Fernanda narrando
Depois que a Rafaela saiu batendo a porta, a casa ficou em silêncio. Um silêncio pesado. Daqueles que incomodam.
Fiquei parada por alguns segundos na cozinha, olhando para o prato na minha frente, sem realmente ter vontade de continuar comendo. Suspirei fundo, empurrando o prato de lado.
Aquilo já estava virando rotina. Brigar, ela sair irritada, eu ficar tentando juntar os pedaços.
Levantei devagar e comecei a fazer o que sempre faço quando minha cabeça tá cheia demais: cuidar da casa. Peguei as panelas ainda quentes e comecei a colocar a comida nas Tupperware. Arroz de um lado, feijão do outro, os legumes separados. Tudo organizado.
Era automático. Era a única coisa na minha vida que eu ainda conseguia manter sob controle.
Depois fui pra pia e comecei a lavar a louça. A água correndo, o barulho do sabão, do prato batendo… aquilo me ajudava a pensar. Ou pior. Me fazia pensar demais.
Minha cabeça não parava um segundo sequer.
Eu tinha sido mandada embora. Dois anos naquele emprego. Dois anos de rotina, de segurança… pra acabar assim.
E agora? O que eu ia fazer?
Eu até ia receber um dinheiro bom, eu sabia disso. Mas aquilo não era pra sempre. Uma hora acabava.
E quando acabasse?
Fechei os olhos por um segundo enquanto esfregava um prato. Eu não podia deixar faltar nada. Nunca deixei. Não ia ser agora que isso ia acontecer. Mas minha preocupação maior era com o aluguel.
Terminei de lavar tudo e sequei as mãos no pano de prato. Olhei ao redor da cozinha já limpa e organizada, mas mesmo assim a sensação de bagunça dentro de mim não passava.
— Eu preciso pensar… — murmurei baixo.
Respirei fundo e decidi tomar um banho. Talvez a água ajudasse a esfriar minha cabeça.
Fui pro banheiro, tirei a roupa e entrei debaixo do chuveiro. A água caiu quente sobre meu corpo, escorrendo pelo meu rosto. Fechei os olhos.
Por alguns minutos eu só fiquei ali, tentando não pensar em nada. Mas era impossível. As contas. O desemprego. A Rafaela. Tudo vinha de uma vez.
Passei as mãos pelo rosto, respirando fundo.
— Vou dar um jeito… — falei pra mim mesma.
Sempre dei. Sempre dei um jeito.
Saí do banho, me enxuguei e coloquei uma roupa confortável. Ainda sentindo aquela inquietação, fui direto pro quarto.
Meu guarda-roupa tava uma bagunça. Comecei a organizar. Dobrar roupas, separar o que usava, o que não usava… qualquer coisa pra manter minha mente ocupada.
Foi então que lembrei. O dinheiro. O dinheiro que eu tinha guardado pra emergência.
Meu coração acelerou levemente. Fui direto até o fundo do guarda-roupa, puxando algumas roupas mais antigas, procurando no lugar onde eu sempre deixava.
Nada.
Franzi a testa. Comecei a procurar melhor. Tirei tudo. Revirei cada canto.
E nada.
Um frio subiu pela minha espinha.
— Não… — murmurei.
Procurei de novo. E de novo.
Mas eu sabia. Eu sabia que não tava ali.
Meu coração começou a bater mais forte.
— A Rafaela não fez isso… — falei em voz baixa, como se repetir aquilo pudesse tornar mentira. — Ela não fez isso.
Mas no fundo… Eu sabia.
Peguei o celular na mesma hora e comecei a ligar pra ela. Uma vez. Duas. Três.
Nada. Ela não atendia.
Comecei a ficar nervosa. Andava de um lado pro outro no quarto com o celular na mão.
Aquele dinheiro não era qualquer dinheiro. Era o que eu tinha guardado com tanto esforço. Era o que podia salvar a gente agora.
— Atende, Rafaela… — falei entre dentes.
Mas nada.
Respirei fundo, tentando me controlar. Não adiantava surtar.
