Capítulo 07

1264 Words
RAFAELA NARRANDO Eu saí do morro com a cabeça a mil. Não era nem pelo caminho, nem pelas pessoas olhando… era pelo que eu ia ter que fazer quando chegasse em casa. Eu sabia que não dava mais pra ficar lá. Já não vinha dando há muito tempo. Mas sair assim… de uma vez… também não era tão simples. Fiquei o caminho inteiro no Uber tentando montar alguma desculpa na minha cabeça. Vou dizer que arrumei um emprego… Vou falar que vou morar com uma amiga… Vou inventar qualquer coisa pra ela não encher o saco… Mas nenhuma parecia boa o suficiente. Porque a Fernanda sempre complica tudo. Sempre transforma qualquer coisa numa palestra, num drama, numa cobrança. Revirei os olhos só de imaginar. Mas, no fundo, eu já sabia. Não importava o que eu dissesse… a gente ia brigar. Sempre acaba assim. Encostei a cabeça no banco e fiquei olhando pela janela, vendo a cidade passar. Cada rua, cada loja, cada pessoa… tudo parecia pequeno demais pra mim. Eu não nasci pra isso. Nunca nasci. Enquanto a Fernanda se contenta com o mínimo, eu sempre quis mais. Sempre olhei pra frente, pra cima… nunca pra baixo. E agora eu tava dando o primeiro passo de verdade. Parei em um restaurante para poder comer porque nem isso eu tinha feito ainda. mandei mensagem para a Virgínia e falei para ela me encontrar ali que eu tinha novidades para contar para ela. Mandei minha localização e fiquei esperando por ela e pela comida. Depois dê alguns minutos a garçonete trouxe a minha comida e eu tava com tanta fome que ataquei o prato. Alguns minutos depois a Virgínia chegou, e já veio toda empolgada perguntando o que tinha acontecido. como ela já tinha almoçado ela pediu só um suco mesmo para ela, e então eu comecei a contar para ela sobre a minha irmã que perdeu o emprego, e que eu ia me mudar para o morro para poder ficar perto do Talibã. — você tá falando sério? não acredito que você vai se mudar só para ficar perto daquele gostoso. — claro que vou, ele vai ser meu Amiga você vai ver. ficamos um tempão ali conversando, já era quase de noite quando ela me deixou no portão de casa. Eu ainda tava procurando um motivo para poder falar para a Fernanda que eu estava indo embora, mas nem precisei falar nada. Ela mesma me deu o motivo que eu precisava. Aquela história do dinheiro… O jeito que ela falou comigo… Como se eu fosse uma criança. Como se eu tivesse que dar satisfação de tudo. Aquilo foi o empurrão final. Eu sabia que eu estava errada, mas eu nunca admitiria isso para ela. Então eu fiz o que tinha que fazer. Peguei minhas coisas. Todas. Roupa, maquiagem, sapato… tudo. Sem olhar pra trás. Sem pensar duas vezes. Ela facilitou. E agora… Agora eu ia seguir minha vida. Bem longe daquela casa. Bem longe daquela vida. E bem longe dela. Soltei um riso baixo. — Não vou viver assim nunca… — murmurei. Não vou me contentar com pouco. Nunca. Porque eu mereço mais. Muito mais. E é isso que eu vou ter. Seja por bem… Ou por m*l. Se ela tá acostumada com a mesmice, e a viver na pobreza, problema e dela. Mais também, gorda, feia quem vai querer ?. O carro parou de repente, me tirando dos pensamentos. — Moça, eu só vou até aqui. Franzi a testa e olhei pra ele pelo retrovisor. — Como assim? Ele apontou com a cabeça. — Daqui pra frente é morro. Eu não subo. Olhei pra frente, vendo a entrada. — E eu vou fazer o quê com as minhas coisas? Ele deu de ombros. — Aí já é problema teu. Aquilo me irritou na