Heloísa Britto
Tudo começou com um gole de cerveja num barzinho próximo de Paraisópolis o meu pai estava furioso comigo, ele pediu para decorar um texto e falar no leilão beneficente do BKB eu recusei e não compareci ao salão principal, ele passou uma vergonha enorme e o pior foi ver eu saindo do lugar aos seus gritos. Sentei-me numa cadeira de aço e pedir uma Brahma gelada, os olhares de homens depravados sentados na redondeza do bar cercavam-me, não julgo, eu perto de uma das maiores favelas do Brasil usando um vestido de grife e um colar banhado a ouro, seria impossível não olharem.
Tomei-lhe um gole da cerveja gelada com os olhos fechados. Ah! Eu precisava deste momento sozinha. Quando abri os olhos eu o vi chegar, um homem másculo e sem camisa, apenas com uma jaqueta de couro preta, ele deixava à mostra o seu peitoral definido com um tanquinho de invejar e uma tatuagem tribal que cobria todo o seu peito esquerdo. Ele é muito alto, o seu rosto não era muito juvenil, com certeza havia passado dos 30 anos, os seus cabelos castanho-claros mantido por um corte curto, olhos verdes e muito atraente. O homem desceu de uma moto honda CB 300R dourada e passou por mim indo até o balcão.
Como assim ele não me olhou? Como não notou a minha beleza? Foi o único homem que não me notou neste bar de copo sujo. Admito, isso deixou-me exc.itada e pensativa, um homem como ele andando numa moto de onze mil reais e sem capacete? Dava pra ver que ele era uma pessoa importante por aqui.
- O mesmo de sempre o seu João. - sua voz grave foi ouvida por todos no bar.
- Seus homens andam bebendo demais, cuidado. - o velho entrega dois fardos de cerveja dentro de uma bolsa transparente. - Uma hora os cães da lei bate lá em cima e leva todo mundo!
- Seu João... Eu já falei milhares de vezes, pra polícia invadir o nosso lar precisa passar por cima do meu cadáver!
- Cuidado Louro, o pior erro do homem é ser orgulhoso demais.
- Qual foi seu João? Fica sussa aí e deixa o resto com nós! - ele passa por mim na mesa e dá dois passos para trás.
O meu corpo estremeceu, mas a única coisa que ele fez foi retirar um latão de cerveja da bolsa e colocar sob a minha mesa, depois encarou o meu rosto com aqueles olhos verdes, deu uma piscadela e seguiu o seu caminho.
- Acha que não posso pagar mais uma cerveja? - quando disse isso todos me encararam preocupados.
- Como? - o homem alto colocou a bolsa na garupa da moto e voltou para frente da minha mesa.
- Deixou a cerveja na minha mesa, porquê? Pensa que não tenho mais grana pra pagar outra?
- Acho que a patricinha entendeu errado, eu te achei muito gata e dei a cerveja como presente. - ele sorriu frouxo.
- Entendi... Então é mais um homem fingindo ser o fo.dão na frente dos outros! - levantei-me da mesa e deixei uma nota de cem em baixo da lata que tomei. - Fique com o troco ''seu João''. - passei por ele sem encarar os seus olhos novamente.
- Que isso Louro, deixou uma novinha te humilhar em! - escutei alguns homens do bar rindo da sua cara.
Depois daquele dia eu visitei o bar com mais frequência, eu queria ver aquele rostinho sensual e aquele corpo selvagem, mas foi perda de tempo. Sempre aparecia outro homem, com o nome ''Davi'' ele pegava as cervejas, montava na moto e subia o morro da favela. Talvez o destino quisesse pregar uma peça, pois aquele homem não saía da minha cabeça, procurei por dias as suas redes sociais com o nome ''Louro'' afinal, era a única pista que tinha sobre ele.
- É assim que somamos o capital para ver se as finanças subiram mais neste mês, assim o prejuízo é menor... Heloísa, está prestando atenção? - meu pai encara o meu rosto que viajava olhando para a tela do computador.
- Sim. - respondo saindo do devaneio. - Não podemos ter nenhum prejuízo. - sorrio e ele revira os olhos.
- O que aconteceu? Vai fazer 24 anos em breve, precisa ter responsabilidade para governar isso tudo!
- Papai, o senhor sabe que gráficos, planilhas e finanças não combinam comigo. - levanto da sua poltrona de couro marrom e saio andando pela sala.
- Mas precisa combinar, estamos falando de bilhões e que no futuro precisa atingir trilhões, então governe isso com mais atenção e carinho.
- Certo... - suspiro com as mãos na cintura e escutamos a porta bater.
- Pode entrar. - ele responde e em seguida o homem que mais tenho evitado aparece.
- Olá senhor Britto! - o moreno passa por mim e aperta a mão do meu pai.
Miguel Fortunato, um dos empresários mais galã do Brasil, solteiro aos 28 anos é um homem egocêntrico e bastante inteligente. É formado em direito e administração, fala cinco idiomas diferentes e quando completou 25 anos assumiu o lugar do pai sendo um dos principais sócios da Petrobras e atualmente se tornou CEO de uma empresa de colchões ortopédicos da marca ''Orthofrin''. Eles são podres de ricos, temos quase a mesma quantidade de patrimônios. É um homem bonito, cabelos castanhos escuros com um corte social que exibe um topete de gel, barba rala, olhos castanhos mel e pardo.
- A família Fortunato está fazendo uma estadia por São Paulo? - meu pai pergunta com um sorriso largo.
- Na verdade estamos pensando em nos mudar pra cá, a maior fábrica da Orthofrin fica aqui, então...- o moreno se vira e encara os meus olhos com um sorriso largo. - Como você está senhorita? - ele se aproxima e beija a minha mão.
- Eu estou ótima, como anda os negócios da família, Miguel? - sorrio torto e ele só confirma com a cabeça um ''sim''.
- Está tudo como deveria ser.
- Mas sente-se Miguel, vamos tomar um whisky juntos... Querida, pode ir a nossa aula acabou por hoje.
- Certo, com licença. - sorrio de leve e saio daquele lugar sufocante.
Poderia passar no bar antes de ir embora pra casa, mas acredito que a chance de ver aquele homem outra vez não vai acontecer, então saio da empresa e caminho pelo estacionamento em busca do meu carro quando de repente uma moto para na frente do veículo. Ele retira o capacete e consigo ver o seu rosto mais uma vez.
- Então você voltou mais vezes no bar...- ele sorri frouxo.
- Não seja convencido, eu apenas gostei do lugar. - digo com os braços cruzados.
O homem desceu da moto e deu alguns passo ficando há poucos centímetros de mim, ele me puxou pela cintura fazendo nossos corpos se chocarem.
- Vou te dizer uma coisa, mulher nenhuma falou daquele jeito comigo...
- Tudo tem a sua primeira vez. - respondi com um sorriso debochado.
- Afrontosa… É uma das coisas que gostei em você. - ele sorri encarando os meus lábios.
- Ah, é? - indaguei relando o meu nariz no dele. - O que mais você gosta em mim? - sorri provocando.