Terminei de organizar as roupas, mesmo sem cabeça nenhuma pra aquilo. O jeito era esperar ela chegar. E perguntar olhando nos olhos.
As horas foram passando devagar. Lentas.
Eu sentei no sofá, tentei procurar mais vagas de emprego, mas minha mente não focava em nada. O tempo parecia não andar.
Até que finalmente… Ouvi o barulho do portão.
Já era noite.
Levantei na hora.
A porta se abriu e Rafaela entrou como se nada tivesse acontecido. Como se o mundo não estivesse desmoronando.
— A gente precisa conversar — falei, firme.
Ela jogou a bolsa no sofá.
— Sobre o quê?
Fui direta.
— O dinheiro.
Ela nem fingiu.
— Eu usei.
Aquilo me atingiu na hora.
— Usou com o quê?
Ela cruzou os braços.
— Não é da sua conta.
Soltei uma risada nervosa.
— Não é da minha conta? — apontei pra mim mesma. — O dinheiro era meu, Rafaela!
Ela revirou os olhos.
— Você vai ficar jogando isso na minha cara agora?
— Não, eu só quero saber com o que você gastou!
— Já falei que não é da sua conta!
— É da minha conta sim!
Minha voz saiu mais alta do que eu queria.
O clima ficou pesado na hora.
Ela começou a se alterar.
— Eu não vou ficar aguentando isso!
— Isso o quê?!
— Suas humilhações!
Franzi a testa.
— Humilhação?
— Você fica jogando tudo na minha cara!
— Porque eu faço tudo sozinha nessa casa!
Ela começou a chorar.
— Eu não aguento mais!
Virou as costas e foi pro quarto.
Fui atrás.
— Rafaela, para com isso…
Mas ela já estava abrindo o guarda-roupa, jogando roupas dentro de uma bolsa.
— O que você tá fazendo?
— Indo embora!
Senti meu coração apertar.
— Não é pra tanto.
— É sim!
— Rafaela, escuta…
— Eu não vou ficar aqui!
Respirei fundo, tentando manter a calma.
— Você não precisa ir embora.
Ela nem me olhava.
— Preciso sim.
— A gente só precisa ter um pouco de senso agora! — minha voz saiu mais firme. — Só eu trabalhava nessa casa!
Ela parou por um segundo.
— E agora nem isso! Eu fui mandada embora hoje!
Ela me olhou, surpresa por um segundo. Mas logo o olhar endureceu de novo.
— Isso não é vida pra mim.
— Rafaela…
— Eu não vou viver assim!
Ela voltou a arrumar as coisas com mais pressa.
— Eu vou embora e pronto!
Fiquei parada, olhando. Eu já conhecia aquele olhar. Ela já tinha decidido. E não importava o que eu dissesse. Nada ia mudar.
Suspirei, sentindo um peso enorme no peito.
— Eu fiz o que eu pude por você… — falei baixo.
Ela não respondeu.
Continuei olhando ela juntar tudo. Roupa, maquiagem, sapatos… jogando tudo dentro da mala.
Mais ou menos uma hora depois, ela já tava pronta.
A casa parecia ainda mais vazia.
— Você tem certeza disso? — perguntei.
Ela pegou a bolsa.
— Tenho.
— Vai pra onde?
— Já tenho pra onde ir.
Aquilo me deixou ainda mais preocupada.
— Rafaela…
— Fica tranquila.
Ela deu um sorriso pequeno.
— Segue sua vida… que eu vou seguir a minha.
O barulho de um carro parando na frente da casa chamou atenção.
— Meu Uber chegou.
Fiquei parada na sala enquanto ela ia pra fora com as coisas. Observei ela indo e voltando, carregando as bolsas.
Por um momento… Eu me senti culpada. Como se eu tivesse falhado. Como se eu não tivesse conseguido segurar ela aqui.
Sentei no sofá devagar, sem tirar os olhos dela.
Minha irmã. A única família que eu tinha. Indo embora.
E, pela primeira vez… Eu não fazia ideia do que faria daqui pra frente, porque tudo o que eu sempre fiz foi cuidar dela.