capítulo 05

1168 Words
TALIBÃ NARRANDO Depois que apaguei o cigarro e mandei o menor sair, eu desci da laje e fui direto pra boca. Era hora de resolver as paradas do dia, ver como tava o movimento, conferir dinheiro, mercadoria... rotina. Mas uma rotina que nunca pode falhar. Entrei na boca já sendo cumprimentado pelos moleques. Alguns abaixaram a cabeça em respeito, outros só fizeram sinal com a mão. Eu não paro muito pra conversa. Meu foco é outro. — E aí, como tá o corre? — perguntei, já indo direto no ponto. — Suave, patrão. Movimento bom hoje — um dos vapores respondeu. Assenti, passando o olho em tudo. Eu enxergo detalhe que muita gente não vê. Quem tá devagar, quem tá nervoso, quem tá fora do ritmo. Nada pode passar. Peguei algumas coisas pra comer, um marmitex simples mesmo. Sentei ali no canto, de olho no movimento enquanto comia. Nunca desligo totalmente. Nem quando tô comendo. Foi quando o rádio chiou na minha cintura. Na hora eu já peguei. — Visão. A voz veio do outro lado, um dos meninos da barreira. — Patrão, aquela patricinha que o senhor pegou ontem tá aqui na barreira... querendo subir. Fiquei em silêncio por um segundo. Então era ela. A mesma que o menor falou mais cedo. Olhei pro nada, mastigando devagar. Estranho. — Tá de sacanagem... — murmurei baixo. — Não, patrão. Tá aqui mesmo. Passei a língua no canto da boca, pensando rápido. Que pørra essa mina tá fazendo aqui. — Segura aí — falei. — Manda ela contar dois que eu já tô descendo. — Pode deixar. Desliguei o rádio e levantei na hora. Já sabia que aquilo ia dar dor de cabeça. Espero que não venha na emoção, porque eu não tenho paciência não. Saí da boca ajeitando o boné e fui direto pra moto. Foi quando trombei com o Zoio entrando. — Qual foi? — ele perguntou, parando a moto do meu lado. Subi na minha e respondi: — Aquela mina de ontem tá lá na barreira. Vou descer pra ver o que que tá pegando e o que que ela tá querendo. Ele soltou uma risada de canto. — Tu sabe bem o que que ela tá querendo. No mínimo tá achando que vai conquistar o coração do patrão. Balancei a cabeça, já dando partida. — Tá ligado que ela tá perdendo tempo dela, né? Ele fez uma cara de quem já sabia. — Sempre tem uma... Nem respondi. Só acelerei. Desci o morro a milhão, cortando as vielas como se já estivesse no automático. O vento batia no rosto, mas minha cabeça tava focada. Espero que não seja b.o, já vou logo mandar os caras puxar a ficha dela. Quando cheguei na barreira, já vi ela de longe. Encostada na parede, se abanando com a própria mão. Diferente da noite passada. Mas ainda chamando atenção. Assim que ela me viu, se ajeitou e veio na minha direção. Desci da moto devagar, ajeitando meu fuzil nas costas. — Qual foi da fita? — perguntei, cruzando os braços. Ela deu um sorriso meio sem graça. — Então, Talibã... tô passando por uns problemas e queria saber se você pode me ajudar. Soltei um riso curto. — Vixi... história triste uma hora dessa, patricinha? Ela balançou a cabeça. — Não... é outra coisa. Fiquei olhando, esperando. — Eu queria saber se você pode arrumar uma casa pra mim morar aqui no morro. Aquilo me fez erguer a sobrancelha. Os vapores já começaram a rir atrás. — Tô com uns problemas com a minha irmã... — ela continuou. — E resolvi que vou sair de casa. É o melhor agora. Queria saber se você pode alugar uma casa aqui pra mim. Cruzei os braços mais forte, analisando ela de cima a baixo. — Tu vai morar aqui no morro? Ela respondeu na maior naturalidade: — Vou. A Juliana falou que os aluguéis aqui são mais baratos... e como eu não tenho muito dinheiro, achei melhor vir pra cá. Um dos vapores soltou: — Uma patricinha no morro... essa é boa. Olhei de r**o de olho pra ele, fechando a cara. Na hora ele ficou quieto. Voltei pra ela. — E tu tem dinheiro pra pagar aluguel? Ela assentiu. — Tenho. Aproximei um pouco mais. — Porque aqui não tem essa não. Eu só deixo alugar se tiver com a grana. E já vou te avisando: não aceito atraso. Chegou no dia, eu quero o dinheiro. Sem história triste. Ela concordou na hora. — Tá bom. Fiquei encarando mais um pouco. Ela não tava brincando. Aquilo era sério. E, de alguma forma... curioso. — Tu é doida... — murmurei baixo. Ela deu um meio sorriso. — Talvez. Balancei a cabeça, virando de costas. — Aqui na rua de cima tem uma casa vaga. Bora lá. — Bora — ela respondeu na hora. Saí andando e ela veio atrás. Subimos a viela devagar. Eu na frente, ela logo atrás, olhando tudo ao redor como se estivesse entrando em outro mundo. E tava mesmo. — Já vou te adiantando — falei por cima do ombro — não tem luxo nenhum. — Tá tudo bem. — Tem uns móveis lá... coisa do antigo morador. — Não tô procurando luxo. Olhei de canto. Mentira. Mas não falei nada. Chegamos na casa. Era simples. Pequena. Porta de madeira, parede sem pintura direito. Empurrei a porta e entrei. — É essa. Ela entrou devagar, olhando tudo. Sala pequena, cozinha grudada, um quarto e um banheiro no fundo. Nada demais. Mas suficiente. Fiquei encostado na parede, observando ela andar pelo espaço. Ela passou a mão pela mesa, olhou o quarto, entrou no banheiro. E, pra minha surpresa... — Eu gostei. Franzi a testa. — Gostou? — Gostei. Ela se virou pra mim com um sorriso. — É simples... mas dá pra morar. Cruzei os braços. — Pra quem veio de onde tu veio, isso aqui é queda grande. Ela deu de ombros. — Melhor do que ficar onde eu tava. Fiquei em silêncio por um segundo. Ela levou a mão até a bolsa e puxou o dinheiro. — Quanto é? Falei o valor. Ela contou as notas ali na minha frente, sem hesitar. Me entregou. Peguei o dinheiro, conferindo rápido. — Certinho. — Eu posso me mudar hoje? Olhei pra ela. — Tá com pressa, hein. — Tô. Guardei o dinheiro no bolso. — Pode. Ela sorriu, aliviada. — Obrigada. Fiz sinal com a cabeça. — Vou avisar lá na barreira que tu tá liberada pra subir e descer. — Tá bom. Me afastei da parede e fui saindo. Antes de sair, parei na porta e olhei pra trás. Ela ainda tava ali no meio da casa, olhando tudo como se já estivesse imaginando a vida dela ali dentro. Estranho. Muito estranho. Mas não falei nada. Saí e fechei a porta. Enquanto descia a viela de volta, uma coisa ficou martelando na minha cabeça. Ela não era igual às outras. E isso... Nunca era um bom sinal.
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