Leonardo da Silva
Eu fui abandonado nas ruas de Paraisópolis há vinte e sete anos atrás, eu havia completado cinco anos, estava com o estômago amarrado nas costas de tanta fome. Os meus braços eram finos e a barriga redonda feito um melão, desidratado a única coisa que pensei em fazer foi roubar uma coxinha na venda de dona Ana. Ameacei furtar no meio da tarde quando o movimento era maior e ela deixava a caixa térmica aberta enquanto vendia os seus salgados para alguns turistas, o plano falhou e ela me pegou pela orelha e saiu puxando até a sua casa, me jogou no sofá e foi pra cozinha.
Eu ouvi a história de João e Maria algumas vezes pelos outros moleques abandonados na rua. Pensava que ela estava preparando a panela para cozinhar-me, senti o cheiro do alho queimando e comecei a delirar de preocupação, não tinha mais jeito, eu ia precisar implorar pela minha vida e assim fiz. Parei em frente a mulher que mexia na panela com uma concha e a outra mão livre estava na cintura sob o seu vestido floral de malha fina, me ajoelhei e agarrei suas pernas escondendo o meu rosto.
- Por favor senhora, me deixa viver! Eu sou muito novo para virar sopa, por favor! - disse com os olhos fechados e corpo tremendo de medo.
- Virar sopa? Tu vai virar é coxinha! - eke gargalha e me empurra pra longe com o pé. - Agora fique em silêncio e tire a roupa!
- Tirar a roupa? - questionei com os olhos marejados.
- Claro, vou te cozinhar com essa roupa suja? Ia deixar m*l gosto nas coxinhas! - ela gargalhava e isso só me deixava mais preocupado, entretanto eu não tinha escolha, tirei a minha roupa e fiquei só de cu.eca na frente dela. - Ótimo, tem shampoo e condicionador no banheiro, tome um banho quente e lave muito bem esse corpo. - ela se abaixou e passou a mão no meu rosto vendo a sujeira. - Quando acabar de tomar banho me avise, vou te dar um par de roupa para vestir.
- A senhora não vai me cozinhar? - indaguei limpando as minhas lágrimas.
- De onde tirou essa asneira, menino? Eu vou terminar de esquentar a sopa de macarrão com salsicha, coma tudo e beba um suco de laranja que vou deixar em cima da mesa.
- Aonde a senhora vai?
- Pra onde iria? Pra venda, claro! O meu funcionário não consegue vender tudo sozinho.
- Entendo, muito obrigado... Quando eu acabar juro que vou embora e a senhora nunca mais vai me ver! - sorrio largo.
- Ei, você não entendeu? - ela se abaixou novamente e passou a mão na minha cabeça. - Eu vou cuidar de você menino, amanhã bem cedo vamos ao cartório, vou fazer de tudo para registrar o seu nome, arrumar as pepaladas e te mandar pra escola.
- Eu não vou pra escola! - digo com os braços cruzados.
- Você vai sim! Vai aprender tudo sobre educação, filho meu não é burro! - ela se levanta e dá um chute de leve no meu bum.bum. - Agora vai, se não eu vou te cozinhar de verdade!
- Já estou indo! - saí correndo até o banheiro.
Ana da Silva, a mulher que colocou o seu sobrenome numa criança desconhecida, a dona Ana havia perdido o filho há três anos antes de me conhecer por uma bala perdida da troca de polícia contra o pessoal do morro, ela me educou e permaneceu ao meu lado até eu completar vinte e dois anos e conhecer o mundo do crime. Eu comecei a ganhar uma grana boa, consegui comprar uma moto e logo em seguida uma casa, ela nunca me apoiou e disse que esse não era o filho que ela criou desde criança. Me deserdou quando soube que havia tornado dono do morro, desde então vivo numa casa grande, bem decorada e sozinho.
Eu pensei que jamais iria conhecer alguém que me fizesse voltar a viver, os meus dias eram só pra manter ordem no morro, mas desde que cruzei com aquela mulher no bar, o meu coração deu uns bagulho estranho, eu nunca senti nada assim por outra mulher e olha que muitas já passaram por essa casa e por essa cama.
- Heloísa Britto...- sussurrei jogando o corpo na cama.
- Atenção, Louro na linha? - escuto o Davi me chamar pelo rádio comunicador.
- Fala Gavião. - respondo no mesmo instante.
- A moça que o chefia estava mais cedo... ela tá subindo o morro na garupa do Lucas, a moça quer ver o Louro, câmbio.
- A Heloísa tá aqui? - levantei da cama com um sorriso largo. - Então a morena não conseguiu me esquecer tão fácil...
- O que a gente faz? Câmbio.
- Como assim "o que a gente faz?", Davi? Manda o Lucas deixar ela na porta do meu barraco, não quero vocês me incomodando enquanto estiver com a gata, ouviu?
- Deixa comigo, chefia! Câmbio desligo.
Heloísa Britto
Eu passei a tarde inteira sem fazer nada em casa e a minha mãe não estava, saiu cedo com as amigas para ''um dia de shopping''. Eu não conseguir tirar o tal Louro da minha cabeça, ele me pediu em namoro com apenas um beijo? Não vou negar que tenhamos uma boa química, mas virar mulher de traficante?
- Só de imaginar uma patricinha como eu sendo mulher de um traficante e herdeira do império do meu pai... - gargalho alto dentro do meu quarto.
Estou sempre seguindo leis e obedecendo às regras do meu pai, entretanto, ficar o dia todo encarando a tela do computador não é algo que me interesse tanto. E se eu me envolver com ele e não gostar? Ele vai deixar eu ser uma mulher livre? E com cabelo pelo amor de Deus! Aquele beijo, foi um beijo tão puro... Nunca tive tempo para relacionamentos, nos meus tempos livres estudava, praticava piano, balé e outras línguas.
