Heloísa Britto
O homem na minha frente tomou-me nos seus braços e me beijou sem pensar duas vezes, ele agarrou a minha cintura e segurou o meu pescoço enquanto as nossas línguas dançavam dentro da minha boca. Que beijo maravilhoso! Ninguém havia me beijado com tanto calor e carência, a sua mão que me segurava passeou pelas minhas costas, a sua boca separou da minha e desceu pelo meu pescoço sugando devagar e fazendo eu soltar leves gemidos.
- Ei! - empurrei ele quando percebi que o mesmo puxava a minha blusa de malha pra cima.
- Qual foi gata? Você estava gostando...- ele mordeu os lábios e tentou me beijar novamente.
- Tá maluco? Ia tirar a minha blusa neste estacionamento?
- Claro, pensei que a gente podia continuar dentro do seu carro.
- Com câmeras? O meu pai vai me matar se ver alguma filmagem dessas. - apontei o dedo para cada câmera visível.
- É verdade... Esqueci por um momento que é filha do dono. - ele passa a mão nos cabelos e suspira, só aqueles movimentos me fizeram derreter toda, se ele continuar no meu caminho não vai ter jeito... eu vou dar pra ele. - Misericórdia, Heloísa! - balancei a cabeça tentando fazer os meus pensamentos sumirem. - Espera, como sabe que sou filha do dono?
- Bom, digamos...- ele encara o chão com as mãos no bolso da jaqueta. - É que...
- ''É que...'' o quê? - indaguei com as mãos na cintura.
- Tu me fez passar as vergonhas lá, na cara de todo mundo... Eu puxei uma ficha sobre você por causa do colar que usava, eu sei que é banhado a ouro.
- O meu colar?
- Sim, com o nome Heloísa Britto, eu pesquisei mais... Na verdade, eu mandei os meus caras pesquisarem e encontraram tudo.
- Hum...- sorri de lado e me aproximei pegando na gola da sua jaqueta e encarando os seus olhos sob os meus. - Então o jeito que eu te tratei m*l foi o suficiente para procurar sobre mim? Não sabia que era sadomasoquista.
- Sado.. o quê? Calma lá! Tá me tirando? É uma mulher bonita, se pá! Atraente... mas é filha de um cara muito amigo da polícia.
- Como? - perguntei pensativa.
- Eu vi o seu papaizinho abraçando um tenente da marinha.
- Ah, o meu tio Geraldo! - sorrio. - Ele é irmão mais velho do meu pai.
- Tá vendo?! Eu sabia que era furada vim atrás de tu...
- Por quê? Não gosta da polícia? - perguntei com um sorriso irônico.
- Sério que não manjou nada até agora? - ele perguntou gargalhando da minha cara.
- ''Manjei'' o quê?
- Digamos que eu seja quase igual o seu pai... a diferença é que eu mando em toda Paraisópolis.
- Como? - me afastei dele com as mãos trêmulas.
Eu acabei de ter pensamentos ardentes com um bandido? Ou pior! Acabei de ter dado o melhor beijo da minha vida com um marginal?
- Eles me chamam de Louro, eu sei quem sai e quem entra naquele lugar e principalmente quem faz ronda por perto. - ele sorri se vangloriando. - Eu construí aquele império, sou o chefe, decido o destino de quem pisa lá... Por isso o esquema da polícia, sou procurado há mais de seis anos, mas sabe como é... Ninguém tem coragem de tentar me prender, pois até mesmo agora estou acompanhado pela minha gente. - ele se vira e quando olho na mesma direção, vejo dois moleques numa moto com o rosto coberto pelo capacete e roupas pretas.
- Deveriam ir embora... Eu sou uma pessoa que segue às leis desde que nasci, fui educada, falo mais de três idiomas diferentes... Eu sou uma mulher de prestígio e princípios. - saio andando, mas ele agarra o meu braço.
- Eu sei Helô... posso te chamar assim?
- Não, não pode. - me afasto saindo de suas garras. - É melhor ficar longe, caso contrário faço um escândalo e chamo a polícia!
- Calma, eu não vou te machucar, nem vou machucar a sua família de prestígio e princípios...- ele se aproxima de mim novamente e trinca o seu maxilar, os seus olhos passeavam pelo meu rosto, ele queria me beijar novamente, conseguia sentir. - Você é uma mulher que não deve se envolver com qualquer homem, certo? - o loiro sorriu e colocou uma de suas mãos no meu ombro. - A verdade é que eu tô amarradão em você, eu te quero pra mim...
- Lamento, não sou um objeto. - sorrio de leve. - Nem tudo que queremos, podemos ter.
- Você é mais que uma simples mulher, é uma joia rara! Sei lá pô! Ninguém levantou a voz pra mim antes, é uma mulher indomável e é disso que o Louro, o dono do morro precisa... De uma mulher que me dome quando eu precisar. - ele sorriu largo.
- Que estranho, sempre pensei que homens feito você, seriam machistas e que nunca aceitariam ser mandados por uma mulher.
- Mas eu sou assim, mulher nenhuma manda nas minhas decisões, pelo ou menos eu pensava ser, até te ver naquele bar maravilhosa e cheirosa daquele jeito...
- Eu confesso que você também me chamou atenção. - sorrio de leve e ele gira ficando atrás de mim.
- Eu lhe agradei, foi? - o mesmo sussurra rente ao meu ouvido e faz o meu corpo arrepiar.
- Sim... Mas o seu jeito de falar e a sua má educação, faz mulheres como eu perder o interesse... Agora se me der licença, eu preciso sair com o meu carro.
- Essa nave é sua? - ele questiona encarando a minha BMW preta de quatro portas.
- E isso é da sua conta? - indaguei entrando no carro e fechando a porta. - Anda, como vocês falam no seu morro ''circulando''! - coloco os meus óculos escuros e buzino até ele avançar com a moto pra frente e liberar o caminho.
Acelero e deixo o tal Louro comendo poeira. Então ele é dono do morro? Francamente...quando eu penso que encontrei alguém para assumir as rédeas do meu coração, descubro que é um traficante, bandido, dono de morro, ou sei lá! Ele pode ser isso tudo e ainda por cima um assassino de sangue-frio. Mas aquele corpo e aquela pegada, ele não parece ser um homem burro... O que foi que ele falou mesmo?
''Você é mais que uma simples mulher, é uma joia rara! Sei lá pô! Ninguém levantou a voz pra mim antes, é uma mulher indomável e é disso que o Louro precisa.''
- Ui, só de relembrar o meu corpo já estremeceu...- gargalho com a mão no volante. - Heloísa, Heloísa... Como diz a minha mãe ''tome jeito, garota''!