Capítulo 16

1056 Words
TALIBÃ NARRANDO Esses últimos dias… Têm sido os piores. E, não é como se os outros tivessem sido fáceis. Mas, parece que, quanto mais o tempo passa… pior fica. Mais pesado. Mais difícil de carregar. Porque, ao contrário do que dizem por aí… O tempo não cura p***a nenhuma. Ele só faz você aprender a conviver com a dor. E, no meu caso… Nem isso eu consegui ainda. Tem noite que eu fecho o olho e vejo tudo de novo. O carro. O barulho. O desespero. O grito dela. E o silêncio depois. Aquele silêncio que nunca mais saiu da minha cabeça. Eu acordo suado. Com o peito apertado. Sem ar. E, a única coisa que passa pela minha mente é uma: Quem fez isso? Porque, não entra na minha cabeça. Não entra. Aquilo não foi acaso. Não foi erro. Foi feito. Planejado. E eu sei disso. Eu sinto. E enquanto eu não descobrir quem foi… Eu não vou conseguir seguir. Não vou conseguir respirar direito. Não vou conseguir viver. Porque não é só saudade. É revolta. É ódio. É sede de vingança. E isso… Isso não passa. O morro também não tá ajudando. Tá sob alerta. Movimento estranho. Inimigo rondando. Boato de invasão. E, quando isso acontece… A gente não pode vacilar. Então eu tenho passado mais tempo na boca do que em qualquer outro lugar. Resolvo tudo de lá. Comando de lá. Durmo lá, às vezes. E, no fundo… Isso até ajuda. Porque me mantém ocupado. Me mantém focado. Me impede de pensar. Ou pelo menos… Diminui. Porque, quando eu paro… Já era! A cabeça vai longe. Pra lugares que eu não quero voltar. E a casa… A casa é o pior lugar. Porque, lá tem memória em cada canto. Cada parede. Cada detalhe. Então eu evito. Fico na rua. No corre. No movimento. Porque ali… Eu ainda sou o patrão. Ali eu ainda tenho controle. Diferente da minha própria vida. E, no meio disso tudo… Tem ela. A moradora nova. Que não sai da bota. Grudada. Igualzinha às outras. Se achando diferente. Se achando especial. Se achando fiel. Eu já vi esse filme. Várias vezes. E, sei exatamente como termina. Então eu corto. Não deixo crescer. Não deixo criar ilusão. Porque, eu não vou aceitar. Não vou dar espaço. Não vou repetir erro. Hoje eu cheguei na boca e o Zóio já veio na minha direção. Com aquela cara de sempre. — Preciso trocar uma ideia. — Fala! Ele encostou mais perto. — A patricinha tá devendo droga. Franzi a testa na hora. — Como assim? — Já entrou no prazo. — Que p***a é essa? Já fiquei puto. Porque eu já tinha dado a visão. Nada de vender fiado. Nada! — Eu já não falei pra brecar essa parada? Ele levantou a mão, meio na defensiva. — Ela pegou com os caras da venda… eu nem tava sabendo. Balancei a cabeça, irritado. — Isso não existe. Aquilo ali vira bagunça rápido. Se deixar. — Eu vou lá cobrar. Ele negou na hora. — Deixa que eu resolvo. Olhei pra ele. Firme. — Não! Dei um passo pra frente. — Tá me devendo… eu que vou lá falar com ela. Não esperei resposta. Saí. Mandei preparar o caminho e desci direto pra casa dela. Sem pressa. Mas com a cabeça já no lugar. Cheguei na porta. Bati. Nada. Bati de novo. Mais forte. Esperei. Alguns segundos depois… Movimento lá dentro. Passos. A porta abriu. E ela apareceu. De toalha. Molhada. Cabelo pingando. Parei um segundo. Analisando. Ela abriu mais a porta e eu entrei. Sem pedir. Sem falar nada. Ela fechou atrás de mim. E aí… A toalha caiu. No chão. Do nada. Mas não foi acidente. Eu sei quando é. E aquilo ali… Foi de propósito. Ela abaixou rápido, pegando a toalha. Com uma cara de quem sabe muito bem o que tá fazendo. Cínica pra c*****o. Olhei de cima a baixo. Sem expressão. — A gente precisa trocar uma ideia. Ela sorriu. Achando que era outra coisa. Mas não era! Cruzei os braços. — Cadê a minha grana? O sorriso dela diminuiu. — Que grana? — Não se faz de otária! Falei seco. — O prazo acabou. Ela respirou fundo. — Eu não tenho. Fiquei olhando. Sem reação. — O Zóio não falou que eu ia ter que pagar a droga que eu tava usando. Inclinei a cabeça. — E eu tenho cara de quê? Dei um passo na direção dela. — De o****o que fica bancando vício de patricinha? Ela travou um pouco. Mas, tentou sustentar. — Você usou comigo. Ri sem humor. — E daí? O clima pesou na hora. — Isso aqui não é caridade. Minha mão foi direto na cintura. Puxei a Glock. Sem pressa. Sem levantar. Só deixando visível. Os olhos dela arregalaram na hora. — Eu não tenho o dinheiro — ela falou, mais baixo agora. Aproximei mais. — Então vai arrumar. — Eu não tenho como! — Eu não quero saber. Minha voz saiu mais fria do que eu esperava. — Ou tu paga… Ou tu vai trabalhar pra mim até quitar cada centavo. Silêncio. Pesado. — E se não quiser… Dei um leve sorriso. Sem graça. — Eu te mato. Ela respirou fundo. Pensando. Rápido. Desesperada. E então… Falou. — Eu posso te dar minha irmã. Aquilo me fez parar. Por um segundo. — O quê? — Ela faz tudo o que você mandar. Olhei fixo pra ela. — Tu tá oferecendo tua irmã como pagamento? Ela assentiu. Sem hesitar. — Sim. Fiquei alguns segundos em silêncio. Processando. Depois… Dei um passo pra trás. — Endereço. Ela falou. Sem pensar duas vezes. Passou tudo. Detalhado. Como se estivesse trocando qualquer coisa. Anotei. Guardei a arma. E fui saindo. Antes de abrir a porta, parei. Sem olhar pra trás. — Se eu não trouxer tua irmã comigo… Virei só o rosto, de leve. — Quero minha grana. Pausa. — Até meia-noite. Abri a porta. — Se não… Nem terminei. Não precisava. Saí. Subi de volta pra boca com o endereço na cabeça. Mandei trazer o carro. Chamei os seguranças. E entrei. Sem pensar muito. Porque uma coisa é certa… No prejuízo… Eu não fico. E se ela quer usar a própria irmã como moeda de troca… Então é ela mesmo… Que eu vou buscar.
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