FERNANDA NARRANDO
O ônibus demorou como sempre.
Subi, paguei a passagem e sentei perto da janela. Encostei a cabeça no vidro enquanto a cidade ia acordando devagar do lado de fora. Gente indo trabalhar, lojas abrindo, trânsito começando a se formar.
Era sempre a mesma rotina.
E, de certa forma, eu gostava disso.
Rotina significava estabilidade.
Significava que, pelo menos naquele pedaço da minha vida, eu tinha algum controle.
Cheguei no trabalho alguns minutos antes do meu horário e fui direto para o vestiário colocar o uniforme. Trabalhar naquela loja não era o emprego dos sonhos, mas fazia dois anos que eu estava ali. Dois anos recebendo meu salário todo mês, pagando as contas, mantendo a casa de pé.
Para mim, aquilo já era muito.
Eu estava organizando algumas mercadorias quando uma das meninas do caixa apareceu.
— Fernanda, o pessoal do RH quer falar com você.
Franzi a testa.
— Agora?
— Aham.
Um frio estranho passou pelo meu estômago.
— Tá bom… já tô indo.
Caminhei pelo corredor até a sala pequena do RH tentando entender o que poderia ser. Talvez alguma papelada, mudança de horário… qualquer coisa assim.
Bati na porta.
— Pode entrar — ouvi a voz lá de dentro.
Abri e encontrei a gerente sentada junto com a moça do RH.
E foi naquele momento que meu coração apertou.
Porque aquele tipo de reunião nunca terminava bem.
— Fernanda, pode sentar — a mulher do RH disse com um sorriso que parecia ensaiado demais.
Sentei devagar.
Minhas mãos já estavam suando.
— Aconteceu alguma coisa?
Elas trocaram um olhar rápido.
A gerente foi quem começou.
— Fernanda, antes de tudo eu quero dizer que seu trabalho sempre foi muito bom. Você é dedicada, responsável…
Meu estômago afundou.
Eu já sabia o que vinha depois.
— Mas infelizmente a empresa está passando por uma reestruturação…
Respirei fundo.
— E alguns cortes precisaram ser feitos.
Ali.
Naquele momento.
Eu entendi.
— Então… — murmurei.
A mulher do RH juntou alguns papéis na mesa.
— Hoje será seu último dia conosco.
Por alguns segundos eu não consegui dizer nada.
Dois anos.
Dois anos acordando cedo, pegando ônibus lotado, trabalhando sem reclamar…
E acabou assim.
— Mas você vai receber todos os seus direitos — ela continuou. — Rescisão, férias proporcionais, décimo terceiro…
Assenti devagar.
Eu estava tentando não demonstrar o desespero que começava a subir dentro de mim.
— Certo.
— Se precisar de uma carta de recomendação, ficaremos felizes em fornecer — a gerente que estava acrescentou.
Forcei um pequeno sorriso.
— Obrigada.
Assinei os papéis que colocaram na minha frente e alguns minutos depois eu já estava saindo da loja com uma caixa pequena nas mãos com minhas coisas.
Meu uniforme.
Uma caneca.
Algumas anotações.
Dois anos da minha vida dentro de uma caixa de papelão.
O caminho de volta para casa pareceu mais longo do que o normal.
Minha cabeça não parava.
Eu ia receber um dinheiro bom, disso eu sabia. Depois de dois anos trabalhando ali, a rescisão ia ajudar bastante.
Mas dinheiro acaba.
Sempre acaba.
E eu não podia ficar parada.
Eu tinha contas.
Tinha comida para comprar.
Tinha uma casa inteira para manter.
Quando cheguei em casa, o portão estava do mesmo jeito que eu tinha deixado.
Entrei devagar.
Silêncio.
Rafaela ainda estava dormindo.
Como sempre.
Deixei minha bolsa na mesa e comecei a arrumar a casa. Lavei a louça que tinha ficado da manhã, varri o chão, organizei algumas roupas.
Fazer aquilo me ajudava a pensar.
Quando terminei, me joguei no sofá e peguei meu celular.
Comecei a procurar emprego.
Loja, mercado, recepção, qualquer coisa.
Eu não tinha luxo de escolher.
Enquanto rolava as vagas na tela, minha cabeça calculava tudo.
Eu ia receber um bom dinheiro agora.
Mas aluguel, contas, comida…
Uma hora ou outra o dinheiro acabava.
E quando isso acontecesse, eu precisava ter outra renda.
O tempo passou mais rápido do que eu percebi.
Quando olhei o relógio já estava quase na hora do almoço.
Levantei do sofá e fui para a cozinha.
Preparei arroz, feijão e fritei alguns ovos. Nada muito elaborado, mas era o suficiente.
