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Nunca é sempre

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Blurb

A dinâmica entre Bruno e Henrique funcionava muito bem para eles: Bruno sendo o introvertido e sempre a sombra de seu melhor amigo, Henrique sendo o cara popular que todos querem por perto. Ninguém nunca entendeu como a amizade deles durou tanto, mas ela está prestes a ser testada pelo começo da tardia vida amorosa de Bruno, que abala o coração de Henrique. Mas isso é só o começo, os segredos ocultos serão gradualmente revelados, as gavetas da alma serão abertas, e pela primeira vez na vida, Henrique precisará de coragem para enfrentar o que sempre sentiu e Bruno terá que realmente participar da história, o que nunca fez.

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Capítulo 1: Nunca mais irei ao banheiro de uma festa…
Eu estava numa festa de um completo desconhecido, vendo pessoas que só conhecia de vista do colégio. Sentado num sofá, sozinho com um copo de cerveja — que nem lembro onde arrumei — vendo a única pessoa que eu realmente conhecia se divertindo horrores no meio daquele lugar e tudo o que mais queria era ir pra casa; acho que ele percebeu isso e veio até mim. Alto, bem-vestido com sua camisa branca e bermuda preta, cabelo curto mas encaracolado, olhos escuros e sorriso branco, era um cara difícil de não reparar. — Consegue ver o que há de errado aqui? — Perguntou Henrique com a voz enrolada sentando ao meu lado e apontando a nossa volta. — Um bando de adolescentes bêbados dançando música r**m de festa. — Respondi incerto. — E…? — E o quê? — Você é o único sóbrio sentado no sofá! — Ele estava claramente indignado. — Cara, você também tá sóbrio. — Respondi rindo e balançando o copo com minha cerveja intocada. — Não, não to! — Disse e pegou meu copo e, com um gole, bebeu toda a cerveja que tinha nele, fez uma cara de nojo. — Tá quente. — Ele olhou pra mim apontando o dedo no meu peito. — Bruno, você devia estar se divertindo também, vamo cara! — Vou ao banheiro… — Falei enquanto me levantava. — Beleza, quando voltar a gente vai se divertir! — É, claro, vamo vê o que acontece… — Murmurei irritado. — Como assim “vamo vê o que acontece”? — Ele perguntou rindo. Não respondi, apenas fui em direção ao banheiro. Por que ele continua me trazendo a essas festas? Pensei, eu sempre acabo arrumando uma desculpa e indo embora mais cedo. Passei as férias só indo em festa ou saindo com os amigos do Henrique, tava cansado já, tudo o que eu queria era ficar em casa, ler, assistir alguma coisa… Como alguém tão caseiro como eu vira amigo de um cara como o Henrique? Pior, como uma amizade dessa dura quase 10 anos? Andando por aquele apartamento enorme na Barra da Tijuca, fiquei imaginando o quão popular uma pessoa tem que ser pra fazer tanta gente da escola estar ali, a maioria ali morava longe; eu e o Henrique moramos em Realengo por exemplo. Não era longe de carro, mas de ônibus levava uma hora e meia. Sinceramente, passaria horas no ônibus para voltar para casa feliz, se isso significasse não ouvir mais música do t****k. Finalmente achei o banheiro, entrei, tranquei a porta e fui mijar; reparei que o banheiro era tão grande quanto meu quarto, tinha até uma banheira. Cortina legal, peixes-palhaço… Um dos peixes-palhaço começou a balançar, minha alma quis sair do corpo por um momento. Fechei as calças, lavei as mãos, fui até a banheira e puxei a cortina, foi assim que conheci Alan. * Naquele momento eu não fazia ideia do que fazer, tinha um cara, moreno, cabelo preto e liso, só de cueca boxe desmaiado dentro da banheira, com várias latas de cerveja ao seu redor dele, o nome “Alan” estava escrito na testa dele em azul. Talvez nem fosse o nome dele, talvez fosse uma brincadeira estilo Toy story que a gente escreve nosso nome no que é nosso. Olha só encontrei o Woody de alguém… Ele começou a se mexer e abriu os olhos, olhos castanhos, por um momento sem parecer saber o que tava acontecendo, nem o próprio nome parecia saber. — Quem… É você? — Ele resmungou, se sentando devagar. — Eu sou o Bruno, você se chama Alan?  — Aham… Como cê sabia? — Ele começou a sair da banheira, deixando as latas de cerveja para trás. — Digamos que está escrito na sua cara. — Falei apontando pra testa dele. Ele foi até o espelho e viu sobre o que eu estava falando, começou a rir e olhou pra mim. — Sabe quem fez isso? — As sobrancelhas dele estavam levantadas, fazendo seu nome enrugar um pouco. — Não faço ideia. — Dei de ombros. Ele começou a tentar lavar, enquanto eu ia em direção a porta, senti algo segurar meu braço, me virei e vi um Alan bêbado e desesperado. — Essa m***a não tá saindo, me ajuda! Mas que c*****o… Pensei irritado, mas como sou uma boa pessoa, revirei os olhos e perguntei onde tinha álcool, ele pareceu não entender e olhou pra banheira cheia de latas de cerveja. — Álcool 70%, isso ajuda a remover tinta de caneta. — Falei abrindo o armário embaixo da pia. — Ah, acho que tem aí sim, como você sabe disso? Que álcool remove tinta de caneta? Já dormi muito em aula, as crianças não gostavam muito de mim, pensei. — Sei lá, só sei. — Respondi sem muita convicção. — Aqui, achei! Peguei uns pedaços de algodão, passei álcool e fui tirando o nome dele da testa, ainda dava pra ver que tinha algo escrito, estava meio apagado, mas diria estar melhor que antes. — Olha não dá pra tirar tudo, mas já saiu uma boa parte, olha. — Falei gesticulando pro espelho. — Nem dá pra ver mais, valeu carinha. — Ele olhou em volta e pegou umas roupas que estavam no chão. — Sabe, geralmente isso aqui se classificaria como um encontro. — Sério? — Perguntei surpreso com aquela afirmação aleatória — Por quê? — Bom… Estamos no banheiro da minha casa, estou só de cueca e você passou álcool na minha testa com bastante carinho. Então vamos dizer que já tivemos nosso primeiro encontro, quando teremos o segundo? Ele só pode ta zoando. Pensei, e comecei a rir — Ok, essa foi boa, quase acreditei. — Fui em direção a porta. — Ótimo te conhecer Alan. Antes que ele pudesse fazer qualquer outra piada i****a, eu saí do banheiro e voltei pra sala, Brenda me interceptou antes que eu pudesse voltar ao sofá. — Henrique tá te procurando… Eu não sou garota de recados, checa a p***a do seu celular! — Brenda disse, sempre tão delicada. — Beleza, onde ele tá? — Peguei o celular e percebi que ele tinha mandado umas 5 mensagens, quanto tempo fiquei no banheiro? — Sei lá, só sei que não tá comigo. — Brenda virou um copinho de vidro que parecia ter algo mais forte que cerveja, suspirou e me olhou com desdém. — Como um cara baixinho e sem graça como você consegue ter Henrique só pra você? É difícil ser um cara de um metro e 68, fico grato pelas palmilhas de 5 centímetros. Pensei melancólico. — Eu vivo me fazendo essa pergunta… Se você gosta tanto dele, por que não passa mais tempo com ele? Eu não iria atrapalhar. Ela pareceu se iluminar com o que eu disse. — Vai me ajudar a ficar com ele? — Não vou ficar no caminho, nem me intrometer, é isso que tô dizendo. — Falei procurando Henrique com os olhos, ele estava rindo no meio do grupinho dele da escola. — Ele ali, vou lá falar com ele e… Alguém me puxou pelo braço, levei alguns segundos para entender o que estava acontecendo; Alan, vestido com uma camisa azul ao contrário, jeans desabotoado e o nome “Alan” quase totalmente apagado da testa, me segurou de frente pra ele. Antes que pudesse perguntar o que ele estava fazendo, ele me beijou. Ele me segurava pelos braços com firmeza, me beijava com intensidade, a língua dele parecia dançar na minha boca, o corpo dele estava pressionado contra o meu e eu estava sem ar e sem reação. Eu ouvi as pessoas começarem a falar mais alto que a música, mas eu não estava em condições de dar atenção a nada disso, estava de olhos fechados apreciando meu primeiro beijo. Meu primeiro beijo aos 16 anos… Numa festa, sábado à noite, com um cara que m*l conheço. Pensei. — Que do nada, quem é esse cara? — Ouvi a Brenda murmurar, com voz enrolada. — Henrique? Senti alguém empurrar o Alan pra longe de mim e me segurar pelos ombros, olhei para trás, era o Henrique. Ele tava