Capitulo 13

833 Words
Zoio narrando Quando o Talibã se casou… Foi ali que, eu comecei a ver a primeira falha de verdade nele. Porque até então, ele era impecável. Frio. Calculista. Focado. Nada tirava ele do eixo. Nada! Mas aí apareceu ela. E, de repente… tudo mudou. No começo, eu até achei que era coisa de momento. Sabe como é… mulher nova, paixão, essas coisas. Mas não passou. Só piorou. Ele começou a se afastar. Dos amigos. Do movimento. Da rua. Tudo que antes era prioridade… ficou em segundo plano. E ela virou o centro de tudo. Depois veio a criança. E aí acabou de vez. Porque ele deixou de ser o Talibã que eu conhecia. E virou outra coisa. Um cara preso dentro de casa. Enquanto a gente tava na rua, resolvendo problema, tomando tiro, garantindo que o morro continuasse de pé… Ele tava lá. Brincando de família. Eu lembro bem. A gente chamava ele pra jogar um futebol… — Não dá! Chamava pra tomar uma no bar… — Tô ocupado! Baile? Nunca mais. Pagode de domingo? Esquece. Virou um chucro. Um cara fechado. Distante. E isso… Num lugar como o nosso… É perigoso. Porque o respeito não é eterno. Você tem que alimentar ele. Todo dia. Se não… Ele acaba. E foi exatamente o que começou a acontecer. Os inimigos perceberam. Começaram a falar. A provocar. A testar. As primeiras invasões vieram. Pequenas. Mas suficientes pra mostrar que alguma coisa tava errada. E eu via tudo isso de perto. Eu tava lá. Segurando as pontas. Enquanto ele… Tava distraído. E foi aí que eu tomei a decisão. Não foi no impulso. Nunca é. Eu pensei. Analisei. Planejei. Porque, no fundo, eu já sabia… Se ele continuasse daquele jeito… Ia perder tudo. E eu junto. Então eu fiz o que precisava ser feito. Ou pelo menos… o que eu achei que precisava. Sabotei o carro dele. Simples assim. Minha intenção era uma só. Matar ele. Acabar com aquilo de vez. E assumir o que sempre devia ter sido meu. Mas o problema dos planos… É que, nem sempre eles saem como a gente quer. Naquele dia… Ele não entrou no carro. Foi ela e a criança. Fecho os olhos por um segundo só de lembrar. O barulho. O impacto. O caos. Não era pra ser assim. Mas foi. E depois disso… Veio o enterro. O silêncio. A dor. E ele… Afundou. De um jeito que eu nunca tinha visto. Porque, por mais frio que ele fosse… Aquilo destruiu ele. E eu vi. De perto. Dia após dia. Ele ficando mais quieto. Mais fechado. Mais vazio. E, ao mesmo tempo… Mais perigoso. Porque dor daquele tipo… Ou te quebra… Ou te transforma. E com ele… Transformou. Hoje, ele é pior do que antes. Mais frio. Mais distante. Mais sem limite. Os inimigos aprenderam rápido. Porque, depois disso… Ninguém mais ousou testar do mesmo jeito. Meu plano pode até ter falhado… Mas teve efeito. Eles entenderam. Ele não era fraco. Nunca foi. E, sinceramente… Eu não me arrependo. Nem um pouco. Porque, no fim… Aquilo precisava acontecer. Ele precisava perder. Pra lembrar quem ele era. E eu sei… Eu sei que ele desconfia. Ele não é burro. Sabe que aquilo não foi acidente. Que teve mão de alguém próximo. Mas provar… É outra história. E enquanto ele não prova… Eu continuo aqui. Do lado dele. Como sempre. Mas agora… Mais atento. Mais paciente. Porque dessa vez… Eu não vou errar. Eu só preciso do momento certo. E quando ele vier… Eu vou acabar com ele. De vez. Sem falha. Sem erro. Sem volta. Mas enquanto isso… Eu jogo o jogo. E parte desse jogo… São as mulheres. Porque, querendo ou não… Elas são uma distração. Uma fraqueza. Mesmo ele negando. Mesmo ele fingindo que não liga. Eu vejo. Eu observo. E eu uso. Foi assim com a moradora nova. Desde o primeiro dia que eu vi ela… Eu quis. Bonita. Gostosa. Do tipo que chama atenção sem esforço. E eu pensei: “Essa eu pego fácil.” Mas aí… Ele apareceu. Como sempre. E foi lá primeiro. Como sempre. É incrível. Parece que ele precisa ser melhor em tudo. Até nisso. E o pior… É que ele consegue. Eu ainda tentei. Fiz a boa. Deixei as amigas dela subirem no baile, mesmo não podendo. Achei que isso ia contar ponto. Que ela ia se ligar. Que ia vir atrás. Mas não. Ela me ignorou. Na cara dura. Mesmo depois dele dar aquele esculacho nela… Mesmo depois de tratar ela como qualquer outra… Ela me negou. — Eu só tenho interesse nele. Aquilo ficou na minha cabeça. Rodando. Repetindo. Porque, no fundo… É sempre assim. Eu faço. Eu ajudo. Eu jogo o jogo. E quem leva… É ele. Mas isso vai mudar. Porque, eu não nasci pra ficar na sombra de ninguém. Muito menos, na dele. E, quando chegar a hora… Eu vou mostrar isso. Pra ele. Pra ela. Pra todo mundo. Do jeito que tem que ser.
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