CAP 02: RET .

1754 Words
Hoje, o movimento na boca tá corrido; muita coisa pra resolver, fora o estresse que eu tô passando com essas mulas que não sabem fazer p***a nenhuma sozinhas. Tudo precisa de mim. Convoquei os meus dez melhores soldados para uma missão. Vamos sequestrar a filhinha do comandante da BOPE, o famoso Vicente. Aquele cara é a pior praga que veio ao mundo. Tudo de r**m que aconteceu na minha vida foi por conta daquele desgraçado. Nunca me esqueci do dia em que ele matou minha mãe e meu coroa na minha frente. Só de lembrar disso, meu sangue já ferve, e eu fico louco para começar minha vingança. Ret: O negócio é o seguinte, rapaziada. Quero todo mundo prestando atenção aqui para não ter erro, demoro? - digo, e eles assentem com a cabeça. Então, continuo - Como vocês já sabem, eu mandei um mano aí fazer uma passagem para dar certo de entrar na casa sem fazer barulho. O bagulho já ficou pronto, e não vamos perder mais tempo. Th: Ai, patrão, e se tiver segurança lá na casa? - pergunta. Ret: Eu sei de tudo o que acontece lá naquela merda, só tem um segurança, a empregada e o motorista, e é pra fazer todo mundo de refém. Se começarem a fazer gracinha, pode mandar bala na cabeça - digo sem paciência. Comigo é assim, aqui não se brinca com bandido não. - Vamos entrar por um bueiro e vamos sair na casa de piscinas. PH e VK vêm comigo atrás da menina, e o resto vai atrás dos outros na casa, demoro? Alguém tem dúvida do plano - digo sério, sem um pingo de paciência para ter que explicar de novo. Suspiro quando todos assentem. Amanhã, já vamos fazer a missão. Sei que é o plantão do merdinha, e não vamos perder a oportunidade. Vicente sempre foi o d***o em forma de pessoa. Nunca tive nada com policiais; muito pelo contrário, quando eu tinha meus nove anos, eu até sonhava em ser um, pois para mim, eles eram os heróis. Até que um dia, normal de invasão, tudo mudou. 20 anos atrás... Hoje era dia de campeonato de futebol na favela. Insisti muito para mamãe e papai me deixarem vir. Papai só concordou se eu viesse acompanhado da minha mãe. Ele nos deixou na porta do campo e desceu para a boca de fumo para "trabalhar". Confesso que não gostava muito do que meu pai fazia. Ele era meio que o chefe da favela. Mesmo ele já me explicando uma vez, eu não entendo muito desses negócios. Eu e mamãe entramos no campo, e o jogo já estava para começar. Era nossa favela contra o Jacarézinho, e o time vencedor ganharia uma quantia muito boa de dinheiro. Eu estava torcendo para o meu time, é claro. O jogo ia e vinha; as duas favelas estavam empatadas. Estávamos na metade do segundo tempo. Ret: Mamãe, pode me dar dinheiro para eu comprar um picolé - digo com os olhos de cachorro abandonado para ela ficar com dó. Mamãe ri da minha cara e me entrega uma nota de vinte. Dou um beijo em sua bochecha e vou saindo quando escuto ela falar. Cecília: Volta logo, meu amor, e toma cuidado - diz, e eu assinto. Vou em direção ao bar do seu Zé, espero na fila que está gigantesca. Dia de jogo, o bar do velho enche muito, então tenho que ficar esperando nesse sol de rachar. Por mais que eu seja o filho do dono e pudesse furar a fila, se alguém ousasse me xingar, já estava considerado morto. Mesmo assim, prefiro esperar, pois era mancada com quem estava na fila. Dez minutos depois, chegou minha vez. Até achei que ia demorar mais. Ret: Oi, seu Zé, me vê dois picolés de morango, chocolate e leite condensado - digo entregando o dinheiro para o mesmo Zé: Oi, meu filho, é pra já - seu Zé vai até o freezer e pega os picolés que eu pedi. Aqui está, menino - diz, entregando-me a sacola e o troco. Agradeço ao velho e saio indo em direção às arquibancadas. Quando estou prestes a subir as escadas, escuto o barulho de foguetes estourando no céu. Isso só significava uma coisa: invasão. Os tiros começam, e as pessoas saem correndo, gritando em direção às suas casas para se salvar. Meus olhos se arregalam, e eu tento encontrar minha mãe no meio da multidão. Vejo mamãe perto do banheiro, tentando procurar alguém. Vou em sua direção correndo. Ret: Mamãe, o que está acontecendo - digo com a voz trêmula de medo. Cecília: Meu filho, graças a Deus você apareceu. Temos que sair daqui o mais rápido possível - diz, pegando em minha mão, e saímos correndo. No meio do caminho, encontramos papai todo afobado. Roger: Vocês estão bem? Alguém deles encostou em vocês? - pergunta com a voz grave de ódio. Morro de medo quando papai está assim. Cecília: Não, a gente tá bem - diz, tentando acalmar o mesmo. Roger: Vocês não podem ficar aqui. Vou levar vocês para casa em segurança - diz, pegando a mão de mamãe, que pega a minha. Papai se agacha em minha frente; o mesmo leva sua mão em seu pescoço e tira