço está aqui. Amanhã, seis e meia da manhã, eu passo na sua casa para te buscar. Leve as coisas para a semana toda. Meu número está aí, só me mandar por mensagem o seu endereço.
— Tudo bem. — acho que o universo está ao meu favor. Foi tudo tão rápido, e ainda vou receber muito dinheiro.
— Até amanhã, Luana.
— Pode me chamar de Lua. — falo e saio do escritório sorrindo.