RAFAELA NARRANDO
Eu acordo com um gosto amargo na boca e a cabeça pesada, como se um tambor estivesse sendo batido dentro dela. Nem preciso abrir os olhos pra saber que exagerei de novo. Mas, sinceramente? Não me arrependo.
Viro pro lado na cama e puxo o travesseiro, tentando fugir da claridade que entra pela janela. Meu corpo ainda sente o cansaço da noite, mas é aquele tipo de cansaço bom… de quem viveu, de quem aproveitou. Bem diferente da vida da Fernanda.
Só de pensar nela já me dá vontade de revirar os olhos. Minha irmã vive como se tivesse cinquenta anos nas costas. Sempre séria, sempre preocupada, sempre reclamando de tudo. Parece que nasceu pra sofrer. E o pior? Quer que eu seja igual.
Solto um suspiro irritado e finalmente abro os olhos. O quarto tá uma bagunça, minhas roupas jogadas pelo chão, maquiagem espalhada na cômoda… do jeito que eu gosto. Vida tem que ter movimento, tem que ter intensidade. Não essa coisa parada que a Fernanda chama de “responsabilidade”.
Eu me sento devagar na cama, passando a mão pelo cabelo bagunçado. Minha mente volta pra noite passada automaticamente… e um sorriso surge no meu rosto sem que eu consiga evitar.
Talibã.
Só de lembrar o nome já sinto um arrepio percorrer meu corpo. Eu sabia quem ele era desde o começo. Todo mundo sabe. O dono do morro. O cara que manda em tudo, que ninguém enfrenta, que todo mundo respeita… ou teme. E mesmo assim, quando ele me olhou ontem, foi como se todo o resto tivesse desaparecido. O jeito que ele me puxou, a forma como ele me olhava… como se eu fosse a única ali.
Mordo o lábio inferior, lembrando. Ele é perigoso. Mas é exatamente isso que torna tudo ainda melhor. Solto uma risadinha baixa, passando a mão pelo braço como se ainda sentisse o toque dele. E ele é gostoso. Muito. Do tipo que qualquer mulher olharia duas vezes. Alto, forte, aquele olhar frio… mas que quando cai em cima de você, parece que te prende. E eu sei que ele me quis. Não foi como as outras vezes, com outros caras. Aquilo foi diferente. Eu senti.
Levanto da cama, indo até o espelho. Minha maquiagem tá borrada, o cabelo todo bagunçado… mas ainda assim eu sorrio.
— Você vai ser meu — falo baixinho, olhando pra mim mesma.
Porque eu sei que vou. Custe o que custar.
Essa é a minha saída. Não é só sobre ele ser gostoso ou sobre o poder que ele tem. É sobre o que vem junto. Dinheiro. Respeito. Luxo. Uma vida completamente diferente dessa aqui.
Olho ao redor do quarto e meu humor muda na hora. Essa casa pequena, simples… esse “lar” que a Fernanda luta tanto pra manter. Eu odeio. Odeio essa sensação de estar presa aqui, dependendo de uma vida que nunca foi feita pra mim. Eu não nasci pra isso. Nunca nasci. Desde pequena eu sabia que queria mais. Enquanto a Fernanda se contentava com pouco, eu sempre quis tudo. E eu vou ter. Vou sair dessa vida de qualquer jeito. E, se for usando o Talibã… melhor ainda.
Saio do quarto ainda meio sonolenta e vou até a cozinha. O cheiro de comida já invade o ambiente. Fernanda estava lá. O que achei estranho. Sempre no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas, eu não quero essa vida pra mim, eu não aceito viver nessa mesmice. Ela olha pra mim, e eu já vejo aquele olhar julgador que ela tenta disfarçar.
— Ué… o que você tá fazendo em casa essa hora? — pergunto.
Ela responde tranquila demais:
— Fui mandada embora do trabalho hoje.
Por um segundo eu acho que ouvi errado.
— O quê?
Ela repete, como se não fosse nada.
E é aí que a irritação sobe.
— E agora?
Ela simplesmente dá de ombros.
— Vou procurar outro emprego.
Eu fico encarando ela, sem acreditar.
— Como assim procurar outro emprego? E até lá?
Ela me olha como se eu fosse a errada.
— Até lá o quê?
— Como você vai comprar minhas coisas?
Porque é óbvio. Ela sempre comprou. Sempre bancou tudo. Ela que quis assumir esse papel, não fui eu que pedi, então agora ela precisa cumprir com ele até eu não precisar mais dela.
— Rafaela, você tem vinte anos — ela responde.
Reviro os olhos.
— E daí?
— Tá na hora de você trabalhar.
Solto uma risada.
— Eu não preciso trabalhar.
E não preciso mesmo. Principalmente agora.
— Ah não? — ela insiste.
Cruzo os braços e levanto o queixo.