Foi quando ouvi o barulho da porta do quarto abrindo.
Rafaela apareceu na cozinha com cara de poucos amigos e o cabelo todo bagunçado.
Ela me olhou com estranheza.
— Ué… o que você tá fazendo em casa essa hora?
Respirei fundo.
— Fui mandada embora do trabalho hoje.
O rosto dela mudou na mesma hora.
— O quê?
— A empresa fez cortes.
Ela arregalou os olhos.
— E agora?
Dei de ombros.
— Agora eu vou procurar outro emprego.
Mas Rafaela já estava começando a surtar.
— Como assim procurar outro emprego? E até lá?
Franzi a testa.
— Até lá o quê?
— Como você vai comprar minhas coisas?
Soltei uma risada sem humor.
— Suas coisas?
— É!
— Rafaela, você tem vinte anos.
Ela cruzou os braços.
— E daí?
— E daí que talvez esteja na hora de você procurar um emprego também.
Ela me olhou como se eu tivesse falado a maior loucura do mundo.
— Eu não preciso trabalhar. Eu nem posso fazer isso.
Balancei a cabeça.
— Ah não?
Ela ergueu o queixo com orgulho.
— Não.
— E por quê?
— Porque eu tenho minha imagem pra manter, O que minhas amigas vão falar se me verem trabalhando ? e tem mais, logo eu vou embora daqui.
O sorriso que apareceu no rosto dela me deu um arrepio.
— Porque ontem eu fiquei com o dono do morro.
Fiquei em silêncio.
— E?
— E logo logo eu vou virar patroa.
Soltei o ar pelo nariz.
— Rafaela…
— É sério.
— Você sabe quantas meninas já disseram essa mesma frase?
Ela revirou os olhos.
— Você não entende nada.
— Eu entendo mais do que você imagina.
Apontei para ela com a colher que estava na mão.
— E é melhor tomar cuidado para não acabar dentro de um saco preto.
Ela arregalou os olhos.
— Tá vendo? Você sempre faz isso!
— Isso o quê?
— Fica jogando praga na minha vida! Eu não tenho culpa que você é gorda, feia, frustrada e fracassada. Para de se meter na minha vida e falar essas coisa.
Revirei os olhos.
— Eu tô tentando te alertar.
— Não! Você só quer me ver na mesma vida miserável que você leva! Mas isso não vai acontecer, você não vai ver, eu vou ser patroa, e nunca mais vou precisar olhar pra essa sua cara de porpeta.
Ela virou e saiu pisando duro em direção ao quarto.
— Eu não nasci pra ter essa vidinha de merda!
Bateu a porta com força.
Fiquei parada na cozinha por alguns segundos.
Toda vez que a gente brigava era a mesma coisa.
Ela sempre usava as mesmas palavras.
Que eu era gorda.
Que eu era frustrada.
Que eu queria prender ela naquela vida.
No começo aquilo me machucava.
Muito.
Mas hoje em dia… já nem fazia mais tanta diferença.
Alguns minutos depois o almoço estava pronto.
Coloquei comida no meu prato e sentei na mesa.
Estava começando a comer quando Rafaela saiu do quarto.
Agora ela estava toda arrumada.
Roupa justa.
Cabelo feito.
Maquiagem impecável.
Ela passou por mim como se a discussão nem tivesse existido.
— Vou pro shopping com as meninas almoçar.
Nem respondi.
Continuei comendo.
Foi quando ouvi o barulho do zíper da minha bolsa.
Levantei na hora.
— O que você tá fazendo?
Ela segurava minha carteira.
— Vou pegar seu cartão de crédito.
— Não vai.
Ela franziu a testa.
— Claro que vou.
— Não, não vai.
Caminhei até ela e peguei a carteira da mão dela.
— Agora eu não sei nem como vou pagar as minhas contas, Rafaela.
— Eu preciso!
— Não.
— Eu já combinei com as meninas!
Cruzei os braços.
— Então pede pros seus machos pagarem.
Ela ficou vermelha de raiva.
— Eu não vou passar vergonha!
— Então se vira.
Ela me encarou por alguns segundos.
Depois pegou a bolsa dela e saiu pisando duro pela casa.
— Você é ridícula, sua gorda nojenta.
A porta bateu com força.
Fiquei sozinha na cozinha.
Olhei para o prato ainda pela metade.
Suspirei.
Rafaela confundia muitas coisas.
Mas se ela achava que eu ia passar o resto da minha vida sustentando os luxos dela, ela estava muito enganada.
Ela já era maior de idade.
Podia muito bem trabalhar.
Ou então…
Ia começar a pastar.
Porque se dependesse de mim, ela não ia ver mais um centavo sequer.