Capitulo 18

1047 Words
Talibã narrando Eu consigo ver. Tá estampado na cara dela. O desespero. O medo. Aquela sensação de que o mundo acabou. Eu conheço esse olhar. Já vi antes. Já senti também. Mas, diferente dela… na minha vida, ninguém teve pena de mim. Então, eu também não tenho de ninguém. Porque aqui é assim. Pagamento é pagamento. E eu não quero saber. Não interessa como eu vou receber. Se vai ser com dinheiro, com trabalho, com dor… desde que eu receba. No prejuízo eu não fico. Nunca fiquei. E não vai ser agora que vai ser diferente. Olhei pra ela pelo retrovisor mais uma vez. Ela desviou o olhar na hora. Sempre desviam. Respirei fundo e foquei na estrada. Já tava quase chegando no morro. Os caras em silêncio. Ela quieta atrás. O clima pesado dentro do carro. Do jeito que eu gosto. Sem conversa. Sem drama. Só o necessário. Passamos pela barreira. Os vapores já abriram caminho na hora. Reconheceram o carro. Mas eu percebi. Ela não. O olhar dela mudou. Assustada. Olhando pra tudo. Tentando entender onde tava se metendo. Boa. É assim que aprende rápido! Não falei nada. Segui direto. Subi o morro sem parar até chegar na minha goma. Eu não gosto de trazer ninguém pra cá. Nunca gostei. Minha casa é meu espaço. Meu silêncio. Meu inferno particular. Mas, nesse caso… não tinha escolha. Se eu deixo ela solta pelo morro… ela foge. E eu não sou burro. Aqui dentro… eu controlo. E quando eu não estiver… meus homens controlam. Simples! Parei o carro. Desliguei o motor. — Desce!— Falei seco. Ela me olhou. Com aquela cara emburrada. Virou o rosto. Me ignorou. Soltei um riso sem humor. — Desce! — Falei de novo. Nada. Jake já se mexeu no banco da frente. Pronto pra resolver. Mas eu fui mais rápido. Virei o corpo e falei mais alto: — Eu mandei você descer, c*****o! Ela se assustou na hora. O corpo inteiro dela reagiu. Os olhos arregalaram e ela só balançou a cabeça, concordando. Abriu a porta e desceu. Do jeito que tem que ser. Apontei pra porta da casa. — Vai! Ela foi. Sem discutir. Sem olhar pra trás. Um dos meus homens abriu a porta. Ela entrou. E já começou a olhar tudo. Cada canto. Cada detalhe. Curiosa. Perdida. Deslocada. Normal. Fechei a porta atrás de mim e fiquei observando. Ela se virou pra mim. — Eu não sei se você percebeu… — já começou. — Mas você me trouxe pra cá sem nada. Cruzei os braços. — Como é que eu vou ficar sem as minhas coisas? E o meu trabalho? Eu preciso trabalhar. — Ela deu um passo na minha direção. — Você não pode me prender aqui. — Respirei fundo. — Até porque eu não tenho nada a ver com a dívida da minha irmã. Olhei fixo pra ela. — Se você quiser, eu posso dar um jeito de te pagar. — Ela parecia desesperada. Tentando negociar. — Mas não é justo isso que você tá fazendo comigo. Fiquei encarando ela por alguns segundos e então respondi: — Problema teu! — A expressão dela travou. — Ela te deu como pagamento. — Dei um passo pra frente. — Eu aceitei! — Outro passo. — E no prejuízo… — Inclinei levemente a cabeça. — Eu não vou sair. Silêncio. Pesado. Ela passou a mão no rosto. Nervosa. Quase chorando. Mas se segurando. Boa. Pelo menos não é daquelas que desaba fácil. Virei de costas. — Bora! — Comecei a andar. — Vou te mostrar onde tu vai ficar. Ela veio atrás. Passos leves. Cautelosos. Subimos a escada. — Tu pode andar pela casa toda. — Falei enquanto subia. — Mas agora… quem limpa isso aqui é você. Ouvi ela respirar fundo atrás de mim. — A tia só vem pra fazer comida. — Continuei. — O resto é contigo. Chegamos no corredor. — E quando tiver entrega… — Parei na frente de uma porta. — É você que vai levar. — O quê? — Ela tava parada. Indignada. — Você tá louco? Dei um meio sorriso. — Eu não vou fazer entrega de nada. — Ela deu um passo pra trás. — Eu não sou traficante. — Outro passo. — Muito menos garota de recado. — A voz dela subiu. — Eu não vou trabalhar pra você. Fiquei parado. Só olhando. Analisando. — Então… — Ela respirou fundo. — Se você quiser, você me mata! — Silêncio. — Faz o que você quiser. — Os olhos dela estavam brilhando. Mas firmes. — Mas isso… — Ela balançou a cabeça. — Isso eu não vou fazer. Fiquei alguns segundos em silêncio. Sem me mexer. Sem falar nada. Só olhando. E então… levei a mão até a cintura. Puxei a arma. Devagar. Sem pressa. Na hora… ela tremeu. O corpo inteiro. Os olhos arregalaram. A respiração travou. — Isso não é justo… — A voz dela saiu falha agora. — A minha irmã que tá te devendo… — Engoliu seco. — E sou eu que vou pagar o preço? Abaixou um pouco o olhar. — Eu devo ter jogado muita pedra na cruz… Aquilo me fez prender a respiração por um segundo, mas não deixei transparecer. — Porque eu não entendo… — A voz dela quase sumiu. — Por que tanto castigo. Silêncio. Guardei a arma. Sem dizer nada e virei de costas. Comecei a subir o resto da escada. — Bora! — Falei seco. — Vou te mostrar teu quarto. Ouvi o passo dela atrás. Mais lento. Mais pesado, mas veio. Sem discutir. Subimos até o andar de cima. Fui direto até o quarto de visitas. Abri a porta. — É aqui! Ela entrou devagar. Olhando ao redor. Segurando o choro. — E presta atenção. — Falei encostado na porta. Apontei com a cabeça pro corredor. — Aquelas duas portas ali… Ela olhou. Curiosa. — Tu não entra. — Cruzei os braços. — Uma é meu quarto. — Pausa. — E a outra… — Engoli seco por dentro, mas mantive o tom firme.— Não importa.. Ela me olhou. Diferente agora, mas não falou nada. Só assentiu. Em silêncio. E eu saí. Fechando a porta atrás de mim. Porque, no fim das contas… aquilo ali… era só o começo.
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