Capítulo 07

1219 Words
Mago narrando Assim que cheguei no posto com o chefe desacordado no banco de trás, eu já pulei pra fora do carro e gritei pra todo mundo ouvir. — Rápido, car.alho! — berrei, quase rasgando a garganta. — Traz maca, traz tudo! Ele tá perdendo muito sangue, por.ra! As enfermeiras correram, os médicos apareceram meio atordoados, e eu fiquei ali, parado, sem saber se ajudava ou se saía do caminho. Só conseguia ver o corpo dele sendo levado, a roupa toda ensanguentada, o rosto branco, e aquilo me dava uma sensação horrível. Eu já tinha visto morte demais, mas o chefe? Não. O chefe não podia ser mais um corpo coberto por um lençol branco. — Fica aqui, e qualquer policial que tentar entrar, você mete bala, tá me ouvindo? — falei pro vapor que tinha vindo comigo, segurando firme no ombro dele. — Eu vou colocar esses desgraçados pra fora do morro agora. Ele assentiu, trêmulo, e eu sai correndo. Eu ainda olhei pro posto mais uma vez antes de descer o morro. Senti o sangue fervendo nas veias, o coração disparado. O fuzil já tava quente na minha mão, e a fúria que eu tava sentindo não dava pra segurar. Desci atirando em tudo que era farda azul que aparecia na minha frente. O barulho dos disparos ecoava nas vielas, e o cheiro de pólvora tomava o ar. Eu não via mais nada além do meu objetivo: vingar o chefe e limpar o morro dos vermes que tentaram derrubar a gente. Cada passo que eu dava, eu lembrava do meu coroa. Aquele dia em que perdi ele ainda me assombrava. E agora, vendo o chefe naquele estado, parecia que a história ia se repetir. Só que dessa vez eu não ia deixar. O chefe era mais que um amigo. Era um pai de criação, um exemplo de força, o cara que me tirou da lama e me ensinou a ser alguém. — Nem fud.endo que eu vou perder mais um pai. — falei pra mim mesmo, correndo pelo beco, enquanto o suor escorria pelo rosto e o som das balas zunia ao redor. A guerra durou horas. Foi sangue, grito e desespero misturado. Mas quando os fogos começaram a estourar no céu, eu entendi o recado: a invasão tinha acabado. O morro tava livre de novo. Ajoelhei no chão, respirando fundo, tentando processar tudo. Ainda dava pra ouvir os gemidos dos feridos e o choro de quem perdeu alguém. A guerra tem esse gosto amargo — ninguém ganha de verdade. Peguei o rádio. — Neném, cê vai segurar as paradas no morro, firmeza? Vê as famílias, os feridos, bota ordem na p***a toda, e tira os corpos deles daqui. — Pode deixar, Mago. — ele respondeu do outro lado, a voz cansada. — Se faltar alguma coisa, fala com o Índio, que ele resolve. Índio era meu braço direito. O velho dele era das antigas, se aposentou faz uns anos, e o moleque assumiu o posto com honra. O bicho é sangue bom, leal, e entende o que eu penso só pelo olhar. Depois disso, subi o morro num pique, o coração disparado. O sol começava a nascer, pintando o céu de laranja e vermelho, e cada passo que eu dava parecia mais pesado. Só queria chegar logo no posto e saber do chefe. Entrei apressado, e a primeira coisa que fiz foi encostar no balcão da recepção. — E aí, já faz horas que ele tá aqui. Eu preciso saber como é que ele tá. A enfermeira arregalou os olhos assim que me viu. — Pa-patrão... ele ainda tá em cirurgia, mas eu já tô indo ver com a doutora, tudo bem? — gaguejou, com a voz tremendo. Assenti com a cabeça e vi ela correr em direção à porta que levava pras salas internas. Fiquei ali, parado, olhando pro chão e pensando no que fazer. Peguei o celular do chefe que tava comigo. Pensei em ligar pra filha dele. Ela tava do outro lado do mundo, construindo uma vida longe dessa loucura. Mas aí pensei melhor. Se eu ligasse agora, ia ser só pra preocupar a mina. Eu não tinha resposta, não sabia se o chefe ia sobreviver. Então decidi esperar. Quando eu tivesse notícia certa, eu ligava. O tempo passou devagar. Eu sentei ali na recepção, com o corpo moído e a cabeça a mil. Peguei o celular pra resolver umas paradas, ver se a tropa tava bem, se alguém tinha notícia de ferido grave. O barulho do posto era um vai e vem de passos, gente falando baixo, e o som de um monitor cardíaco apitando lá dentro. De repente, uma voz feminina ecoou do balcão. — Eu tô procurando o chefe. Meu instinto me fez levantar o olhar na hora. Vi uma mina de cabelo cacheado, pele clara, vestida simples, mas com um jeito diferente. Ela não parecia dali, tinha um sotaque estranho. Tinha algo no olhar dela — mistura de medo, saudade e determinação. Dei dois passos na direção dela e perguntei, seco: — Quem é você... e por que tá procurando o chefe? Quando ela se virou pra mim, eu juro que por um instante o tempo parou. A mina era bonita pra c.aralho. O tipo de beleza que a gente não vê todo dia nesse lugar. Olhos firmes, mas com uma doçura por trás. Ela me encarou e respondeu, sem gaguejar: — Eu sou a Natalie. Tô procurando pelo meu pai. Na mesma hora, meu coração deu um pulo. Então era ela. A filha do chefe. Por um segundo eu não soube o que dizer. Fiquei ali, parado, só observando. E antes que eu pudesse responder, a doutora apareceu vindo lá de dentro, tirando as luvas e ajeitando o jaleco. — patrão, ela me chamou, séria. — Precisamos conversar. Assenti e fui atrás dela, sem dizer mais nada pra Natalie. Mas, enquanto caminhava, não consegui evitar de olhar por cima do ombro. A mina se aproximou com aquele olhar aflito, segurando a bolsa com força. Dava pra ver no rosto dela a preocupação, o medo de ouvir uma notícia r**m. — Ele tá vivo, Mago. Mas perdeu muito sangue. A bala pegou de raspão na costela e perfurou um pedaço do fígado. Conseguimos conter a hemorragia, mas ele precisa de repouso absoluto. Fechei os olhos e soltei o ar pesado que tava preso no peito. — Graças a Deus.- falei sentindo um alívio me percorrer — Será que eu posso ver ele?.- a mina pergunta com a voz firme e a doutora já ia responder quando ela continuou.- E se puder também me entregar a ficha da cirurgia eu gostaria de dar uma olhada. — você é o que do paciente? — sou filha, e médica também.- ela fala olhando firme para doutora que só balança a cabeça confirmando e a entrega uma prancheta que estava na mão para ela — é por aqui.- ela fala e a mina são atrás da doutora sem nem olhar pra mim. Eu e o chefe nunca conversamos muito sobre a filha dele, e tudo o que eu sabia era o que ele me contava quando ligava para ela. E agora conhecendo ela de tão perto assim, consigo ver a semelhança entre os dois, principalmente quando é para ser pulso firme com alguém.
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