capitulo 12

925 Words
Zóio narrando Eu nunca fui de esquecer de onde eu vim. Até porque… não tem como esquecer. Tem coisa que, fica grudada na cabeça da gente igual cicatriz. Não importa o quanto o tempo passe, você ainda sente. E a minha história… não começa bonita. Não tem nada de superação emocionante, nem família unida, nem lembrança boa de infância. Minha infância foi fome. Foi abandono. Foi sobrevivência. Eu cresci, dentro de um barraco caindo aos pedaços, com dois pais que não sabiam nem o próprio nome direito de tão chapados que viviam. Droga. Era só isso que importava pra eles. Droga. Eles acordavam pensando nisso… dormiam pensando nisso… e no meio disso tudo, eu tava lá. E minha irmã. Ela era menor. Muito menor. E diferente de mim… ela ainda tinha inocência. Ainda acreditava que alguma coisa podia melhorar. Eu não! Eu aprendi cedo que ninguém ia salvar a gente. Se tivesse que sobreviver… era por conta própria. Teve dia que a gente não tinha o que comer. Eu saia pra rua, revirava lixo, pedia comida… fazia qualquer coisa. Mas sempre tentava levar algo pra ela. Porque, mesmo naquele inferno… Ela ainda era a única coisa que prestava na minha vida. A única! Mas, nesse mundo… coisa boa não dura. Nunca dura. Eu lembro como se fosse hoje. O dia que tudo acabou. Eu ouvi eles conversando. Meus pais. Chapados, como sempre. Rindo. Falando besteira. E no meio daquilo tudo… veio a frase. “Essa aí dá dinheiro…” Na hora eu não entendi. Mas continuei ouvindo. E aí entendi. Eles queriam vender ela. Minha irmã. Pra prostituição. Uma criança. Minha mão fechou na hora. Eu senti uma coisa subir dentro de mim… que eu nunca tinha sentido antes. Raiva. Ódio. Mas não era pouco. Era coisa de querer arrancar a alma de alguém. Eu tentei agir rápido. Peguei ela, tentei tirar de casa, tentei dar um jeito… Mas eu era só um moleque. E o mundo, é maior que a gente. Muito maior. Quando eu consegui voltar… Já era tarde. Ela não tava mais lá. Eu não consegui salvar. Não consegui. Aquilo me quebrou de um jeito que não tem explicação. Mas também me fez nascer de novo. Porque naquele dia… Eu deixei de ser criança. E virei outra coisa. Eu esperei. Esperei o momento certo. E quando ele veio… Eu fiz. Sem pensar. Sem hesitar. Matei os dois. Sem dó. Sem peso. Sem arrependimento. Porque gente daquele tipo… nem merece viver. Saí de casa sem olhar pra trás. Sem família. Sem nada. Só eu... E a rua. Foi aí que começou minha vida de verdade. Eu virei vapor. Não porque eu queria… Mas porque era o que tinha. Era sobreviver ou morrer. E eu nunca fui de escolher morrer. No começo, eu fazia o básico. Corria, entregava, ficava de olho… Mas diferente de muitos, eu nunca me contentei. Nunca. Eu sempre quis mais. Sempre olhei pros caras que mandavam… e pensei: “Eu devia estar ali.” Porque eu sabia. Eu era mais esperto. Mais atento. Mais frio. Eu não era igual os outros. Nunca fui. E talvez… Esse sempre tenha sido o meu problema. Ambição demais. Mas, nesse mundo… Se você não tiver ambição… Você vira mais um. E eu nunca fui feito pra ser mais um. Foi com uns 14 anos que eu conheci ele. Talibã. Naquela época, ele já era diferente. Dava pra ver. Enquanto muitos ainda tavam aprendendo… Ele já tava fazendo. Já tava se destacando. Já tinha respeito. E não era pouco. O pai dele tinha orgulho. Dava pra ver de longe. E aquilo… sempre me incomodou. Não vou mentir! Porque enquanto a gente ralava… Se arriscava… Fazia de tudo pra crescer um pouco… Ele já tinha caminho. Já tinha nome. Já tinha espaço. Só por ser filho de quem era. E isso… Nunca desceu. Nunca. Mas mesmo assim… A gente se aproximou. Porque nesse mundo, aliança é tudo. E ele era forte. E eu também. A amizade veio com o tempo. Ou pelo menos… o que parecia ser amizade. A gente cresceu dentro do movimento. Cada um no seu papel. Mas eu sempre olhando mais longe. Sempre querendo mais. Quando o pai dele caiu… E ele assumiu o morro… Foi rápido. Natural. Como se já estivesse escrito. E eu vi aquilo acontecer de perto. Ele sentou na cadeira. Virou patrão. E eu? Continuei ali. Mas não por muito tempo. Porque foi nesse momento que ele me chamou. Me colocou como braço direito. Confiança. Respeito. Poder. Era o que qualquer um queria. E por um tempo… Eu achei que era o suficiente. Achei que agora sim… Eu ia ter a vida que eu merecia. Dinheiro. Status. Influência. Mas não demorou muito… Pra eu perceber. Não era. Não era suficiente. Porque toda vez que eu olhava pra ele… Sentado ali. Mandando em tudo. Tomando as decisões. Sendo o dono… Uma coisa crescia dentro de mim. Eu sou melhor. Eu penso mais rápido. Eu enxergo mais longe. Eu tomo decisão sem hesitar. Então por que não sou eu? Por que não fui eu? Só porque ele é herdeiro? Só porque nasceu no lugar certo? Enquanto eu tive que me virar desde sempre? Aquilo começou a me consumir. Devagar. Mas constante. Eu fazia meu trabalho. Fazia bem. Melhor que muitos. Mas dentro de mim… Sempre tinha aquela voz. Dizendo que eu merecia mais. Muito mais. Porque, no fundo… Eu sei. Eu sei do que eu sou capaz. E talvez… Só talvez… O maior erro deles… Foi nunca perceber isso a tempo.
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