puto, parecia que ia começar uma briga. Alguém pausou a música da festa, e todos os olhos estavam em nós. — Quem caralhos é você e que p***a cê acha que tá fazendo com meu amigo? — Ele me pôs atrás dele e parecia se preparar pra meter a p*****a no Alan. — Calma aí, calma! — Falei rapidamente e imediatamente ficando no meio deles, me virei pro Henrique e sussurrei pra ele. — Esse maluco é o dono da festa, ele só tá bêbado, deixa ele. — Você conhece esse cara? — Alan perguntou, ele parecia se divertir com essa situação. — Eu que devia perguntar isso! — Henrique fez como se fosse partir para cima dele e o segurei. — Esse é o Alan, eu o conheci… no caminho do banheiro. Alan, esse é meu amigo Henrique — Falei sentindo meu rosto queimar. — Prazer em conhecê-lo Henrique. — Alan estendeu a mão. Por um momento Henrique pareceu que não iria cumprimentá-lo, mas as pessoas começaram a falar e cochichar, então ele cedeu e se fez educado naquela situação. — Prazer. — Ele disse seco e apertou a mão dele. A música voltou a tocar, as pessoas voltaram a curtir, mas algumas ainda olhavam para nós com curiosidade. Brenda estava me olhando com surpresa e certo prazer nos olhos, Henrique olhava fulminante pro Alan, Alan olhava para mim. — Então, desculpa o susto, é que você foi embora do nosso encontro tão rápido, nem me deu um beijo de despedida. — Alan disse e riu. — Que p***a cê ta falando? — Henrique perguntou a ele e depois olhou pra mim de forma questionadora. — Ah… É uma piada… Interna nossa. — Eu disse rindo com desconforto. Me virei pro Alan. — Hm… Eu… Vou nessa. — Mas já? — Alan perguntou sentido. — Não vai nem me passar seu número? Nem precisava olhar pra trás pra saber a reação do Henrique dessa pergunta. — Ah… Eu… Esqueci o celular. — Falei, meu rosto devia parecer um tomate agora. — Ele tá na sua mão… — Brenda sussurrou rindo. Tanto eu e o Henrique olhamos pra ela com raiva. Alan ri da situação. — Que foi? — Ela perguntou sonsa — Ok então. — Me virei pro Alan e passei meu número. — Valeu baixinho, até uma próxima. — Alan se afastou e foi em direção a cozinha. — Não acredito que você deu seu número pra esse folgado. — Henrique disse contrariado. — Ele parece ser legal. — Disse Brenda com um sorriso cínico. — E você Henrique foi um baita empata-f**a. Antes que Henrique dissesse alguma coisa, eu comecei a ir em direção a porta. — Eu vou embora, se divirtam os dois. — Falei olhando por cima do ombro. Brenda piscou pra mim e sorriu enquanto me afastava deles, passei pelas pessoas apoiadas na entrada do apartamento e senti elas cochichando sobre mim. Sério, tudo o que eu precisava agora pensei; apertei o botão do elevador e esperei; aproveitei pra chamar um carro enquanto o elevador subia. — Bruno! — Ouvi a voz do Henrique me chamar. Me virei e ele estava vindo até mim. — Oi, valeu por trazer e tals, mas eu… — Forcei um bocejo. — Tô bem cansado, sabe? — Te levo em casa, vamo chamar um carro! — Ele falou sacando o celular. — Não, eu já chamei, fica e curte um pouco. — Me lembrei da Brenda. — Sabe, a Brenda parecia meio chapada, não liga pro que ela diz, melhor cuidar dela. — Mas… E você? Tá de boa? — Ele estava genuinamente preocupado. — Ah, eu tô bem, fui beijado por um desconhecido numa festa, isso não é normal na nossa idade? — Eu dei uma risada sem graça, ouvi o elevador abrir e entrei. — Não foi r**m, sabe? A gente se vê na escola segunda, não se preocupe comigo. — Ok, qualquer coisa me liga, en? — Claro! — As portas se fecharam e respirei de alívio. Me olhei no espelho do elevador, um cara baixinho com palmilha de 5 centímetros, cabelo castanho-claro sem um bom corte, cortarei amanhã essa p***a, pensei; camisa larga com estampa de filme cult, será que o Alan já ouviu falar de “Planeta fantástico” pensei, Alan… Na saída do prédio o carro já tinha chegado, antes de entrar, olhei pra cima, para varanda de onde ainda estava acontecendo a festa, tinha alguém ali olhando pra mim… Pra mim? Será? Talvez eu esteja paranoico, pensei. Entrei no carro e fui pra casa.

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