hora. — Como assim problema meu? — Eu não vou subir, não. Não quero morrer, não. Ele já tava abrindo a porta pra descer. Respirei fundo, sentindo a raiva subir. Sério? Ele deu a volta no carro e abriu o porta-malas, começando a tirar minhas coisas como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Inacreditável… — murmurei, descendo também. Ele foi colocando tudo na calçada. Minhas malas. Minhas sacolas. Tudo. E eu ali, parada, olhando sem acreditar. A sorte dele é que o pagamento já ia direto no cartão. Porque se dependesse de mim… Ele não ia ver um centavo. Quando ele terminou, entrou no carro e foi embora como se nada tivesse acontecido. Fiquei ali. Com um monte de coisa. No meio da rua. Respirei fundo, passando a mão no cabelo. — Tá de s*******m… Olhei pra subida do morro. A casa não era longe. Mas também não era tão perto assim. E eu não tinha como levar tudo de uma vez. E também não podia deixar ali. Se eu deixasse… Iam levar. Sem pensar duas vezes. — E agora…? — murmurei. Fiquei alguns segundos parada, tentando pensar. Até que vi os vapores mais acima. Respirei fundo e fui até eles. — Ei… — chamei. Um deles me olhou de cima a baixo. — Fala. — Tem como vocês me ajudarem a subir com as minhas coisas? Ele soltou uma risada. — Tá achando que nós é burro de carga? Revirei os olhos. — Eu pago. Ele ficou quieto por um segundo. Mas antes que ele respondesse, outro entrou na conversa. — Relaxa aí, pô. Eu ajudo. Olhei pra ele. — Sério? — Aham. Fica de boa. — Eu pago — repeti. Ele balançou a cabeça. — Não precisa, não. Só um favor. Dei um sorriso. — Valeu. E valeu mesmo. Porque sozinha… eu não ia conseguir. Ele foi até um carro que tava um pouco mais afastado e trouxe ele de ré até onde estavam minhas coisas. Naquele momento, eu agradeci mentalmente. Porque aquilo salvou minha vida. Ele desceu e começou a colocar tudo no porta-malas. Eu ajudei no que dava, mas ele fez a maior parte. Em poucos minutos já tava tudo guardado. — Entra aí — ele disse. Entrei no carro sem pensar duas vezes. A subida foi rápida. Como ele mesmo disse, era logo ali. Quando chegamos, desci e fui direto abrir a porta da casa. Ainda parecia meio estranho. Mas era real. Agora era meu. Ele começou a tirar as coisas do carro e levar pra dentro. Uma por uma. Eu só observava, ainda tentando processar tudo. Minha vida tava mudando. E rápido. Quando ele terminou, limpou as mãos na bermuda. — Pronto. Olhei pra ele. — Obrigada mesmo. — Tamo junto. — Tem certeza que não quer nada? Ele negou. — Tô de boa. Foi só um favor. Assenti. — Valeu de verdade. Ele fez um sinal com a cabeça e saiu. Ele era bem bonitinho, na verdade muitos aqui são gatos, até mesmo o braço direito do Talibã, mais igual a ele não tem. Fiquei parada na porta por alguns segundos, olhando ele ir embora. Depois voltei meu olhar pra dentro da casa. E foi aí que caiu a ficha. Tudo tava no chão. Uma bagunça. Mala aberta. Sacola jogada. Roupa misturada. Soltei um suspiro. — É… agora é comigo. Fechei a porta devagar. Olhei ao redor mais uma vez. Simples. Pequena. Sem luxo. Mas era minha. Pelo menos por enquanto. E melhor do que depender da Fernanda. Muito melhor. Passei a mão pelo cabelo e estalei o pescoço. — Quanto antes começar… — murmurei. Me abaixei e abri a primeira mala. — Mais rápido termina. E comecei. Porque, pela primeira vez… Eu tava fazendo as coisas do meu jeito.
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