capitulo 19

1003 Words
Fernanda narrando Eu nunca pensei que pisaria num lugar como aquele. Não daquele jeito. Não sendo levada. Não sem escolha. Quando o carro começou a subir o morro, eu já sentia… alguma coisa dentro de mim mudando. Era como se cada curva, cada rua mais estreita, cada olhar das pessoas na rua… fossem me afastando da minha vida antiga. Da vida que eu conhecia. Da vida que eu lutei tanto pra manter de pé. Eu olhava pela janela, tentando entender onde eu estava me metendo, mas a verdade é que eu não entendia nada. Era tudo diferente. O clima, o ar, as pessoas… parecia outro mundo. E, de certa forma… era mesmo. Ali não era o meu lugar. Nunca foi. E agora… era onde eu ia ficar. Essa foi a primeira coisa que realmente bateu em mim. Quando o carro parou e ele mandou eu descer. Quando eu entrei naquela casa. Quando eu ouvi da boca dele que eu ia ficar ali. Que eu ia morar ali. Que eu ia limpar. Que eu ia trabalhar. Que eu ia fazer entrega de droga. Eu senti. Aquilo não era passageiro. Não era algo que ia acabar rápido. Aquilo era real. E eu estava presa. Presa numa realidade que eu nunca escolhi. Subi as escadas atrás dele em silêncio, com a cabeça baixa, tentando processar tudo. Cada palavra dele ainda ecoava dentro de mim, como se estivesse sendo repetida sem parar. “Você vai trabalhar pra mim.” “Vai fazer entrega.” “Vai limpar.” “Vai pagar.” Eu não conseguia acreditar. Não conseguia aceitar. Mas também não via saída. Quando ele falou sobre as portas… eu senti um arrepio. Ele não falou muito. Só disse que eu não podia entrar. Que um era o quarto dele. E o outro… era da filha. Filha. Aquela palavra ficou na minha cabeça. Porque, pelo jeito que ele falou… pelo jeito que ele evitou entrar em detalhes… tinha alguma coisa ali. Alguma história. Alguma dor. Eu senti. Mas não ousei perguntar. Nem olhar demais. Porque eu não sou burra. Se ele deixou claro que eu não posso entrar… então eu não entro. Não chego perto. Não arrisco. Porque, nesse lugar… eu já entendi. Uma decisão errada pode custar a vida. E eu não quero morrer. Não assim. Não por curiosidade. Quando ele saiu e fechou a porta, eu fiquei parada por alguns segundos. Só olhando ao redor. O quarto era simples. Arrumado. Limpo. Mas não era meu. Nada ali era meu e isso doía mais do que eu esperava. Entrei devagar. Fechei a porta atrás de mim e fui direto pro banheiro. Eu precisava de um banho. Precisava de um momento. Nem que fosse pequeno. Pra tentar respirar. Liguei o chuveiro e entrei. A água caiu sobre mim, quente. Foi ali… que eu desabei. As lágrimas vieram sem aviso. Sem controle. Sem vergonha. Eu levei a mão à boca, tentando abafar o som, mas não adiantou. O choro saiu mesmo assim. Fraco no começo. Depois mais forte. Mais pesado. — Por quê?… — Sussurrei, com a voz quebrada. Fechei os olhos, deixando a água se misturar com as lágrimas. — Deus… por quê? Meu peito apertava. Cada vez mais. — Eu sempre fiz tudo certo… — Minha voz falhava entre os soluços. — Sempre trabalhei… sempre cuidei da minha irmã… Respirei fundo, tentando me controlar. — Nunca fiz m*l pra ninguém… Mas não adiantava. A dor tava ali. Crua. Aberta. — Então por que isso tá acontecendo comigo? A pergunta ficou no ar. Sem resposta. Como sempre. A verdade é que, eu nunca entendi muito bem essas coisas. Essa ideia de que, se você faz o bem, coisas boas voltam. Porque, olhando pra minha vida agora… não parecia bem assim. Parecia o contrário. Eu fiz tudo certo e mesmo assim… acabei ali. Pagando por algo que eu não fiz. Sendo castigada por escolhas que não foram minhas. Respirei fundo mais uma vez, tentando me recompor, mas o choro ainda vinha em ondas. Eu não conseguia parar. Era muito. Era tudo ao mesmo tempo. Medo. Raiva. Tristeza. Decepção. E, principalmente… solidão. Porque, no fim… eu estava sozinha. Completamente sozinha. Quando o choro finalmente começou a diminuir, eu fiquei ali ainda alguns minutos, só deixando a água cair. Tentando esvaziar a cabeça. Tentando aceitar. Mesmo sem querer. Desliguei o chuveiro. Saí devagar. Me enrolei na toalha e voltei pro quarto. O silêncio ali dentro era pesado. Diferente. Desconfortável. Caminhei até a cama e sentei. Sem trocar de roupa. Sem fazer nada. Só sentei. E fiquei. Olhando pro nada. Minha mente começou a vagar. Sem controle. Voltei a pensar na minha vida. No meu emprego. Na loja. No meu chefe. Na rotina que eu tanto reclamava… mas que agora parecia perfeita. Simples. Segura. Minha. E eu tive que deixar tudo pra trás. Sem aviso. Sem escolha. Sem despedida. Senti um aperto no peito. Forte. Mas não chorei dessa vez. Já não tinha mais força pra isso. E então… veio ela. Rafaela. Meu maxilar travou. Na hora. A raiva voltou. Misturada com dor. — Eu não acredito… — murmurei. Como ela conseguiu? Como ela teve coragem? Mesmo longe… mesmo depois de tudo… ela conseguiu me atingir. Do pior jeito possível. Eu fiz tudo por ela. Tudo. E ela… me entregou. Sem pensar. Sem sentir. Como se eu, fosse nada. Como se eu fosse descartável. Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. — Eu não te reconheço mais… — Minha voz saiu baixa. Quase um sussurro. Porque a Rafaela que eu conhecia… nunca faria isso. Mas a que existe agora… fez. E isso muda tudo. Abri os olhos devagar. O quarto continuava o mesmo. Silencioso. Frio. Desconhecido. Assim como a minha vida agora. E, pela primeira vez… eu senti medo de verdade. Do que vinha pela frente. Do que eu ia ter que fazer. Do que eu podia me tornar. Mas, no fundo… eu sabia. Eu não tinha escolha. E, gostando ou não… aquilo ali… agora era a minha realidade.
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