o seu cordão, colocando em minha mão. - Independente do que acontecer hoje, você tem que prometer para mim que vai se cuidar - papai diz sério. Eu não estava entendendo o que ele quis dizer com aquilo. Ret: Por que está me dizendo isso, papai - digo confuso. Roger: Só me prometa isso, por favor - diz. Mesmo não entendendo nada, eu concordo. Ret: Eu prometo, papai - digo, e papai coloca a gente atrás de suas costas para nos proteger, cortamos caminhos em um beco. Papai apontava a arma enorme para frente enquanto nos guiava. De repente, sinto mamãe parar, e acabo batendo o rosto em suas costas pela velocidade em que estávamos. Por que paramos? Se era para chegarmos logo em casa. Sinto o corpo de mamãe se tensionar e a sua respiração acelerada. Xxx: Olha só quem eu encontrei, a família perfeita - diz uma voz grossa carregada de ironia. Eu não sabia quem era; nunca tinha ouvido aquela voz antes. Cecília: Por favor, Vicente, não faz nada com o meu filho, ele não tem nada a ver com isso - ouço mamãe falar com uma voz de choro. Arqueio as sobrancelhas, não entendendo nada. Quem é Vicente? E o que eu não tenho nada a ver? Roger: Se você relar um dedo na minha família, eu mato você - papai fala entre dentes, tentando não demonstrar sua raiva. Vicente: Cala a boca que você não está em condições de citar nada aqui. Eu vou matar todos vocês - diz o tal do Vicente, e meu corpo começa a tremer. Mesmo morrendo de medo, saio de trás da mamãe e vou até a frente do meu pai. Vejo que são três policiais, reconheço pela farda que estão usando. Ret: Por favor, não mate meu papai e nem minha mamãe - digo chorando. Vicente: Oh, coitadinho, até fiquei com dó - diz, fingindo estar limpando lágrimas do seu rosto. Papai me coloca de novo atrás de mamãe, e eu já não consigo ver o que está acontecendo. Roger: Deixa meu filho em paz - diz com ódio. Mamãe só chorava em minha frente, e eu sentia que alguma coisa de r**m ia acontecer. Cecília: POR FAVOR, ABAIXA ESSA ARMA, VICENTE, NÃO FAZ ISSO - me assusto quando mamãe começa a gritar de desespero. Mais já era tarde demais. Só vejo os corpos falecidos dos meus pais caindo no chão, todo ensanguentado. Ret: NÃO, PAPAI ACORDA POR FAVOR - digo desesperado, ajoelhando-me ao lado dele e de mamãe, recusando-me a acreditar. - POR FAVOR, NÃO ME DEIXA, SOCORRO, ALGUÉM ME AJUDA. - grito com todas as minhas forças, mas ninguém aparece para me ajudar. Olho para cima, onde estão os três policiais que mataram meus pais. Vicente: Esse é o fim de traidores, moleque. A vagabunda da sua mãe merecia mais do que isso, merecia ser estuprada que nem uma c****a no cio - cospe suas p*****************s, me fazendo ferver de raiva. Minha mãe não era uma vagabunda e não merecia nada disso do que ele está falando. Vicente: E o merdinha do seu pai, eu deveria dar para os cachorros comer, mas eu vou deixar você ficar um pouquinho com eles antes de te mandar pra vala também, seu favelado de merda - diz gargalhando. - Você tem cinco minutos. Abaixo a cabeça e olho para os corpos dos meus pais sem vida, mamãe tem uma bala cravada no peito e na cabeça. Já papai tem várias balas espalhadas pelo corpo. Olho para cima de novo e vejo que os três estão distraídos conversando. Eu não queria abandonar meus pais aqui, mas se eu não for, vou ter o mesmo fim que eles, e eu não vou descansar até me vingar desse filho da p**a. Dou um beijo na testa da minha mãe, não me importando com o sangue, e logo em seguida dou um beijo na mão de papai. Antes que eles percebam, eu saio correndo por onde viemos, escuto vários disparos vindo em minha direção, não olho para trás porque sei que se eu fizer isso vou parar e acabar morrendo. Corro como nunca corri em minha vida, só paro quando entro em um matagal longe o suficiente para que nenhum policial me ache. Coloco as mãos no joelho tentando conseguir ar para os meus pulmões, me sento no meio do matagal e fico lá até o anoitecer. hoje... E esse foi o dia mais r**m da minha vida, que eu evito de pensar. Depois que a operação daqueles "cu azul" acabou, eu voltei pro morro. Enterrei meus pais, e logo depois, minha tia Rosa me pegou pra criar. Quando completei meus 17 anos, eu assumi o comando do morro. Nunca me imaginava comandando o tráfico, mas nem sempre as coisas são do jeito que esperávamos. A realidade é que os "cu azul" tentam acabar com o tráfico, mas eles nunca vão conseguir. A cada dia que passa, é um moleque que sonha em ser jogador de futebol que acaba sendo morto pela polícia. Eles falam na mídia que os menores eram bandidos. E com isso, vão nascendo menores revoltados e indo para a vida do crime. E é sempre assim, até porque depois de nós, vem nós de novo.
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