capítulo 04

1047 Words
Talibã narrando A primeira coisa que eu aprendi foi que ninguém nasce pronto pra esse mundo. Ou você se adapta... ou você morre. Eu não nasci dono de nada. Não nasci com arma na mão, nem com respeito na rua, muito menos com gente me chamando de "patrão". Eu construí tudo isso. No sangue. No ódio. Na necessidade. Eu cresci vendo falta. Falta de dinheiro, de oportunidade, de escolha. Minha mãe fazia o que podia, mas nunca era suficiente. Meu pai... nem vale a pena falar. Sumiu cedo demais pra fazer alguma diferença. E foi assim que eu comecei. Pequeno. Correndo de um lado pro outro, fazendo favor pra um, levando recado pra outro. No começo, era só isso. Um moleque tentando ganhar uns trocados. Mas nesse mundo, você não fica pequeno por muito tempo. Ou você sobe... ou alguém te usa até você quebrar. Eu escolhi subir. Não foi de um dia pro outro. Foi aos poucos. Observando, aprendendo, entendendo quem mandava e quem só fingia mandar. Eu sempre tive uma coisa que os outros não tinham. Cabeça fria. Enquanto muita gente agia no impulso, eu pensava. Calculava. Esperava o momento certo. E quando o momento vinha... eu não errava. Foi assim que eu cresci dentro do movimento. Fui ganhando espaço, respeito... e também inimigos. Mas inimigo nunca foi problema pra mim. Sempre teve. E sempre vai ter. O problema mesmo... foi quando mexeram com o que era meu. Minha mulher. Meu filho. Só de pensar, meu maxilar trava na hora. Três anos. Já se passaram três anos. E até hoje eu não sei exatamente como aquilo aconteceu. Isso é o que mais me corrói. Porque no meu mundo, tudo tem motivo. Tudo tem explicação. Mas aquilo... aquilo não. Eles morreram dentro da minha própria área. Dentro do lugar que eu dominava. E isso... não entra na minha cabeça. Passo a mão pelo rosto, tentando afastar as lembranças, mas é inútil. Elas vêm como um soco, sempre do mesmo jeito. Minha mulher não era qualquer uma. Ela não era dessas que ficam em volta de homem por interesse. Ela tava comigo antes de eu ter tudo isso. Antes do dinheiro. Antes do poder. Antes do nome. Ela ficou quando era difícil. Quando não tinha garantia de nada. E isso... nesse mundo... vale mais que qualquer coisa. Ela era a única que conseguia me fazer baixar a guarda. A única. E meu filho... Fecho os olhos por um segundo. Eu ainda lembro do som da risada dele. Pequeno. Correndo pela casa como se o mundo fosse seguro. Como se nada pudesse tocar ele. E eu deixei. Eu deixei ele acreditar nisso. Erro meu. Nesse mundo, ninguém é intocável. Ninguém. Quando eu cheguei naquele dia... já era tarde. O silêncio da casa foi o que mais me marcou. Não tinha grito. Não tinha barulho. Só vazio. E depois disso... eu nunca mais fui o mesmo. Desde aquele dia, eu só tenho um objetivo. Encontrar quem fez isso. E quando eu encontrar... não vai ser rápido. Não vai ser fácil. E muito menos limpo. Porque tem coisas que não se resolvem com um tiro. Tem coisas que precisam ser sentidas. Devagar. Do jeito certo. Abro os olhos e volto pro presente. A realidade é simples. Eu continuo aqui. No comando. No topo. Mas vazio. Desde então, mulher pra mim virou distração. Nada além disso. Eu pego. Uso. E mando embora. Sem nome, sem história, sem lembrança. É assim que funciona. É assim que tem que ser. Porque apego é fraqueza. E eu não tenho mais espaço pra isso. No morro, o que mais tem é mulher emocionada. Aquelas que acham que só porque passaram uma noite comigo já têm algum direito. Que vão virar "fiel", "dona", "patroa". Eu quase rio quando escuto isso. Elas não fazem ideia. Não sabem o que é ocupar aquele lugar. E nunca vão saber. Porque aquele espaço morreu junto com ela. E eu nunca mais vou colocar ninguém ali. Nunca. Passo a mão pelo cordão no meu pescoço, sentindo o peso do ouro. O respeito que eu tenho hoje não veio fácil. E eu não vou arriscar isso por causa de sentimento. Muito menos por mulher. Dou uma tragada no cigarro e solto a fumaça devagar, observando o movimento aqui de cima da laje, olhando lá pra baixo. O morro nunca para. Sempre tem alguém subindo, alguém descendo, alguma coisa acontecendo. E eu sei de tudo. Nada passa sem que eu saiba. Nada. Foi assim que eu cheguei até aqui. E é assim que eu me mantenho. Um dos moleques encosta perto de mim. — Patrão... — Fala. — Aquela mina de ontem... Nem olho pra ele. — Qual delas? Ele dá uma risadinha. — A loirinha... a que tava com o senhor. Penso por um segundo. Várias passam. Poucas ficam. — Lembro não. Ele coça a cabeça. — Ela tava perguntando do senhor hoje cedo. A Patrícinha Solto um riso curto, sem humor. Claro que tava. Sempre tem uma. — E? — Só isso mesmo. Dou mais uma tragada no cigarro. — Então deixa perguntando. Ele entende na hora e se afasta. Simples assim. Eu não dou a******a. Não deixo espaço. Porque quando você dá um pouco... elas querem tudo. E eu não tenho nada pra dar. Nada além de uma noite. E, mesmo assim, já é mais do que a maioria merece. Jogo o cigarro no chão e piso, apagando. Minha cabeça já volta pra outras coisas. Movimento. Negócio. Controle. Mas, no fundo... sempre tem aquela sombra. A dúvida. A pergunta que não tem resposta. Quem foi? Quem teve coragem de mexer comigo daquele jeito? Porque não foi só perda. Foi afronta. E isso... eu não perdoo. Nunca perdoei. Olho mais uma vez pro morro lá embaixo. Cada beco, cada viela... tudo isso é meu. Mas nem todo poder do mundo foi capaz de proteger quem realmente importava. E talvez seja por isso que eu não me apego a mais ninguém. Porque perder uma vez já foi o suficiente. Perder duas... eu não aceitaria. E nem daria essa chance. Então eu sigo assim. Frio. Calculista. Sem espaço pra sentimento. Sem espaço pra erro. Porque nesse jogo... quem sente demais... morre mais rápido. E eu não cheguei até aqui pra cair desse jeito.
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