- Eu tenho tantas perguntas e o único que pode respondê-las é o tal Louro. - respiro fundo e encaro o meu guarda-roupa.
Não posso chamar tanta atenção, Paraisópolis é considerado um lugar perigoso. Visto uma blusa simples vermelha, visto uma calça jeans escura, calço uma bota de cano fino preta e uma jaqueta jeans. Amarro o meu cabelo em r**o de cavalo, passo uma make básica e um batom nude.
- Não consegui encontrar nenhum horário de ônibus pelo site, vou ir de Uber. - sorrio pegando o meu celular e um cartão de crédito.
Coloco o cartão na capa do celular e no bolso da calça, chamo o carro pelo aplicativo e o motorista não demora muito para chegar em frente a mansão. Finalmente vou conhecer o local aonde o Louro mora, afinal preciso perguntar o nome dele, não quero chamá-lo de ''Louro'' é muito brega!
- A senhorita trabalha naquela mansão? Foi liberada mais cedo do trabalho e tá indo pra casa, né? - o motorista sorriu me perguntando.
Ótimo! Se ele acredita que sou uma empregada, significa que as roupas estão corretas.
- O senhor conhece Paraisópolis?
- Claro, eu moro lá com a minha família. - o homem sorri pelo retrovisor.
- Paraisópolis é um lugar tão perigoso, né? - sorrio distraída. - Eu moro lá e diariamente presencio uma tragédia.
- Então a senhora está morando em outro bairro. - o homem gargalha. - É uma favela sim, tem os homens que se acham donos, mas se não fazemos nada errado, conseguimos viver em harmonia, ela tem as suas belezas.
- Ah...sim, é verdade. - sorrio de leve.
O motorista inicia o trajeto dentro da favela quando avisto um homem na moto sem capacete, é o cara que buscava as cervejas no bar!
- Senhor, aqui já está bom. - passo o cartão e saio do carro. - Ei! - aponto o dedo para o moleque e quando me aproximo ele encara o meu corpo de cima até em baixo.
- Desculpe, mas se tran.samos eu não me lembro. - ele responde dando uma tragada no cigarro de um amigo ao seu lado.
- Sai fora! Eu quero ver o seu chefe o Louro! - digo e todos ao redor me encaram boquiabertos.
- Espera... agora eu tô me lembrando! A madame que o chefia tá querendo, quase não te reconheci vestida assim, tão simples. - ele gargalha.
- Fo.da-se, sobe em cima desta moto e me leva até o seu ''chefia''. - subo na garupa e espero ele ligar a moto.
- Qual foi Lucas? Vai deixar essa daí falar desse jeito com você? - o menino do lado questiona.
- Essa daí vai ser a mulher do chefe dele, então é melhor ele obedecer em silêncio. - digo e o Lucas só balança a cabeça.
- Já volto Vitinho, marca um dez aí. - o menino acelera com a moto pela subida do morro enquanto avisava outra pessoa pelo rádio comunicador.
Não demorou cinco minutos, ele estacionou a moto próxima de um beco íngreme e com pouca iluminação, no final dele existia a porta de uma casa.
- Passa pela valeta e segue reto, quando chegar lá bate na porta, ele já está esperando.
- Certo, obrigada, Lucas? - indaguei e ele só virou a moto e desceu o morro novamente.
Quanta má educação! Passei devagar pela valeta com o salto alto da bota e fui pisando devagar pelo beco, que lugar horrível para se viver, francamente... Você vai ter que responder todas as minhas perguntas, Louro, pois não é fácil te localizar. Me aproximei da porta de madeira e bati duas vezes, escutei mais portas serem abertas e finalmente conseguir ver o seu rosto.
- Estava aqui, pensativo... Como uma mulher de ''prestígio e princípios'' resolveu me procurar? - ele pergunta debochando da minha cara.
- Me faz raiva e eu volto pra trás. - digo e ele só levanta as mãos pra cima se rendendo.
Passo pelo homem alto e observo a sua casa, era bem ''chique'' para o lugar que ele morava. A porta de madeira era só mais uma das outras duas por trás dela, uma de vidro, outra de grades e por último a de madeira. A sala dele tinha uma televisão smart de 60 polegadas 4K, o sofá era de marca e preto, no piso um tapete peludo branco por cima da cêramica de mármore da mesma cor, as paredes eram todas pintadas de branco e uma janela grande de vidro poderia avistar quase todo o bairro. Seguir por um corredor e passei na cozinha com ármarios brancos embutidos na parede, geladeira de duas portas e uma bancada fina de madeira com dois assentos. Abri uma porta e vi um banheiro, abri a outra porta e vi um quarto de hóspedes, quando abro a última porta do corredor avisto outra janela enorme que cobria quase uma parede toda, uma cama de casal king com um guarda-roupa de oito portas marrom escuro e outro tapete preto no chão.
- Pra um favelado você vive muito bem, quase melhor que eu...- digo voltando pra sala e encarando os olhos dele. - Não tem medo? Eu posso sair daqui correndo e denunciar o seu esconderijo pra polícia.
- Esconderijo? - o homem gargalha e caminha até o cozinha. - Você viu que janelas grandes eu tenho para observar o bairro? Acha que a polícia não me viu? São vidros resistentes, querida, nenhuma bala ultrapassa eles. Eu estou seguro desde que mantenha as janelas fechadas e o ar condicionado ligado.
- Eu quero isso também. - digo com os braços cruzados e um sorriso largo no rosto.
- O quê?