— Não.
Ela pergunta o motivo, como se não fosse óbvio. E aí eu falo.
— Porque ontem eu fiquei com o dono do morro.
Vejo a reação dela na hora. Mas eu continuo.
— E logo logo eu vou virar patroa.
Porque eu sei que vou. Eu não sou qualquer uma. E eu sei do meu potencial.
Ela tenta cortar meu barato, como sempre.
— Você sabe quantas meninas já disseram isso?
Reviro os olhos já entediada.
— Você não entende nada.
E não entende mesmo. Ela vive numa bolha, achando que a vida é só trabalhar e pagar conta. Aquilo não é vida. É sobrevivência. E eu não nasci pra sobreviver. Nasci pra viver bem. Se bem que eu acho que ela só vive desse jeito porque gorda e feia igual ela é ninguém quer ela.
Ela começa com aquele discurso de sempre, falando pra eu tomar cuidado… falando coisa r**m.
— É melhor tomar cuidado pra não acabar dentro de um saco preto.
Na hora meu sangue ferve.
— Tá vendo? Você sempre faz isso!
— Tô tentando te alertar — ela diz.
— Não! Você quer me ver presa nessa vida horrível igual você!
Eu já estava irritada demais pra continuar ouvindo aquilo. Viro as costas e vou pro quarto, batendo a porta com força.
Meu coração tá acelerado. Raiva. Sempre é assim. Toda vez que a gente briga, ela vem com aquele ar de superioridade, como se soubesse de tudo. Mas não sabe. Nunca soube.
Eu caminho de um lado pro outro no quarto, tentando me acalmar. E aí vem o pensamento. Talibã. Na hora, um sorriso volta pro meu rosto. Porque enquanto ela tá aqui, presa nessa vida pequena… Eu tô subindo. Eu tô chegando perto de algo muito maior. E ela vai ter que engolir isso.
Começo a me arrumar, escolhendo uma roupa que valorize meu corpo. Porque eu sei o que eu tenho. E sei usar. Sempre soube.
Passo maquiagem com calma, arrumo o cabelo, coloco um perfume bom.
Quando saio do quarto, Fernanda tá comendo como se nada tivesse acontecido.
— Vou pro shopping com as meninas almoçar — aviso.
Ela nem responde. Nem me olha. Como se eu não fosse nada.
Isso me irrita mais do que qualquer coisa. Então eu faço o que sempre faço. Vou até a bolsa dela. Se ela não vai me dar atenção, pelo menos vai me dar dinheiro.
Começo a abrir a carteira quando ela levanta rápido.
— O que você tá fazendo?
— Vou pegar seu cartão de crédito.
Simples. Ela tenta impedir.
— Não vai.
Dou uma risada.
— Claro que vou.
Mas dessa vez ela segura firme.
— Agora eu não sei nem como vou pagar minhas contas.
Reviro os olhos.
— Eu preciso.
— Não.
— Já combinei com as meninas!
— Então pede pros seus machos.
Aquilo me atinge.
— Eu não vou passar vergonha!
— Então se vira.
Fico olhando pra ela, sentindo a raiva crescer.
— Você é impossível.
Pego minha bolsa, e o dinheiro que eu tinha escondido e saio batendo a porta.
Lá fora, o ar parece mais leve. Respiro fundo, tentando me acalmar. Fernanda acha que eu vou depender dela pra sempre. Mas ela tá muito enganada. Muito. Porque eu já dei o primeiro passo. E agora… Não tem volta. E depois Nem adianta ela aparecer na minha frente achando que eu vou ajudar ela, porque assim que eu conseguir o que eu quero para mim ela morreu.
Passo a mão pelo cabelo e começo a andar pela rua. Na minha cabeça só tem uma coisa. Talibã. O jeito que ele me olhou. O jeito que me quis. Aquilo não foi nada. Eu sei que não foi. Mas vai ser. Porque eu vou fazer ser. Custe o que custar.
Eu vou sair dessa vida. Vou ter dinheiro, respeito, tudo que eu sempre quis. E, quando isso acontecer… Eu quero ver a cara da Fernanda. Quero ver ela perceber que eu tava certa o tempo todo. Que eu não nasci pra viver aquela vida de merda. Eu nasci pra muito mais. E agora… Eu tô mais perto disso do que nunca.
Segui meu caminho até o morro, e assim que os meninos da barreira me viram, eles me olharam de cima a baixo. Me aproximei já sorrindo.
— Qual foi Paty, Tá fazendo o quê aqui?.— um deles perguntam
— Eu vim conversar com o Talibã. Eu estou ficando com ele.- falo pra eles que se olham.
— conta dois aí, que vou falar com ele e ver se tu tá liberada pra subir. — balancei a cabeça concordando e dei um sorriso porque sei que ele vai me liberar.